Como Boromir, Regulus Black e Lando Calrissian representam a Jornada do Traidor?
Ao longo de nossa série destrinchando as jornadas de desenvolvimento no cinema, já passamos por diversos personagens, universos e conceitos distintos. Conhecemos as trajetórias de heróis como Harry Potter e Luke, vilões como Vader e Sauron, e até mesmo anti-heróis, como V e Han Solo. Porém, poucos tipos de personagem são tão interessantes quanto o famoso “vira-casaca”, ou melhor dizendo: o traidor. O traidor é aquele que define sua moral e seus valores de acordo com o que lhe é mais favorável. Sua lealdade se define por inúmeros fatores: poder, ideologia, dinheiro, segurança, e sempre se mantém extremamente volátil. Como já é tradição por aqui, escolhemos três personagens de três das franquias favoritas de nosso público: Lando Calrissian de Star Wars, Boromir de Senhor dos Anéis e Regulus Black de Harry Potter. Cada um deles traiu seus aliados, sejam eles bons ou maus, e, graças à sua instabilidade moral, seus universos se moldaram. Então, sem mais delongas, vamos conhecer o conceito da Jornada do Traidor e compreender como cada um desses três personagens se aplica nela!
SENHOR DOS ANÉISHARRY POTTERSTAR WARS
Rafael Silva
8/5/202610 min read
Lando Calrissian: A Traição por Medo e Autopreservação


Antes de mais nada, é importantíssimo entender o conceito da Jornada do Traidor:
As etapas do ciclo
Lealdade Inicial (Mundo Comum): O personagem começa inserido em um grupo ou causa (seja como herói leal, cidadão neutro ou seguidor idealista).
O Dilema / Tentação (O Atalho): Surge uma crise. Pressionado pelo medo, desespero ou ambição, ele se depara com uma escolha difícil e vislumbra um "atalho".
A Ruína / Queda (A Traição): Ele cede à pressão e comete o ato de traição. Escolhe o que acredita ser o menor dos males ou cede à fraqueza.
A Conscientização (O Remorso): O plano falha ou a realidade se mostra mais cruel do que imaginava. O traidor é confrontado com o peso devastador de suas ações.
Paga o preço (a redenção): ele decide agir ativamente para desfazer seu erro. Paga o preço final (seja com o próprio sacrifício, a perda do que tinha ou arriscando a vida) para restaurar sua honra.
O Resgate do Ideal: O ciclo se fecha. Ele pode não sobreviver para ver o resultado, mas seu ato final garante que a causa ou seus aliados sigam em frente.
O apostador mais trapaceiro da galáxia! Lando, assim como seu antigo amigo Han Solo, viveu por anos no submundo galáctico apostando, contrabandeando e, é claro, enganando.
Todavia, cansado dessa vida, Lando abraçou a oportunidade de administrar uma mina de gás Tibanna em Bespin: a deslumbrante Cidade das Nuvens, um verdadeiro paraíso tanto no quesito beleza quanto no quesito negócios. Ele se manteve abaixo do radar do Império, mas de maneira nenhuma iria aliar-se aos Rebeldes, estabelecendo-se como alguém completamente neutro diante da Guerra Civil Galáctica.
Ele advogou em causa própria, e por muito tempo isso bastou, pelo menos até o dia em que o Império bateu à sua porta. Darth Vader sabia, graças a Boba Fett, que a Millennium Falcon estava vindo até Bespin, e desejava usar Han, Leia e Chewbacca como isca para atrair Luke Skywalker. Calrissian sabia que não tinha poder para expulsá-los de lá; sabia que tudo o que havia conquistado estava em jogo. Então, sentou-se à mesa com Vader e fez o que fazia de melhor: negociou, mesmo que seu poder de barganha fosse praticamente nulo. Foi ali que ele vendeu a alma de seu amigo em troca da sua própria segurança.
Quando Han e Leia chegaram, Solo temia que Calrissian ainda guardasse rancor pela Millennium Falcon, que Han havia ganhado dele. Porém, para sua surpresa, Lando os recebeu de maneira esplêndida, oferecendo-lhes abrigo e até mesmo conserto para a “sua” nave. Eles não tinham ideia da armadilha em que haviam caído.
Calrissian os levou até a sala de jantar, onde os serviu de bandeja para Darth Vader, que os aguardava. Em resposta ao olhar perplexo de Solo, Lando apenas respondeu: “Desculpe, eles chegaram pouco antes de vocês, eu não pude fazer nada”. No entanto, esse acordo ficaria muito pior.
Originalmente, todos ficariam presos lá até que Luke chegasse. Porém, Vader ordenou que Han fosse congelado em carbonita para ser entregue a Jabba, o Hutt, e que Leia e Chewbacca fossem mantidos sob custódia imperial. De pouco em pouco, o preço de sua traição tornava-se alto demais.
Lando percebeu que estava entregando seu amigo para a morte certa e colaborando diretamente para que a tirania do Império persistisse sobre a galáxia. Diante desses fatos, seu arrependimento finalmente superou seu medo e, assim, ele decidiu agir.
Utilizando a guarda ainda leal a ele em Bespin, Lando libertou Chewbacca e Leia, que inicialmente desconfiaram dele, mas, sem escolha, o seguiram na esperança de salvar Han (o que, infelizmente, não conseguiram). Ainda assim, Lando foi decisivo para salvar Luke, resgatando o garoto que ele mesmo havia ajudado a colocar na mira do Império horas antes. Seu erro havia custado à Aliança Rebelde um de seus melhores capitães e, à sua consciência, um peso incalculável.
Desde então, ele abriu mão de seus negócios, do luxo que antes possuía, e entrou de cabeça no conflito galáctico com o principal objetivo de reparar seu erro. Lando passou meses infiltrado no Palácio de Jabba, sendo decisivo no resgate de Han em O Retorno de Jedi (1983). De volta à cabine da Falcon, liderou a frota Rebelde no ataque à segunda Estrela da Morte, sendo o responsável por infiltrar-se em seu núcleo e, junto a Wedge Antilles, dar os disparos que destruíram a estação bélica. Aquela explosão no espaço simbolizou a libertação da galáxia e a redenção de um homem que finalmente se mostrou digno do respeito e da confiança de seus amigos.
Se Lando surgiu em O Império Contra-Ataca (1980) como um traidor covarde, ele terminou a trilogia clássica como um dos maiores heróis da Aliança Rebelde.
Seguindo cada passo da Jornada do Traidor, Lando começou sua caminhada alheio ao conflito, conheceu o medo e cedeu a ele, mas percebeu o quão devastador seu erro foi e decidiu lutar até o último instante para repará-lo, salvando aqueles que prejudicou e resgatando a própria honra.
Porém, existem jornadas tão incríveis quanto a de Lando que, surpreendentemente, são narradas em um único filme ou livro.
Regulus Black: A Traição Reversa e o Sacrifício Sombrio


O irmão mais novo de Sirius era o reflexo perfeito da doutrinação ideológica dentro da família Black: preconceituoso até a alma, detentor de um doentio senso de superioridade de sangue e disposto a tudo para manter intacta a linhagem e o lema da sua casa.
Enquanto Sirius preferiu rebelar-se contra esse elitismo doentio, Regulus permaneceu leal a ele durante toda a sua juventude. Quando Lorde Voldemort começou a angariar seguidores na década de 1970, o jovem Black não perdeu tempo em se tornar um deles. Seus pais depositavam nele a esperança de manter a pureza do sangue de sua família.
Durante seus estudos em Hogwarts, o sonserino colecionava recortes com aparições e discursos do Lorde das Trevas em seu quarto, tratando-o não apenas como um ídolo, mas como uma esperança. Aos 16 anos, gravou a Marca Negra em seu braço e tornou-se seu servo.
Voldemort era tudo o que ele precisava: um bruxo poderoso, aparentemente imortal e com ideais perfeitamente alinhados aos seus, mas que, diferente dele, tinha o poder prático para torná-los reais.
Porém, em muito pouco tempo, Regulus notou a real natureza do monstro que havia escolhido adorar. Voldemort assassinou centenas de pessoas, tanto bruxos quanto trouxas, manipulou criaturas como Dementadores, Gigantes e Lobisomens, além de cometer as maiores atrocidades para criar suas Horcruxes. Todavia, isso pouco abalou o jovem Comensal; foi apenas quando a crueldade doentia de Voldemort se voltou contra ele que seus olhos finalmente se abriram.
Voldemort exigiu um elfo doméstico para servir de cobaia nas defesas de sua mais nova Horcrux: o Medalhão de Salazar Sonserina, escondido no interior de uma caverna sombria banhada pelo mar (a mesma que Harry e Dumbledore visitam em O Enigma do Príncipe).
O Lorde das Trevas envenenou Monstro com a poção do desespero e o abandonou na caverna. Graças à sua aparatação, o elfo conseguiu escapar e retornar ao Largo Grimmauld, gravemente ferido e traumatizado. Com seu fiel escudeiro agonizando em seus braços, Regulus finalmente compreendeu a extensão do mal que ajudou a erguer. Monstro, ele próprio ou qualquer outro Comensal da Morte não tinham valor algum para Voldemort. Sua glória pessoal estava acima de qualquer vida e de qualquer discurso ideológico. No fundo, o preconceito de sangue havia servido apenas como massa de manobra para que ele fosse usado como uma peça descartável. A herança de sua família cobrava o seu preço.
Disposto a destruir a Horcrux, Regulus retornou à caverna com Monstro. Ele recusou-se a fazer o elfo beber o veneno novamente e decidiu consumir a poção ele mesmo. Tomado por uma dor insuportável e por uma sede insaciável provocada pela magia negra, o jovem rastejou até a lagoa subterrânea para beber água, sendo imediatamente capturado pela verdadeira armadilha de Voldemort: os Inferi. Legiões de mortos-vivos, vítimas do Lorde das Trevas no passado, puxaram Regulus para a morte.
Em um último ato de coragem, enquanto era arrastado, Regulus entregou o medalhão verdadeiro a Monstro e ordenou que ele fugisse, que o destruísse e que pusesse fim àquele mal, deixando um falso em seu lugar. Mas, mostrando as contradições que ainda o cercavam, fez um último pedido: que seu leal elfo jamais contasse a ninguém o que ele havia feito, pois, para a família Black, renegar as Trevas e buscar a redenção era uma vergonha.
Foi graças a esse ato de heroísmo silencioso que, décadas mais tarde, o Trio de Ouro pôde recuperar a Horcrux original, usá-la e destruí-la com a Espada de Godric Gryffindor, deixando a comunidade bruxa um passo mais próxima da queda definitiva de Voldemort.
Diferente de Lando Calrissian, que foi um oportunista agindo sob pressão extrema, Regulus era um idealista. Por mais que tenha sido pressionado por sua família, ele teve, assim como seu irmão, a escolha de recusar o chamado das trevas, mas preferiu abraçá-lo. Com o tempo, os crimes e a frieza de seu mestre o levaram ao limite. Ele decidiu trair o próprio mal que ajudou a erguer, sacrificando a própria vida para salvar seu elfo e roubar a arma de seu senhor. Pagou com a vida o preço de sua virada moral e, por decisão própria, manteve seu sacrifício escondido do mundo.
Boromir: A Traição pela Fraqueza e o Resgate da Honra


O filho favorito do Rei Denethor II! Boromir era o maior guerreiro de Gondor e o enviado do regente para representar seu reino na primeira reunião da Sociedade do Anel, em Valfenda.
Sua vinda deveria simbolizar a união dos homens, elfos e anões contra a ascensão de Sauron, mas, no fundo, seus objetivos eram bem diferentes. Enquanto todos desejavam destruir o Um Anel, Boromir acreditava que conseguiria usá-lo como uma arma contra o próprio Criador, contrariando o princípio máximo dito por Gandalf: “O Anel só serve a um Senhor”.
Para qualquer outro que tentasse dominá-lo, o Anel seria um vício incurável que levaria seu portador à ruína, exatamente como aconteceu com Isildur e Gollum. No entanto, o orgulho de Boromir e a obsessão de seu pai pelo Anel mantiveram essa ideia viva em sua mente.
Por mais que tentasse resistir, a tentação parecia clamar pelo capitão de Gondor, que esteve a ponto de pegá-lo durante a travessia do grupo pelas montanhas, quando o objeto caiu das mãos de Frodo. Uma verdadeira batalha era travada em seu espírito, e sua consciência perdia cada vez mais espaço para a corrupção do Anel.
No momento em que o grupo fez uma pausa nas margens do rio em Amon Hen, Boromir tentou convencer Frodo a lhe dar o Anel (sem duplo sentido aqui…), argumentando que levá-lo até Minas Tirith seria a única salvação, enquanto caminhar até Mordor seria um suicídio. O hobbit recusou-se e, dominado por um momento de desespero e ganância, Boromir tentou tomá-lo à força. Frodo escapou por um triz ao colocar o Anel e ficar invisível.
Conforme o pequeno guardião se afastava, a névoa na mente do guerreiro se dissipou e sua racionalidade retornou. Ele havia cedido à tentação e traído a confiança de seus aliados. Graças à sua fraqueza, a única esperança da Terra-média agora estava em fuga e completamente sozinha, com tropas de Orcs em seu encalço.
Sua honra parecia eternamente manchada, mas o destino lhe deu uma última chance de fazê-la brilhar. Dezenas de Uruk-hai atacaram Merry e Pippin, e Boromir colocou-se entre os hobbits e o exército inimigo, iniciando uma batalha que sabia que não poderia vencer. Ele soprou o Berrante de Gondor e clamou pela ajuda de Aragorn, mas não havia tempo. Por mais inimigos que abatesse, os monstros continuavam vindo. Uma primeira flecha atingiu seu peito, um golpe fatal para quase qualquer homem, mas não para ele. Sua honra dependia de manter aqueles pequenos protegidos.
Ele seguiu lutando e sofrendo, sabendo que a morte era o único destino possível. Ao cair de joelhos diante do líder Uruk-hai, Lurtz, com três flechas cravadas no peito, teve a certeza de que seu sangue havia provado a quem ele era verdadeiramente leal. Antes que o monstro o executasse, Aragorn interveio, matando o líder orc e amparando o amigo em seus últimos momentos. Boromir lamentou-se pelo que fizera, julgando-se indigno, mas seu capitão e verdadeiro Rei disse o contrário, garantindo que seu ato de bravura havia salvo seu legado. Ele traiu a tentação das sombras para aliar-se em definitivo à luz. E assim, em paz, Boromir faleceu.
A jornada do irmão de Faramir é fantástica justamente pelo seu dinamismo. Ele passa boa parte da trama tentando tomar o Anel para si, julgando saber o que era melhor para a Terra-média. Surge leal aos interesses de seu pai e do seu povo. Com o tempo, é cada vez mais pressionado pelo poder esmagador do mal e acaba traindo seus amigos ao tentar tomar o objeto à força. Porém, em seus últimos instantes, Boromir recusou-se a morrer com aquele fardo e lutou para que seu sacrifício redimisse sua vida.
Conclusão
As três jornadas são incríveis, e é praticamente impossível escolher a "melhor", pois cada uma possui elementos que a tornam única.
A traição de Regulus Black se destaca por não buscar glória ou heroísmo algum em sua redenção; ele próprio exigiu que seu ato permanecesse em segredo, recusando ser lembrado como um herói por sua família. No quesito emoção bruta, o declínio e o sacrifício de Boromir entregam um dos momentos mais comoventes da ficção. Já a trajetória de Lando Calrissian é marcada pelo pragmatismo e pelo temor imediato, mostrando como o homem comum pode superar a covardia para fazer a coisa certa no momento decisivo.
E para você, qual dessas é a melhor Jornada do Traidor?
