Como as estrelas da cultura pop afetam a sociedade?
Atualmente, vivemos em meio a um embate entre múltiplas visões de mundo distintas, mas que, na maior parte das vezes, formam uma clara dualidade: a defesa do progressismo e do rompimento com os antigos valores conservadores. Esse conflito ideológico e moral que pauta os debates nas redes sociais na atualidade, na verdade, já se desenrola há séculos e, com o advento do cinema e a popularização da cultura pop, passou a ser cada vez mais visto na ficção. Como o homem e a mulher devem se portar? Quais são seus lugares na sociedade? E, acima de tudo: quais ícones, obras e elementos lutaram por cada um desses lados, cujo certo e errado definem-se pela ótica de quem os admira ou despreza? Hoje, viajaremos pelos últimos cem anos da cultura pop, para entender um pouco mais sobre esse assunto tão vasto. Sem mais delongas, vamos lá!
HISTÓRIA DA CULTURA POP
Rafael Silva
4/19/202633 min read
Da leveza do glamour ao peso do aço


Após a Primeira Guerra Mundial, a Europa estava em frangalhos, e os Estados Unidos tornaram-se definitivamente o centro financeiro e cultural do mundo. Suas mudanças sociais iriam repercutir em todo o globo, assimilando-se de maneira distinta a cada sociedade.
Com um crescimento industrial exponencial, os americanos passaram a viver na busca pelo American Way of Life, com a família, emprego e bens, tornando-se os objetivos centrais de qualquer vida bem-sucedida.
Os papéis sociais que moldaram a sociedade pelos séculos anteriores foram ainda mais reforçados. O homem forte e provedor, e a mulher fiel e do lar, seguiram sendo o modelo ideal a se seguir.
Hollywood, que em apenas trinta anos havia ido de uma pequena cidade extremamente conservadora para uma verdadeira “Babilônia Moderna”, foi ao mesmo tempo a maior defensora desse modelo e uma das suas piores inimigas.
David Horsley, da Nestor Motion Picture Company, fundou o primeiro estúdio no local em 1911, em uma antiga pousada (roadhouse) na Sunset Boulevard, logo após a equipe de O Conde de Monte Cristo filmar na região em 1907 e gostar do clima. Mal sabia ele que aquele pequeno município de Los Angeles viria a se tornar palco para as maiores estrelas da sétima arte.
Com a popularização do cinema nos anos 1920, centenas de atores e atrizes se mudaram para Hollywood, construindo enormes mansões, com jardins verdejantes, carros de luxo e piscinas imensas, tornando-se assunto em revistas de fofoca de todo o país. Umas, como a Photoplay, exaltavam o glamour e a beleza dos artistas, reforçando-os como as joias do país, enquanto colunistas como Louella Parsons e Hedda Hopper focaram em revelar o lado “obscuro” das estrelas, que em suas festas privadas ignoravam a lei seca, traíam seus casamentos e mantinham relações homossexuais.
Enquanto um lado da mídia reforçava o verniz, o outro lhe desbotava, e, entre o público havia uma divisão semelhante de opiniões. Parte dele enxergavam as estrelas como ícones, adorando-os por sua beleza, sucesso e talento, enquanto outros os viam como promíscuos e imorais, que, em uma posição de destaque, poderiam perverter a sociedade.
POR TRÁS DAS CÂMERAS
Se nos bastidores já havia polêmicas, o que dizer das telonas? Na Europa pós-guerra, diversos fenômenos sociais passaram a se apresentar para o mundo por meio do cinema, acarretando mudanças estéticas e sociais. O homem de terno, chapéu e bengala, geralmente mais velho e rígido, foi substituído pelo jovem atlético, com shorts e camisa, trocando o escritório pela praia. Era um apelo maior para a juventude e a sensualidade, em desfavor da rigidez do passado.
Douglas Fairbanks, Rudolph Valentino e Buster Keaton foram alguns dos galãs a se solidificarem nesse período.
Para as mulheres, a mudança foi ainda maior. O ganho de espaço no trabalho e na política veio acompanhado de enormes mudanças estéticas. Os espartilhos sufocantes e os penteados gigantescos passaram a ser substituídos por cabelos curtíssimos e roupas mais curtas, revelando mais do que a sociedade da época estava acostumada a ver.
Mary Pickford, estrela de filmes mudos como Coquete, Meu Único Amor e Mulher Domada, foi a primeira grande expoente desse período. A “namoradinha de Hollywood” foi construída para transmitir pureza e inocência: seus cabelos cacheados eram iluminados para se parecerem com auréolas angelicais, os cenários eram filmados de forma a parecerem maiores próximos dela e até mesmo suas roupas tentavam transmitir um ar mais infantil e frágil. Pickford compreendeu desde cedo que sua aparência era sua “propriedade intelectual” e fez questão de mantê-la inalterada, pelo menos até 1928.
Com a moda das melindrosas ganhando força, especialmente por meio de ícones como Louise Brooks, Pickford viu-se obrigada a cortar de vez seus laços com o passado para encaixar-se naquela nova era, fazendo um corte mais curto e mudando seu visual para algo mais sensual, algo que virou notícia inclusive no New York Times, rendendo frases como essa: “Se até a Mary Pickford cortou, o mundo realmente mudou”.
Por mais que pareça banal, essa mudança gerou um impacto imensurável. Mary Pickford era, naquele momento, uma das pessoas mais ricas dos EUA, dona da United Artists, seu próprio estúdio, passando a ditar as regras de seu próprio jogo. O rompimento com o passado foi a prova de que, naquele momento, as mulheres começavam a ter liberdade para decidir sobre si mesmas e para construir seus futuros independentes de seus maridos ou pais.
Como dito anteriormente, Louise Brooks foi a grande catalisadora dessa revolução estética, especialmente por jamais ter se vinculado à imagem puritana vigente. Com seu penteado em estilo de capacete e maquiagem pesada, Brooks demonstrava uma espécie de “tédio refinado” em tela, recusando-se a cair no estereótipo de leveza feminina da época.
Surpreendentemente (ou talvez nem tanto), Louise desprezava a futilidade hollywoodiana, preferindo muito mais empenhar-se em ler obras de James Joyce e Schopenhauer, encontrando na intelectualidade a sua forma de resistência.
Sem encontrar espaço nos EUA, Brooks mudou-se para a Alemanha, ainda mais liberal que os Estados Unidos, refletindo o momento mais progressista vivido pela Europa. Lá, a atriz realizou seus grandes clássicos, como a Caixa de Pandora (1929), em que interpretou Lulu, uma dançarina sensual pela qual vários homens (e também mulheres) se apaixonam, e sempre terminam com suas vidas arruinadas.
Peter Shön, editor de um famoso jornal, mesmo casado, apaixona-se por Lulu, vivendo um romance proíbido do qual é incapaz de escapar. Após várias intrigas, Shön e Lulu se desentendem, e em uma briga, o editor dispara acidentalmente contra si mesmo, morrendo, e fazendo com que sua amada fosse condenada por homicídio.
Lulu se vê obrigada a fugir para o Reino Unido, onde se torna uma das vítimas de Jack, o Estripador (ok, esse final é realmente viajado), selando seu destino como uma espécie de “castigo simbólico” pela sua vida de promiscuidade.
Louise Brooks diferencia-se de ícones passados como Theda Bara, que também exploravam a sensualidade, justamente pelo seu realismo. Bara interpretava vampiras e criaturas caricatas, enquanto Brooks vivia uma mulher moderna real, que verdadeiramente ameaçava as construções sociais do período. Além de Mary Pickford, outras atrizes também seguiram seus passos.
A alemã Marlene Dietrich, famosa por clássicos como Anjo Azul e Marroco, também bebeu dessa fonte, trazendo o niilismo germânico para Hollywood, e popularizando-o onde Louise Brooks não havia conseguido, tornando-se a face dessa nova mulher, intelectual, sensual e livre.
Em Marroco (1930), Dietrich chegou a vestir-se de homem e beijar outra mulher, algo até então impensável. Pessoalmente, seu desejo não era o de destruir o conceito de família vigente nos EUA, e sim, transformar a arte em um espaço livre para que os desejos e curiosidades pudessem ser sanados livremente.
Você deve estar se perguntando: eu pensei que os anos 1960 tivessem sido o período dessa desconstrução de valores morais, e não quarenta anos antes. É impressionante como, nos anos 1920, muitas coisas já iam contra a moral vigente, coisas que nem mesmo nos mais liberais anos 1960 eram tão normalmente vistas, mas essa descontinuidade se deu por uma série de eventos, que certamente estão entre os mais catastróficos da história humana, e que fez com que ela fosse obrigada a idealizar-se novamente, em uma última grande demonstração de força: A Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial.
CRISES E POLÊMICAS
A libertinagem dos atores e atrizes de Hollywood passou a ser um problema ainda nos anos 1920, quando os escândalos antes ocultos pelos grandes muros de suas mansões milionárias foram levados aos holofotes, mostrando que os “deuses e deusas” dos cinemas eram muito mais problemáticos do que qualquer um poderia esperar.
Entre centenas de polêmicas e mistérios, foram três as centrais para lançar a reputação do Olimpo da sétima arte na lata do lixo. O mais chocante deles foi o de Roscoe Arbuckle, comediante notório por clássicos do cinema mudo como A Noite do Casamento e A Garagem, e por sua parceria com o lendário Buster Keaton. Foi acusado de estuprar e assassinar a também atriz Virginia Rappe, no quarto 1219 do St. Francis Hotel, em 5 de setembro de 1921.
Na época, Arbuckle era o ator mais bem pago da Paramount, tendo fechado um contrato de mais de 1 milhão de dólares com o estúdio. Foi justamente na celebração desse contrato que o dito crime aconteceu.
O ator e Virginia passaram horas consumindo álcool e drogas, gerando o mal estar que levou a atriz à morte. Porém, os gritos vindos da suíte dos dois acabaram fazendo com que Maude Demont, que também estava na celebração, acusasse Roscoe pelo assassinato.
O antes amado ator passou a ter seus pôsteres apedrejados por todo o país, e seus milhões foram gastos em processos intermináveis, que resultaram em uma absolvição judicial, mas que definitivamente não se refletia na forma com a qual era visto pela sociedade. A maior estrela de Hollywood havia sido destruída, e essa rachadura iria causar o desabamento do Império dos Sonhos criado pela Babilônia Estadunidense.
O assassinato do famoso diretor William Desmond Taylor em meio a um escândalo amoroso e a morte do galã Wallace Reid, viciado em morfina, reforçaram a necessidade dos estúdios de “controlar” seus ativos, para impedir que destruíssem por completo a imagem das empresas.
Em uma tentativa de autorregular-se, Hollywood trouxe Will Hays, um político presbiteriano influente do Partido Republicano, para atuar como um “xerife da moralidade”, criando assim, o famoso Código Hays.
Ele criou o MPPDA (atual MPA), responsável por alertar os estúdios sobre o que era aceitável e o que não era “bom tom” de se ter em suas obras. Porém, eles esqueceram-se de algo primordial: o pecado sempre vende mais, e para aquelas megacorporações, o dinheiro sempre falaria mais alto que a moral.
Os anos 1920 seguiram como palco da quebra de tabus, chocando cada vez mais os grupos conservadores e despertando cada vez mais o ódio neles. Nos bastidores, as imoralidades passaram a ser melhor escondidas, mas, de forma alguma, pararam.
Em 1934, John T. McNicholas, arcebispo da Igreja Católica em Cincinnati, fundou a Legião da Decência, focada em boicotar obras tidas como imorais.
"Você tem uma pistola no bolso ou está apenas feliz em me ver?", essa frase de duplo sentido dita por Mae West sobre a ereção de um homem no clássico Loira a Três (1933), foi a gota d'água para a comunidade católica americana.
A trama trazia um trio de mulheres que cultivavam inúmeros amantes, jamais se casavam e viviam na promiscuidade. Não é preciso dizer que essa obra não pegou nada bem para as comunidades cristãs.
A Legião da Decência definia os filmes em três categorias: A, B e C, sendo essa última totalmente reprovada pela organização, fazendo com que milhões de pessoas boicotassem filmes como O Milagre (1948) e o Sindicato dos Ladrões (1954).
O “Czar da Censura”, Joseph Breen, católico devoto, assumiu o posto de administrador do Production Code Administration (PCA) e promoveu uma intensa censura contra cenas de nudez, sexo e violência. Sem seu selo, toda e qualquer produção estava fadada ao fracasso financeiro, e isso os estúdios não poderiam aceitar; era necessário entrar na linha para continuar existindo.
Hollywood passou a manter suas estrelas com rédeas mais curtas, enquanto internamente trabalhava na construção de novos ícones, que restaurassem a moral e os bons costumes, a alma americana que havia se perdido, e agora poderia reviver o ímpeto de um povo que vivia a pior crise de sua história. As massas, condicionadas ou não, buscavam no passado a força para viver o presente.
O maior galã dessa reinvenção de Hollywood, talvez tenha sido o saudoso Cary Grant, que foi de um coadjuvante em "Loira a Três” para a estrela de clássicos da comédia como Moleque Teimoso (1937) e Levada da Breca (1938).
De fala mansa e vestes elegantes, Grant resgatou o homem sério e viril pré-anos 1930, trazendo o cavalheirismo tradicional de volta aos cinemas. Em 1941, embarcou no suspense A Suspeita, de Alfred Hitchcock, mostrando sua versatilidade em manter-se sério, independentemente do contexto à sua volta.
Porém, isso não impediu que a imprensa desconstruísse o ícone por meio de sua vida pessoal, especulando uma possível relação homossexual entre Grant e o também ator Randolph Scott, mesmo com Cary estando casado com Virginia Cherill desde 1934.
Nomes como Clark Gable, que manteve o charme atlético adaptado à censura em clássicos como E o Vento Levou (1939), e Humphrey Bogart, astro de Casablanca (1942), que encarnou o homem solitário guiado pelo dever nos tempos da Segunda Guerra Mundial, foram outros ícones responsáveis por construir a nova face do homem no cinema: forte, romântico e sério.
No lado feminino, melindrosas como Joan Crawford foram obrigadas a vestir novamente o manto do conservadorismo. Em clássicos como Pecado de Madalena (1933) e, mais tarde, no auge de sua maturidade em Almas em Suplício (Mildred Pierce, 1945), ela interpretava mulheres que sofriam, trabalhavam e mantinham a dignidade, custasse o que custasse. A mudança dos tempos não era justificativa para corromper seus valores.
Ela transformou-se em uma espécie de “Operária do Glamour”, vivendo como uma estrela 24 horas por dia, sempre impecável, sempre passando a imagem de força, beleza e resiliência que os novos tempos pediam.
Porém, Joan aprendeu da maneira mais difícil que havia um limite para interpretar aquele papel de atriz em tempo integral: a idade. A idade lhe despiu da perfeição estética desejada por aquela nova Hollywood, privando-a dos grandes papéis com os quais tinha se acostumado. Cada vez mais, sua carreira se limitava a filmes B.
No clássico O Que Terá Acontecido com Baby Jane? (1962), Crawford interpreta Blanche Hudson, uma mulher mais velha, de expressões forçadas, maquiagem exagerada e completamente desequilibrada, constantemente humilhada por sua irmã, Jane (Bette Davis), que, assim como ela, vê sua idade levar sua beleza, a qualidade primordial que a mantinha relevante.
Crawford tornou-se um manifesto da objetificação feminina no cinema, que, com a perda do apelo sexual, perdia também seu espaço no cinema.
Mesmo que provavelmente cientes dessa realidade, outras estrelas surgiram, usando-se especialmente de sua beleza para ascender, como foi o caso de lendas como Katharine Hepburn e Hedy Lamarr, essa segunda sendo tida como a mulher mais linda do mundo por diversas campanhas publicitárias. A mulher responsável por criar as tecnologias que possibilitaram a criação do Bluetooth e do Wi-Fi que você provavelmente está usando para ler esse post nesse momento, por décadas, foi resumida a um rosto bonito.
O papel feminino se via cada vez mais incerto. As mulheres ganhavam espaço, mas, sempre condicionadas por uma sociedade que ainda não lhes enxergava como iguais aos homens.
Esses novos ícones podem não ferir a moral com sexo, drogas e álcool, mas aprisionavam seus potenciais a serviço de uma sociedade assustada com as mutações que se desenrolavam em seu interior.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria tornou-se o novo conflito ideológico a pautar a sociedade estadunidense, e dessa vez, de forma muito mais íntima. O domínio não se faria mais principalmente pela força das armas, e sim, pela capacidade de conquistar os corações e mentes das massas. Se a norma fosse questionada, o questionador seria punido; afinal, destruir uma pergunta é muito mais fácil do que respondê-la.
Porém, foi nessa mistura entre censura e luta pela liberdade que a sociedade viveria um dos momentos mais culturalmente efervescentes de sua história. Pesquisas como as realizadas pelo psicólogo Alfred Kinsey entre 1948 e 1953 comprovaram que entre quatro paredes, a sociedade americana já era tudo, mesmo conservadora. Entrevistando mais de 18 mil homens e mulheres, Kinsey descobriu que a homossexualidade, sexo pré-matiral, masturbação e adúlterio, eram coisas extremamente comuns aos estadunidenses, pelo menos, quando ninguém estava olhando.
O RENASCIMENTO DA CULTURA POP


O pós-Segunda Guerra Mundial foi um dos momentos mais únicos da cultura pop; ali nascia o conceito de adolescência, contrastando uma juventude rebelde e enérgica com a geração que havia vivenciado os maiores horrores da humanidade e que via o sonho americano como uma prisão dourada: próspera em aparência, mas vazia em seu âmago. A maior busca daqueles tempos era por identidade, e isso nos levaria a lugares muito interessantes.
Nos anos da Guerra Fria, popularizam-se os grandes gêneros: o noir e a ficção científica. Os filmes noir, com seus detetives taciturnos e femme fatales, traziam o lado mais cru e bruto da sociedade estadunidense, em que ninguém é confiável, e o pior do homem e da mulher é trazido à tona.
Os soldados do front agora eram homens solitários, sem emoção e extremamente pragmáticos, e as mulheres pareciam ser uma mistura dos arquétipos das duas décadas anteriores: sensuais e provocantes, mas dependentes do charme para convencer os homens e fazerem suas vontades, tornando-as tão ameaçadoras quanto qualquer criminoso.
Atores como Humphrey Bogart, Edward G. Robinson e Robert Mitchum brilharam nesse período, ao mesmo tempo que atrizes como Rita Hayworth, Lauren Bacall e Barbara Stanwyck, exaltando a sociedade pessimista e moralmente duvidosa daqueles anos incertos.
Por trás das câmeras, a realidade era muito menos cinza do que diante delas. Robert Mitchum, por exemplo, foi pego com posse ilegal de maconha em 1948, e, em vez de ter sua carreira destruída, recebeu a admiração dos fãs, que aprovaram sua honestidade, e, mesmo com uma ficha criminal, seguiam lhe acompanhando Mesmo com um Código Hays mais forte do que nunca, o poder das estrelas mostrava-se gradualmente maior que o da moralidade, fazendo com que os espectadores revelassem o que particularmente lhes seria inaceitável.
Na ficção científica, clássicos como Guerra dos Mundos (1953) exploravam o temor do desconhecido, seja em nosso mundo, seja fora dele, um reflexo de como a evolução tecnológica humana não parecia ter limites, e muito menos controle. Isso gerou uma paranoia coletiva, que permeou as primeiras duas décadas da Guerra Fria, em que o medo do fim do mundo era tão real quanto em qualquer outro momento da história.
Um contraponto a isso foi a pureza de Grace Kelly, atriz adorada por Alfred Hitchcock, tendo sido uma de suas loiras em Janela Indiscreta (1954), em que contracenou com o ator mais “certinho” da época, James Stewart, e Disque M para Matar (1954). Para além do talento e da beleza, Kelly tinha um charme quase aristocrático, digno de uma verdadeira princesa, algo que ela realmente veio a se tornar em 1956, ao casar-se com o príncipe Rainier III, de Mônaco.
Kelly era o equilíbrio entre uma mulher livre e conservadora, chegando ao topo sem vulgaridades, pelo menos, nos holofotes. No estúdio, Alfred a descrevia como um “vulcão coberto de neve”, exaltando a forma “intensa” com a qual se envolvia com os homens com quem contracenava.
Como Princesa de Mônaco, Kelly, que na época era possivelmente a atriz mais famosa da terra, teve seus filmes proibidos de serem assistidos no reino, por ordem de seu próprio marido. Por mais que sua trajetória tenha sido muito mais ilibada que a maioria de seus colegas de profissão, ela passa longe de ser um conto de fadas.
A NOVA JUVENTUDE
Todavia, se para uns a incerteza era motivo de medo, para outros, era motivo para viver a vida com ainda mais intensidade, e é aí que os adolescentes entram. As motocicletas, jaquetas de couro e lanchonetes com cores vibrantes remetiam a esse ar de liberdade e juventude, que lendas como James Dean e Audrey Hepburn passaram a representar.
Dean, famoso mundialmente por obras atemporais como Juventude Transviada (1955) e Assim Caminha a Humanidade (1956), foi o rosto dessa juventude fora dos padrões, lutando para romper com os sentidos que seus pais tentaram dar a suas vidas e trilhar suas próprias histórias.
Em uma espécie de reedição dos anos 1920, o homem mais velho e cavalheiro era substituído por um jovem rebelde sem causa.
Infelizmente, o ator faleceu logo aos 24 anos, após um acidente fatal com seu Porsche 550. Nos bastidores, Dean tinha uma vida repleta de polêmicas, desde o uso abusivo de álcool e multas por excesso de velocidade até relações bissexuais com outros famosos, como o diretor Rogers Brackett, e até mesmo uma suspeita quanto a uma possível relação com Marlon Brando, que muitos acusam de já ter se deitado com meia Hollywood.
Seu fim precoce e trágico deixou um aviso quanto às consequências de uma vida que raramente as levava em consideração.
Já Audrey Hepburn simbolizava uma fusão entre a beleza e a intelectualidade da jovem moderna. Tida até hoje como uma das mulheres mais belas de todos os tempos, além de notória filantropa, Hepburn era famosa por sua magreza, que muitos consideravam um traço atlético elegante, mas que, na verdade, era fruto de uma subnutrição severa de uma infância vivida em meio à Segunda Guerra Mundial na Holanda, onde seu pai, adepto do nazismo, abandonou ela e sua família, deixando-os à própria sorte.
Em vez de deixar-se consumir, Hepburn usou suas cicatrizes para construir sua persona, como uma mulher sedutora e gentil, mas inteligente e independente, algo necessário para ser poderosa em um mundo em que uma mulher quase nunca tinha poder.
Vencedora do Oscar de Melhor Atriz em 1954 pelo seu papel como Princesa Ann em A Princesa e o Plebeu (1953), Audrey fez história ao misturar uma elegância digna de realeza com uma leveza e simplicidade de uma jovem comum, que não hesita em andar em uma scooter no centro de Roma.
A ERA DA SENSUALIDADE
Hollywood via nela, o antídoto para outras celebridades menos “polidas”, mas que faziam tanto sucesso quanto. Nesse caso, estamos falando justamente do maior fenômeno da antiga Hollywood: Marilyn Monroe.
Curiosamente, Marilyn não foi exatamente a primeira loira hipersexualizada a fazer sucesso nos cinemas. Do outro lado do Atlântico, mais especificamente no Reino Unido, a jovem Diana Dors já fazia algo muito parecido.
Iniciando precocemente sua carreira aos doze anos, Diana Fluck (que mudou artisticamente o sobrenome para Dors futuramente) sempre teve o sonho de ser uma estrela, e desde cedo mostrou talento para tal. Na fase adulta, destacou-se especialmente por seu corpo escultural, que a tornou o primeiro grande sex symbol do Reino Unido, uma verdadeira marreta contra o gelo britânico com sucessos como "A Vergonha de Ser Profana" (1957) e "A Tentação e a Mulher" (1958).
Quando Marilyn Monroe surgiu, muitos a compararam com Dors. Em 1958, posou nua para a Playboy, em uma edição vendida junto a um óculos 3D, para aumentar a “imersão”. Por mais icônica que tenha sido, Diana acabou esquecida, pelo menos quando comparada com sua contraparte americana.
Um ano antes de seu primeiro papel notável, como Claudia Caswell em A Malvada (1950), Monroe faria um dos ensaios fotográficos mais polêmicos de todos os tempos. Nos anos da Segunda Guerra Mundial, popularizaram-se as modelos Pin-Ups, imagens de mulheres nuas ou seminuas, desenhadas em calendários e cartazes, para “entreter” os soldados durante seu tempo na linha de frente.
Atrizes reconhecidas como Rita Hayworth e Betty Grable serviram como modelos pin-up nos anos de guerra, e em 1949, Monroe fez um ensaio completamente nua pelo fotógrafo Tom Kelley por um punhado de dólares, sem saber o efeito dominó que isso causaria.
Em 1953, o dono da recém-criada revista Playboy, Hugh Hefner, comprou as imagens por 500 dólares, sem pagar um único centavo a Marilyn, e as usou para ilustrar sua primeira edição, que se tornou a mais vendida de todos os tempos, com mais de 50 mil exemplares sumindo das bancas.
Na época, Monroe nadava em seus maiores sucessos, como "Os Homens Preferem as Loiras" e "Como Agarrar um Milionário". Ela vivia o estereótipo da “loira burra”, hipersexualidade e oportunista. Sua resistência em seguir esse padrão ao longo dos anos fez com que travasse uma verdadeira guerra contra Hollywood.
Porém, o público não poderia imaginar que acabaria vendo muito mais que as pernas de Marilyn em O Pecado Mora ao Lado...
Quando seus nudes foram usados como capa da Playboy, todos achavam que aquilo iria cair como uma verdadeira bomba na carreira da atriz, que respondeu simplesmente dizendo: “eu precisava comer!”, sorrindo, completamente alheia ao que aquilo representava.
Era impensável ver a atriz mais famosa da atualidade nua no porta-luvas de qualquer caminhoneiro aleatório. Esse movimento foi peça-chave para a revolução sexual que se daria nos anos 1960, que daria às mulheres mais liberdade sobre seus corpos, ao mesmo tempo que os objetificaria como nunca antes.
Para a Playboy, o sucesso da primeira edição foi o início de um império multimilionário, que fez de Hefner um dos homens mais ricos dos Estados Unidos. Nos anos seguintes, outras estrelas como Kim Novak, Jayne Mansfield e Bettie Page (eleita popularmente como a Rainha dos Pin-Ups) posaram para a revista. Diferente do que se pensa no Brasil, a Playboy estadunidense não era pornografia pura e simples.
Por mais que tivesse nudez e um viés um tanto fetichista em certos momentos, a revista trazia entrevistas fantásticas com nomes que iam de John. F. Kennedy até Fidel Castro. Tudo que ela fez foi democratizar o absurdo e pintá-lo com um verniz de luxo até então insociável com a nudez. Essa mistura fez da Playboy uma das dez revistas mais vendidas dos EUA nos anos 1950, mesmo com seu conteúdo polêmico, e Marilyn Monroe mostrou-se um sexy symbol para além das telonas, sendo uma das responsáveis por quebrar os tabus em torno da nudez feminina.
Personalidades como ela, estiveram no centro da Revolução Sexual dos anos 1960, onde tabus foram quebrados e a polêmica pílula anticoncepcional foi desenvolvida, dando a mulher a possibilidade de separar o prazer da reprodução.
Para além disso, ela travou embates ferrenhos pela igualdade salarial, exigindo que atrizes e cantoras ganhassem o mesmo que artistas como Frank Sinatra.
Sinatra, por sua vez, por mais que tivesse seus bastidores polêmicos, desde inúmeras amantes até relacionamentos muitíssimo abusivos, como relataram ex-companheiras como Ava Gardner e Mia Farrow, ainda transmitia a imagem de um galã clássico, de elegância e voz potente, consagrando-se como uma lenda tanto nos palcos quanto no cinema, e fazendo resistir o arquétipo de gentleman desejado pelas mulheres.
Mas, para falar de Sinatra, precisamos inevitavelmente entrar no terreno da música, que, como iremos descobrir, foi tão intensa e repleta de mudanças como o cinema, e talvez tão influente quanto sobre a sociedade.
Na década de 1940, o jovem Frank Sinatra surgiu em meio à onda dos crooners, homens que cantavam de forma suave, quase sussurrando, como se estivesse cantarolando palavras de amor ao pé do ouvido do público, um estilo novo e, ao mesmo tempo, muitíssimo sedutor.
Vozes como a de Dean Martin (considerado o maior rival de Sinatra), Nat King Cole (o primeiro homem negro a receber seu próprio programa de TV) e Bing Crosby ecoaram no mesmo gênero, mas nenhuma delas tinha o charme de Frank. Sinatra era o galã completo, bonito, atlético, inteligente e de voz potente, o retrato de um homem moderno, sem perder a elegância clássica.
Em seus primeiros anos, Frank emplacou sucessos como "All or Nothing at All" e "I'll Never Smile Again", que o consolidaram em uma época em que a música deixava de centrar-se nas grandes orquestras e passava a focar no talento dos artistas solos, construindo em torno deles uma imagem quase divina.
Nos anos 1940, a “Sinatromânia” explodiu, transformando-o definitivamente em uma estrela mundial. O famoso concerto no Paramount Theatre em 1942, em que mulheres gritavam e desmaiavam na plateia, era o início da histeria coletiva em torno de um artista.
Três anos depois, o cantor decidiu tentar a sorte no cinema, estrelando seu primeiro filme ao lado justamente de Gene Kelly, o clássico "Marujos do Amor" (1945). Esse foi apenas o primeiro de mais de 60 filmes que faria ao longo de sua carreira, mostrando-se como um dos primeiros artistas multimídia de sucesso absoluto.
As mulheres o queriam, os homens queriam ser ele. Sinatra era um ideal de homem para a sociedade americana, bem-sucedido em todos os sentidos, pelo menos nas aparências.
O REQUEBRADO DE VEGAS
Em 1954, Frank viu surgir uma nova estrela, nascida não no luxo dos cassinos, mas na explosão das massas, um astro feito por e para adolescentes, mas que, no decorrer de sua trajetória, acabaria rendendo-se, mesmo que parcialmente, ao mesmo conservadorismo que Sinatra falsamente representava: Elvis Presley.
Na infância, o astro frequentava os barede Beale Street, palco de gênios do blues negro como B.B. King, que dava as costas para o polimento do country branco e abraçava um estilo enérgico e emotivo, algo que definiu seu próprio estilo no futuro.
Nas igrejas pentecostais, Elvis acostumou-se com a sinergia das pessoas, pulando e gritando em meio aos louvores, quase que em uma espécie de transe coletivo proporcionado pela música. Presley entendeu logo cedo o poder da melodia, como algo que, sem uso da força, faz o corpo balançar.
O jovem tentou a sorte em bares e baladas, mas falhou miseravelmente, com muitos rindo de seu jeito elétrico e pouco convencional.
Em 1954, Elvis despretensiosamente visitou a Sun Record para gravar um disco de quatro dólares para sua mãe, Gladys, mas o produtor Sam Phillips viu nele um imenso potencial, rendendo-lhe a célebre frase: "Se eu encontrar um homem branco que tenha o som negro e o sentimento negro, eu farei um bilhão de dólares". E, realmente, ele estava certo.
Com sucessos como "That’s All Right" e "Blue Moon of Kentucky", Elvis consagrou-se nas paradas, e seu apelido de “Elvis the Pelvis” tornou-se notório, representando como ele se requebrava no palco.
Um novo estilo de homem se formava: jaqueta de couro, topete, sorriso contagiante e uma energia inigualável. Na música, saia o galã rígido e malandro, e entrava o playboy.
Elvis era idolatrado pelos fãs, mas, diferentemente de Sinatra, não via problema em frequentar bares e festas negras, fazendo questão de ressaltar cantores como James Brown e Little Richard, como amigos e inspirações, o que acabou por torná-lo alvo de perseguição por grupos racistas.
Durante uma turnê em Nova York, Elvis foi censurado de todas as formas, como as restrições para apresentar-se no programa Ed Sullivan, sendo filmado apenas da cintura para cima, tentando disfarçar seu “exibicionismo vulgar”. Era o velho conservadorismo, tentando o possível e o impossível para acorrentar Elvis em uma jaula de ouro, algo que realmente conseguiram em 1958, ao fazer com que Elvis cumprisse o serviço militar que até então não havia cumprido.
Para seu novo empresário, o coronel Parker, era uma forma de mostrá-lo como um “bom garoto patriota” e cessar a perseguição de parte da mídia contra ele. Após 2 anos servindo, ele retornou, já com contratos assinados com a Paramount e MGM, com as quais gravou mais de 31 filmes, tornando-se o típico galã de camisa florida cantado nas praias do Havai Parker definitivamente havia conseguido adestrá-lo.
Nem os filmes nem as músicas precisavam ser bons; bastava que Elvis fosse cercado de mulheres e cantasse músicas que não ofendessem ninguém. Era isso, ou ser completamente esquecido. O antissistema acabou por transformar-se no maior símbolo dele.
Porém, nem Parker nem o próprio Elvis foram capazes de conter o leão que havia dentro dele, e em Las Vegas, ele enfim foi solto de sua jaula. De 1968 até 1974, o Rei do Rock viveu seu apogeu, com shows icônicos, entre eles, o Aloha from Hawaii, o primeiro concerto via satélite da história, e considerado um dos melhores espetáculos de todos os tempos.
A REVOLUÇÃO BRITÂNICA
Em seu hiato, novos ícones surgiram, como os Beatles no Reino Unido, considerados por muitos a primeira “boy band” de todos os tempos, nascida em meio à Revolução Sexual, que romperia com diversos tabus que permearam a sociedade por séculos. Composta por John Lennon, Paul McCartney, Ringo Starr e George Harrison, a banda britânica é tida por muitos como a maior de todos os tempos, com quase 1 bilhão de discos vendidos, e um impacto cultural que nem mesmo os números podem estimar. Formado por Lennon em 1957, o quarteto alcançou o estrelato logo em 1962, com o disco "Love Me Do". Logo no ano seguinte, Please, Please Me alcançou o topo das paradas britânicas. Em pouquíssimo tempo, os garotos tornavam-se as maiores estrelas do Reino Unido, e isso ia muito além da música.
O marketing construiu cuidadosamente a imagem da banda, com o intuito de gerar identificação do público individualmente com cada membro: John (o inteligente/ácido), Paul (o galã/romântico), George (o místico/quieto) e Ringo (o engraçado/amigável). Você poderia se identificar com suas personalidades, suas ideias, seu visual; eles tornavam-se um espelho para toda uma juventude, uma em que não havia um único caminho.
Quando se apresentavam na BBC, usavam ternos e cortes de tigela nos shows, usavam cabelos compridos e roupas psicodélicas. Eles se adaptam a cada contexto, como qualquer pessoa, mostrando que não estavam ali para serem produtos.
Infelizmente, o vício recorrente de todos os membros, em especial John Lennon, por drogas como LSD e maconha, contribuiu para a normalização de tais vícios para muitos jovens. O próprio Paul McCartney assumiu publicamente na BBC, em 1967, que era usuário de LSD, defendendo as drogas não como um remédio para doentes, mas sim como algo recreativo, especialmente para os jovens. Era o sexo, drogas e rock'n'roll em sua forma mais bruta, a face dos anos 1960.
Curiosamente, o Reino Unido viveu um verdadeiro colapso no British System para controle de drogas, encarando um crescimento de 500% no número de viciados em heroína entre 1959 e 1968, nunca mais conseguindo recuperar os bons números de outrora.
Percebe-se que o poder de influência dos artistas crescia cada vez mais. Eles não influenciavam mais somente a sua forma de se vestir ou de se relacionar; eles passavam a influenciar, mesmo que indiretamente, o rumo que você dava à sua própria vida. Do galante Frank Sinatra aos jovens desarrumados Beatles, os trinta anos após a Segunda Mundial mostraram-se um verdadeiro caldeirão de novidades, que nos guiaram ao momento mais grandioso da cultura pop: os anos 1980.
A ERA DO OURO E DA CARNE


Em 1976, um novo fenômeno da moda surgia, de um lugar um tanto inesperado. Farrah Fawcett, hoje famosa por seu papel como Jill Munroe em As Panteras (1976), na época era apenas uma modelo de capa para os xampus da Wella Balsam, em que ostentava seus ondulados e volumosos cabelos loiros.
Muitos jovens recortavam a imagem da atriz para fins de… entretenimento, e isso motivou o empresário Ted Trikilis a usar aquela imagem como o símbolo jovem, atlético e solar que faltava em Hollywood. Diferente dos ensaios superproduzidos feitos pelas estrelas hollywoodianas, Farrah foi fotografada por Bruce McBroom de maneira extremamente simplória, quase como um trabalho de faculdade. Porém, seu sorriso e maiô vermelho colado bastaram para fazer de uma daquelas simples fotos o pôster mais vendido de todos os tempos, com mais de 12 milhões de cópias.
Fawcett inaugurou um novo padrão estético: o cabelo volumoso, o corpo bastante magro, o sorriso irradiante, e a certeza de que o sexo já não estava mais nas entrelinhas; na verdade, era agora o principal produto de qualquer ator ou atriz estreante. Para os jornais da época, ela significava a diferença entre estrelas comerciais e verdadeiros fenômenos sociológicos.
A revolução iniciada no anos 1950 chegava ao seu auge, com 95% dos americanos possuindo uma TV em suas casas. Os artistas, apresentadores e jornalistas diante da câmera, falavam com centenas de milhões de pessoas, da costa leste a oeste. A influência da mídia sobre a vida das pessoas nunca foi tão grande.
Em setembro daquele mesmo ano, foi ao ar As Panteras, em que milhões de americanos sintonizam na ABC apenas para ver a garota dos pôsteres em movimento. Para Farrah, sua imagem valia tanto quanto seu salário, e seus royalties gordos explicavam isso.
Porém, nem todo o dinheiro do mundo foi capaz de mantê-la no estúdio ainda no ano seguinte, quando Fawcett pediu demissão, após ser boicotada por seus superiores ao desejar ter papéis realmente sérios no cinema e no teatro.
Por mais que seu papel na série transmitisse empoderamento, era sabido por todos, e especialmente por ela, que, para boa parte do público, especialmente masculino, ela era vendida como um produto visual para alimentar seus desejos. No fundo, seu talento pouco importava.
Fato é que Farrah reinventou a beleza e a moda na década de 70 e 80, e essa reinvenção surtiria efeito até mesmo entre a realeza.
A REALEZA POP
Em 1981, Diana Frances Spencer casou-se com Charles Windsor, Príncipe de Gales e herdeiro do trono britânico. Para a imprensa, aquele era o Casamento do Século, um conto de fadas transfigurado na realidade, diante de mais de 750 milhões de espectadores em todo o mundo.
Contrastando com a seriedade e “frieza” da Rainha Elizabeth II, Diana mostrava-se como a membro mais acessível da realeza, sorrindo, apertando as mãos e abraçando a todos. Um momento de destaque foi quando a Princesa acolheu um paciente com AIDS no Middlesex Hospital, em 1987, quebrando uma série de estigmas sociais com um gesto extremamente simples e, acima de tudo, humano.
Como uma mulher em posição de poder, Diana inspirou o pensamento de que a liderança não vinha apenas da autoridade, mas principalmente da empatia, em fazer-se próximo daqueles que depositam em você suas esperanças. Ela também foi primordial na conscientização quanto a problemas como a depressão pós-parto e a bulimia, lutas que mesmo ela, uma das mulheres mais ricas e influentes do mundo, vivenciava como tantas outras. Ela ensinou que a vulnerabilidade gera conexão.
Ao mesmo tempo que vulnerável, Diana mostrou-se forte para deixar a prisão dourada que seu casamento havia se tornado, enfrentando todas as polêmicas que o divórcio real pudesse causar, o que certamente inspirou muitas outras a fazerem o mesmo, mesmo cercada por contradições e pressões que nunca deixou totalmente para trás, como suas traições contra Charles.
Sua beleza angelical e humildade a fizeram popular no mundo todo. Seu visual misturava o excêntrico da aristocracia com a praticidade atlética da modernidade, e seu penteado curto e volumoso, semelhante ao fenômeno do Farrah Fawcett, tornou-se popular em todo o mundo.
Se, por um lado, havia a suavização da figura masculina e feminina, os cinemas estadunidenses na Era Reagan fizeram questão de responder com os famosos brucutus de filme de ação, personagens hipermasculinizados, vividos principalmente pelos lendários Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger. Os EUA viviam em uma ferida aberta após a derrota na Guerra do Vietnã, em que o pior golpe havia sido dado de dentro, com os próprios americanos voltando-se contra seu governo.
Os homens que voltaram com vida, diferentemente dos veteranos da Segunda Guerra Mundial, não foram recebidos com aplausos e passeatas, mas, com vaias e ataques, quando não por algo ainda pior: o descaso.
Era necessário reavivar o orgulho estadunidense, demonstrar a força do homem em um período em que a masculinidade tornava-se mais “frágil”, assim como o ego ocidental.
OS SUPER-HOMENS
Em Rocky (1976), Stallone vivia um homem comum, sem grandes pretensões, que recebe de bandeja a oportunidade de enfrentar o atual campeão mundial de boxe, Apollo Creed. Ele sabe que a vitória é impensável, mas dedica-se ao máximo, levando a si mesmo ao ápice físico e mental e, mesmo perdendo para o adversário, vence as suas próprias limitações. Não era sobre vencer no ringue, era sobre vencer a si mesmo, pelo menos no início.
Sylvester havia apostado tudo em seu roteiro, e o Oscar de Melhor Filme de 1977 não poderia tê-lo deixado mais surpreso; era o projeto de sua vida, transformando-o em uma estrela, ao mesmo tempo que desfigurava parte de sua ideia original. Rocky II e III ainda mantêm a autossuperação como ideia central, mas Rocky IV (1987) torna-se praticamente uma propaganda ideológica dos EUA durante a Guerra Fria, transformando o boxeador ultramusculoso e invencível em um bastião do bem na luta contra o mal.
Em Rambo, outra saga de sucesso estrelada por Stallone, acontece quase a mesma coisa. No clássico de 1982, John Rambo é um veterano traumatizado do Vietnã, que simplesmente não consegue se encaixar novamente na sociedade. Todos o desprezam, e em seus sonhos, os horrores que vivenciou voltam a assombrá-lo. Ele havia sido cuidadosamente programado para matar, e era somente aquilo que ele sabia fazer agora.
Por mais que o original tenha um viés mais crítico e psicológico, não podemos falar o mesmo de suas sequências, que se resumem ao Coronel Trautman indo ao lugar onde Rambo finalmente encontrou paz e levando-o para o front contra algum inimigo dos EUA, onde John age quase como um Superman, exterminando hordas de vietnamitas ou soviéticos completamente sozinho. As pessoas faziam filas no cinema para assistir à ideia de que um homem lutando pelo que julga ser o certo era capaz de vencer um exército inteiro.
Se Stallone era o orgulho patriótico, Arnold Schwarzenegger era o orgulho próprio. Schwarzenegger iniciou sua carreira como fisiculturista em 1962, com apenas 15 anos, e logo aos 20 tornou-se o mais jovem campeão do Mr. Universo, com um físico quase sobrenatural. E ele era o CGI antes de este ser inventado. Entre 1965 e 1980, Arnold Schwarzenegger conquistou sete vezes o título de Mr. Olympia, consagrando-se como um dos maiores vencedores da competição.
Desde 1970, Arnold já atuava nos cinemas, estreando no filme Hércules de Nova York, no qual precisou ser dublado por outro ator, devido ao seu forte sotaque austríaco, e pela sua própria habilidade de atuação, algo pelo qual ele é zoado até os dias de hoje.
Em 1982, ele teve seu primeiro grande papel, vivendo Conan, o Bárbaro, em que seu físico foi decisivo para destacá-lo como um grande guerreiro. Em 1984, faria seu papel mais icônico como T-800 em Exterminador do Futuro, tornando-se a face da franquia ao lado de Linda Hamilton, a eterna Sarah Connor, uma das primeiras heroínas de ação oitentistas. Mesmo sem transmitir muita emoção (não à toa que seu melhor papel foi interpretar um robô), Arnold tornou-se, ao lado de Stallone, o maior ícone de ação dos anos 1980, celebrado até os dias de hoje.
Ele transmitia poder, orgulho, segurança, algo que muitos homens desejavam ter, e por isso buscaram seguir seus passos, criando um novo padrão de masculinidade, um tanto diferente dos anteriores. Não era sobre cavalheirismo, rebeldia ou fragilidade, era sobre transformar a si mesmo em uma fortaleza, não importava o custo.
Nos anos 1950, o físico ideal era o de um jogador de beisebol esbelto; agora, era o de um deus grego, um padrão que, para a imensa maioria dos mortais, era inalcançável. O uso de anabolizantes cresceu exponencialmente, e não para uso médico, e sim puramente estético. Os jovens queriam encarnar a mesma força que Rambo e Conan mostravam nos cinemas, mas o preço era muito alto.
Por mais que esse padrão hipertrofiado tenha ganho força, ainda havia espaço para os galãs “peso-pena” mais joviais, como Ralph Macchio, Harrison Ford e Michael J. Fox ainda tinham seu espaço, tornando-se as faces das sagas mais incríveis da década, como Karatê Kid, Star Wars e De Volta Para o Futuro. É seguro dizer que, em nenhum outro momento da história, a cultura pop influenciou tanto a vida das pessoas. Era uma verdadeira explosão cultural em todas as mídias, e sempre haveria alguém para se enxergar.
OS PALCOS DA DIVERSIDADE
No campo da música, os palcos eram tomados pelas maiores estrelas desta maravilhosa arte, como Freddie Mercury e Michael Jackson, esse segundo sendo tratado quase como uma divindade entre os homens.
O sétimo de nove irmãos, Michael nasceu em uma família extremamente humilde de Chicago. Guiado por seu pai, o jovem Jackson cantava ao lado de seus irmãos no Jackson Five, destacando-se desde cedo por sua fantástica voz e desenvoltura. O grupo emplacou quatro sucessos número 1 seguidos (I Want You Back, ABC, The Love You Save e I'll Be There). Logo na infância, já se percebia que o garoto havia simplesmente nascido para a música.
Logo aos treze anos, iniciou sua carreira solo, e em 1979, sua era de ouro se iniciava graças ao disco Off the Wall, misturando funk, disco e pop. Assim, Jackson tornou-se o primeiro artista negro a ter quatro sucessos entre os dez mais vendidos do ano. Um jovem negro, ovacionado pelas massas, vendo crianças brancas imitando o Moonwalk nas escolas. Michael Jackson era a prova de que o sonho americano alcançava a todos (mesmo que para uns seja muito mais difícil do que para outros…). Um artista negro dominava as paradas brancas. Pela primeira vez, um negro era rei de alguma coisa dentro da cultura pop.
A década de 1980 lhe traria ainda mais sucesso, como o disco Thriller, vendendo mais de 66 milhões de cópias, levando-o ao top 1 das paradas globais. Naqueles tempos, Jackson era seguramente o artista mais famoso do planeta Terra, mesmo que nos bastidores, isso custasse sua saúde mental, lhe fazendo afundar-se no vício em remédios, e que alguns de seus fãs levassem a idolatria longe demais, algo que como já vimos anteriormente, é quase uma lei na vida dos famosos.
Seu visual excêntrico e exagerado foi incorporado por muitos jovens, que adotaram o estilo bad boy, com jaquetas e botas de couro, que viriam a compor a estética punk típica dos anos 1980.
Mas engana-se quem pensa que apenas Jackson esteve entre as grandes estrelas negras dos anos 1980. Nos palcos dos EUA e do mundo, fenômenos como Whitney Houston, considerada até hoje uma das cantoras mais incríveis de todos os tempos, e a banda Prince diversificaram a imagem da cultura pop e, ao seu modo, influenciaram a sociedade.
E é claro, não podemos passar pela década de 1980 sem falar de Madonna, talvez a maior personalidade feminina da década. Produto final da Revolução Sexual, a cantora lançou clássicos como "Like a Virgin", em que ostentava em seu figurino cintas, espartilhos e roupas de couro, ao melhor estilo de dominatrix, simbolizando alguém que não controlava a própria sexualidade, como também a dos homens.
Isso refletia em sua vida pessoal, sendo ela uma das primeiras cantoras a ter pleno controle sobre sua própria carreira, reinventando-se artisticamente e esteticamente sempre que necessário, algo que pautou as divas pop da modernidade.
A Madonnamania popularizou desde pulseiras de borracha e roupas de brechó até sutiãs de cone, criando uma estética única. Aproveitando-se de sua popularidade mundial, ela deu espaço para membros da comunidade LGBT e negra, tornando-se uma de suas defensoras mais ferrenhas. Ela tornou-se um anjo para eles e um demônio para os conservadores, uma vez que a promiscuidade e os excessos eram também sua marca registrada.
Pela primeira vez, a cultura pop não apenas refletia a sociedade, ela a moldava ativamente. E esse poder, amplificado décadas depois pelas redes sociais, define a atualidade
A ATUALIDADE: LIBERDADE OU PRESSÃO?


Os anos 2000 se tornaram um verdadeiro caldeirão cultural. A internet começava a se fazer presente em todas as casas, e redes sociais como o Facebook tornavam a vida de milhões de usuários um livro aberto nas mãos uns dos outros. Você tinha bilhões de possibilidades, na palma da mão.
As possibilidades eram infinitas: jovens cantores adolescentes como Justin Bieber, brucutus à moda antiga como Vin Diesel em Velozes e Furiosos, o equilíbrio entre pureza e progressismo (recheado de polêmica), com Britney Spears, e a revolução das ruas com o rap de Eminem.
A moda das divas pop, iniciada por Madonna, seguiu forte, com lendas como Beyoncé, Lady Gaga, Taylor Swift e, mais recentemente, Sabrina Carpenter, angariando milhões de fãs por todo o mundo, ostentados em suas redes sociais.
A falsa proximidade entre fã e ídolo, construída pelas redes sociais, principalmente o Instagram, fortaleceu ainda mais as inspirações. O “lifestyle” dos famosos, antes visto apenas nas revistas de fofoca, hoje é postado em tempo real todos os dias, permitindo que conheçamos, ao menos em parte, sua intimidade. A busca pela semelhança aumentou exponencialmente com as trends e filtros. Mais do que nunca, todo mundo pensa que pode se tornar uma estrela como seu ídolo. As possibilidades certamente aumentaram, com diferentes belezas, personalidades e estilos, passando pela nossa timeline o tempo todo.
Era uma verdadeira concha de retalhos, uma fusão de milhares de referências das sete décadas anteriores. Mas, ao mesmo tempo que propiciou a diversidade de ideias e a potencializou como nunca antes, essa revolução digital inflamou os debates ideológicos que por décadas permaneceram fechados a grupos específicos. Agora, qualquer pessoa com Wi-Fi ou dados móveis pode elogiar ou atacar qualquer um em qualquer lugar do mundo, e encontro milhões de pessoas que concordam ou discordam com ela.
A nova geração de astros de Hollywood, como Tom Holland, Zendaya, Timothée Chalamet e outros, hoje encontra seu habitat natural mais no Instagram do que nas revistas e nas próprias telas do cinema.
Como pudemos ver ao longo dessa série, desde os primórdios da cultura pop moderna, famosos de todos os nichos mostraram-se capazes de influenciar o comportamento, estilo de vida e, por vezes, o destino de milhões de pessoas, que os seguiam não apenas por seu talento ou beleza, mas por enxergar neles algo que lhes inspirava, seja para o bem, seja para o mal, algo que, convenhamos, é bastante relativo quando se trata da nossa sociedade.
Do cavalheirismo de Clark Gable à força selvagem de Schwarzenegger, da seriedade de Grace Kelly à leveza de Diana, e do sorriso de Farrah Fawcett em seu icônico pôster às milhões de curtidas nas fotos de Sabrina Carpenter, as estrelas moldam a sociedade em que vivemos, e fazem isso por meio de cada um de nós.
E você, já percebeu essa linha cronológica da influência dos famosos? Qual desses ícones mais lhe afetou, seja no bom ou no mau sentido? Não deixe de comentar!
