COMO GOTHAM TRANSFORMA CRIME EM LOUCURA?

Antes do Batman, antes mesmo de ter um nome, Gotham City era dominada por famílias criminosas como os Falcone, Cobblepot e Marone. Por décadas, o sangue deu sentido à hierarquia. Geração após geração, os mesmos sobrenomes sentaram-se no trono, reinando através da corrupção política, da conivência da polícia e, principalmente, pela base da pirâmide: os homens e mulheres que sujavam suas mãos em nome deles. Eles poderiam ter incontáveis rostos, de um viciado a um cobrador, de uma prostituta a uma distribuidora de drogas. Por mais que a mente-mestre habitasse no topo dos prédios, eram essas faces que inundavam as ruas de Gotham com todo o tipo de crime e imoralidade, que faziam dela o inferno pela qual o mundo a conhece. Eles eram como veias que estendiam-se por todo o corpo da cidade, distribuindo uma doença que parecia impregnada nela desde os primórdios. Fato é que, uma vez dentro dela, essas pessoas seriam capazes de quaisquer atrocidades para alcançar um único objetivo: subir um degrau na pirâmide. Para ter 1% de chance de ser alguém, era preciso abrir mão de sua consciência. Matar, espancar, roubar e até pior. Pessoas cujo os rostos e nomes jamais seriam lembrados, mas que, mesmo assim, faziam questão de destruir as vidas de tantos outros que também não conheciam, em favor de uma falsa ideia de ascensão. Com o surgimento do Cavaleiro das Trevas, as últimas camadas da pirâmide não permaneceriam intactas: capangas, policiais e políticos corruptos e até mesmo os grandes mafiosos, a promessa feita em Batman: Ano Um, manteve-se de pé: nenhum deles estaria salvo. O Homem-Morcego não limitava-se pelas leis, não poderia ser subornado pelo dinheiro ou dissuadido pelo medo. Pelo contrário, era justamente o sentimento que antes lhes dava o domínio sobre Gotham que agora os fazia respirar aliviados com o sol nascia. O Batman estava além das regras do jogo que eles por tanto tempo jogaram sem dificuldades. Porém, ao invés de simplesmente aceitar sua extinção, o mal inerente a Gotham buscou um novo caminho, o da evolução, metamorfoseando-se em algo totalmente diferente, algo incontrolável, imprevisível e inexplicável. Os ternos elegantes foram substituídos pelos uniformes espalhafatosos, as celas superlotadas de Blackgate foram superadas pelos corredores assombrados do Asilo Arkham, a ganância deu lugar a um desejo irracional pelo caos. Se o Batman não tinha limites, seus inimigos também não poderiam ter. Se ele era movido pela loucura, eles também seriam. No entanto, havia algo em Gotham que ainda não havia mudado: a base da pirâmide, o criminoso comum, sem nome, sem relevância. Ele agora não subornava autoridades a mando de Falcone, mas explodia hospitais ao bel prazer do Coringa. Não levava mais os Marone para suas confraternizações luxuosas e, sim, usava o mesmo veículo para levar uma bomba de gás do medo para o Espantalho. Não tratava-se mais de dinheiro, status ou poder, era pura e simples loucura. Por mais que a maioria desses criminosos ainda desse valor ao dinheiro, a sua função era muitíssimo diferente em suas mãos. E mais uma vez, os João ninguém de Gotham eram responsáveis por torná-la real, mesmo sem entender o significado mórbido que seus patrões deram a ela. Seu sonho continuava o mesmo: ser alguém. Mas, como ser como eles? O poder não estava mais nas mãos de engravatados, mas sim, na mão de maníacos que faziam tremer até mesmo aqueles que estavam ao seu lado. Será que valia a pena? E principalmente: será que era possível ser como eles?

MARVEL E DC

Rafael Silva

9/26/20266 min read

(Créditos: DC Comics) 

A nova realidade tornava-se clara: para subir na pirâmide não era mais necessário somente abrir mão da consciência, como também, da sua sanidade. Para viver entre os monstros, era preciso também ser um.

Poucas obras abordam de forma tão brilhante a deterioração da criminalidade de Gotham (se é que isso é possível) quanto Coringa, de Brian Azzarello e Lee Bermejo, que nos mostra essa verdade pelos olhos de Jonny Frost, um peixe-pequeno, que aprende ao lado do Palhaço do Crime o que era preciso para ser alguém em Gotham City.

A Purificação do Crime

A trama começa com algo inexplicável: o Coringa sendo solto do Asilo Arkham. Não era mais uma de várias fugas, ele estava simplesmente saindo pela porta da frente da Casa da Loucura, após conseguir convencer os médicos de que era uma homem são.

Mesmo tendo matado centenas (senão milhares) de pessoas ao longo de sua sanguinária carreira, bastou um parecer psiquiátrico para que o maior criminoso da história de Gotham pudesse se ver livre mais uma vez.

A notícia correu pelas ruas da cidade, inundando-as com medo. Arlequim do Ódio não era temido apenas pelas boas almas de Gotham. Até mesmo os piores dos piores tinham um frio na espinha ao pensar no sorriso esculpido em seu rosto, principalmente seus vários e vários capangas, que em sua ausência, tomaram para si seu império criminoso, e agora, sabiam que sua traição seria paga com a vida.

Quando a notícia chegou, apenas um homem teve coragem de ir ao encontro do Coringa: Jonny Frost. Frost era um zé ninguém, indo e voltando de Blackgate por crimes menores, enquanto sua ex-mulher cobrava a pensão de seus filhos. Do tipo que assinou a dispensa da guarda dos filhos apenas para receber uma carona de volta a Gotham com sua ex.

Um homem péssimo do tipo que Gotham estava infestada, nada de especial, mas, ao ter a coragem de ir ao encontro da loucura, ele mostrou almejar algo além da ordinariedade.

De volta ao submundo, o Coringa inicia sua vingança contra aqueles que o seguiam apenas pelo dinheiro, matando brutalmente Monty diante de todos. Os olhos de Frost se enchem ao assistir aquela cena macabra. A loucura poderia ter feito do Coringa um monstro, mas, o poder que ela o dava fazia com que todos os olhos daquele clube se voltassem a ele, prontos para servi-lo pelo medo.

Como motorista do vilão, Johnny acompanhou de perto a sua vingança. Ele dizia estar recuperando a sua cidade, mas, havia algo a mais além da recuperação de território, respeito e dinheiro, era a purificação da criminalidade. Gotham não tinha mais espaço para bandidos movidos pelo dinheiro ou pelo status, era preciso ir além.

No processo, ele conhece outros criminosos bizarros, como Pinguim e Crocodilo. Aberrações, assim como o Coringa. Um era o cérebro, o outro, os músculos. Como no passado, eram esses trunfos que garantiam a eles um lugar naquele mundo. Talvez, se ele fosse o melhor no que fazia, ele poderia conquistar o seu. Porém, o Império do crime e o da loucura seguiam regras muito diferentes.

Prova disso, é quando ele tenta convencer o Crocodilo a abandonar seu almoço para ir até o Coringa, e a fera quase o mata por tentar dar uma ordem a ela. Não importava para quem ele trabalhasse, em nome de quem ele falasse, ele simplesmente não tinha o direito de dar ordens a nenhum deles.

Ele segue acompanhando a cruzada do Coringa contra os sub-chefes do crime em Gotham, que acaba chamando a atenção do vilão que pendia entre o crime e a loucura: Harvey Dent, o Duas-Caras.

Por mais que o Duas-Caras fosse movido pela loucura, precisando de uma moeda para tomar todas as suas decisões mais importantes, Dent ainda seguia a antiga lógica que o Coringa agora estava destruindo. Louco demais para ser normal, e normal demais para seu louco, o Palhaço do Crime simplesmente odiava essa incerteza.

Chegando ao Topo

Gradualmente, ele ganha a confiança do Coringa, e em parte, consegue entender sua mente. Ele acreditava que o Palhaço era alguém que voluntariamente abria mão de sua sanidade, de qualquer coisa que o fizesse parar e pensar, para tornar-se invulnerável. Talvez, esse fosse o segredo para ser como ele.

Confiante, ele tenta ser irreverente com o Coringa, assim como Crocodilo havia feito anteriormente, não dando-lhe desculpas em relação a um atraso, o que fez com que o Palhaço quase o matasse. Mais uma vez, ele havia errado. Cada vez mais, ele falhava em entender como entrar naquele mundo, como ser um criminoso naquela cidade.

Dent chega a capturar Frost e tenta convencê-lo a trair o Coringa, deixando-o pensativo. Quanto mais perto do topo, mais complexo tudo aquilo se tornava, mais incompreensível.

Mesmo assim, ele se mantém leal ao Coringa, ajudando-o a escapar da armadilha bolada por Harvey e permanecendo com ele quando finalmente foi ao encontro de do Duas-Caras, finalmente pondo fim a sua gangue, deixando-o viver para uma única função: usá-lo como financiador. O dinheiro não era um fim, era um meio para o que ele realmente desejava. Homens divididos entre o racional e o irracional como ele, jamais seriam capazes de compreender isso.

Em seguida, o Coringa sai cometendo uma série de assassinatos sem sentido, matando até mesmo um casal aleatório de idosos diante dos olhos de Johnny. O sangue de inocentes sendo derramado a troca de nada, sem motivo algum.

É nesse choque, que Frost encontra no choque, a sua conclusão final sobre o Coringa.

“Você odeia tudo”, diz Jonny.

“O que eu odeio mais que tudo, são desculpas”, responde o Palhaço. O Coringa não simplesmente odiava as pessoas, ele odiava a forma como o elas tentavam justificar suas ações: vingança, trauma, dinheiro, poder, tudo aquilo não passavam de desculpas e mais desculpas que usavam para tentar dar sentido ao horror que habitava em seu coração. Todos o temiam, porque ele era o único de Gotham City que jamais precisou de motivos. A loucura não era sua opção,  era sua natureza.

Frost finalmente tinha a chave para entrar no mundo que sempre sonhou, para não apenas andar com o Coringa, mas ser como ele. Todavia, por meio de uma denúncia vinda do próprio Duas-Caras, que temia que o Coringa terminasse de massacrar o restante da escória de Gotham que não fosse totalmente delirante, o Batman finalmente sai à caça do vilão.

Ele captura Crocodilo, Pinguim e Arlequina, até finalmente chegar ao Coringa e seu fiel escudeiro. Desesperado, o Palhaço do Crime começa a incendiar as ruas da cidade que julgava lhe pertencer, e a única coisa que Frost pôde fazer, foi rir, assim como ele.

Era o momento, o momento de finalmente se tornar o tipo de louco que consegue sobreviver em Gotham, de ser alguém, mas, o Coringa lhe nega esse direito uma terceira vez, pondo uma arma em sua cabeça, e tomando-o como refém.

“Você me dá nojo. Não tem o menor charme. Apenas… obviedade, burro, chato, decepcionante. Uma vergonha”. Se no passado, a lábia e lealdade não eram capazes de superar o nome, no presente, apenas a loucura e crueldade não eram suficientes para chegar ao topo. Johnny buscou a loucura, tentou usá-la, tentou replicá-la. Enquanto a insanidade fosse uma ferramenta, e não uma realidade, ele jamais teria lugar naquele mundo.

O Cavaleiro das Trevas tenta salvá-lo, mas o Coringa dispara, ferindo a boca dele da mesma que a sua. Sem esperança, ele se arrasta em direção à beirada da ponte onde o duelo se desenrolava, enquanto seus últimos pensamentos rondavam sua mente.

“Sabe o que eu vejo? Vejo você (O Coringa). Uma doença. Uma que está por aí há mais tempo que Gotham, a cidade infectada. Uma doença mais antiga do que qualquer cidade. Porra, provavelmente é própria doença que a criou.

Sempre vai existir um Coringa. Porque não há cura para ele…. só um Batman”.

Antes de pular para sua morte, Frost entende: a loucura era algo inerente ao ser humano, maior que os interesses, que o crime ou que a lógica. Era impossível manipulá-lá, e muito menos curá-la. Batman era fruto dessa doença, era movido por ela, a fazia cada vez mais agressiva, mas, ao mesmo tempo, era a única coisa entre ela e o colapso total do corpo.

Gotham City transforma crime em loucura, pois ela é a única forma com a qual os criminosos conseguem lidar consigo mesmos, para sobreviver. Porém, assim como nos tempos “civilizados” essa é uma realidade reservada a poucos, que chegaram lá por um caminho que é impossível de se trilhar.

E você, já leu a HQ? Acha que o Batman realmente pode ser uma cura para Gotham? Comente!

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