Como a Marvel Sentiu a Morte do Capitão América? (e Como Ela Decide a Guerra Civil)
Oficialmente, o arco de Guerra Civil teve fim em Civil War #7 (2007), com o duelo derradeiro entre a equipe pró-registro, liderada pelo Homem de Ferro, e a contra-registro, chefiada pelo Capitão América. Depois de libertar dezenas de heróis mantidos sob custódia por Stark na Ilha Ryker, Rogers levou o duelo ao centro de Nova York. Isso causou uma terrível devastação, uma tragédia que o fez encarar as consequências de sua obsessiva disputa ideológica com um homem que até pouco tempo considerava um de seus melhores amigos. Ele tinha o Gladiador Invencível sob seu domínio, derrotado e humilhado sob seu escudo. Porém, no momento em que os civis se aglomeraram ao redor deles tentando segurá-lo e implorando para que parasse, Steve teve a certeza de que havia sido derrotado. Foi nesse instante que o Sentinela da Liberdade soltou sua arma, estendeu as duas mãos e deixou-se ser capturado. Não por fraqueza, não por covardia, mas por perceber que, de tanto lutar pelo que julgava ser o certo, estava fazendo o que sabidamente não era. Ele tinha vencido a batalha, mas perdido a guerra pelo coração das pessoas. Com seu líder atrás das grades, heróis sob sua liderança como Demolidor, Falcão, Luke Cage, Wolverine e Homem-Aranha se viram sem rumo, sem objetivo, como se sua bússola moral tivesse perdido o norte. Mas não eram apenas eles que se sentiam assim. O Capitão América era uma relíquia do passado e, ao mesmo tempo, uma esperança para o futuro. Um mito, e ao mesmo, tempo uma verdade concreta. Era um símbolo que conectava todas as gerações e todas as nações. Quando esse ideal se rendeu, todo o mundo foi afetado. Não foi Steve Rogers quem perdeu: foi a moral que ele representava. Então, o Homem de Ferro venceu, não é mesmo? Sem nos limitarmos aos últimos quadros de Guerra Civil, pode-se dizer que sim. Mas, pessoalmente, acredito que o verdadeiro final de Guerra Civil esteja no arco Capitão América: Morre uma Lenda (2007), escrito por Jeph Loeb. Afinal, às vezes, apenas a morte é capaz de fazer jus ao legado de um homem.
MARVEL E DC
Rafael Silva
8/4/20265 min read


O Peso do Legado e a Queda de um Mito
Ao ser capturado, Steve Rogers seria levado a julgamento, deixando a opinião pública dividida. Muitos o tinham como um símbolo incorruptível, com seus atos de heroísmo pelos EUA e pela humanidade possuindo um peso incalculável que o colocava além de qualquer sentença. Para os pró-registro, e até mesmo para alguns contrários à lei, Steve Rogers era um traidor: para uns, por prezar a tradição acima da lei; para outros, por não ter sido corajoso o suficiente para lutar por ela até as últimas consequências.
Os flashbacks de Bucky Barnes, Sharon Carter e Sam Wilson nos mostram a grandiosidade do legado do Capitão América, o quão influente ele foi como amigo, parceiro e líder, muito além do escudo. Ele definitivamente não era um herói comum; ele estava acima disso.
Porém, quando seu destino foi tragicamente ceifado em uma conspiração arquitetada pelo Caveira Vermelha, com um tiro de sniper do Ossos de Cruzados e outros disparos efetuados pela própria Sharon sob controle mental, uma lenda finalmente conheceu a morte, e o peso de seu legado foi posto à prova.
A narrativa de Morre uma Lenda inteligentemente se divide em cinco diferentes blocos, cada um representando uma fase do luto: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Todavia, o mais interessante dessa dinâmica é observar como cada um dos heróis reage a essas etapas, e como isso reforça a imortalidade do Capitão e o fracasso do Homem de Ferro.
Wolverine e Homem-Aranha: A Negação e a Depressão
Logo de cara, Wolverine se mantém descrente em relação à morte do Capitão. Afinal, ele lutou ao seu lado na Segunda Guerra Mundial e o viu voltar dos mortos após cinco décadas, como ele mesmo já havia feito tantas vezes.
Para alguém praticamente imortal, lidar com a finitude daqueles à sua volta mostra-se quase impossível. Por mais que Logan não fosse necessariamente um amigo íntimo de Steve Rogers, ele o via como um ícone e, ao mesmo tempo, como alguém semelhante: um homem fora de seu tempo, deslocado, incapaz de se conectar plenamente. Mas, acima de tudo, Logan não conseguia aceitar que, diferente dele, o Capitão América não era à prova de balas. Ele precisou ir pessoalmente com o Demolidor até o porta-aviões da S.H.I.E.L.D. para ter certeza de que o Super Soldado havia realmente morrido, o que confirmou ao reconhecer o cheiro de seu corpo.
Outro que, da mesma maneira, escolheu a negação foi o Homem-Aranha. Um garoto décadas mais jovem que Logan, mas que sentiu o mesmo vazio ao saber da morte do Capitão. Para Peter, a morte dele deveria ser obra de clones, robôs ou efeitos especiais. O Capitão não poderia ter morrido.
Steve Rogers foi um homem atemporal. Ele inspirou e liderou Wolverine e milhões de outros homens e mulheres na luta pela liberdade na Segunda Guerra Mundial, e, mesmo antes de ser descongelado, continuou inspirando jovens como Peter Parker por meio de livros, documentários e registros de jornal. O ideal que defendeu ia além da sua própria vida. Para completar, Peter teve a honra de lutar ao seu lado, de ver seu herói saltar das páginas para a sua frente e chamá-lo de amigo (e ainda salvá-lo de ser esmagado pelo Hulk, o que foi ótimo para ele).
Demorou tanto para que Peter compreendesse que seu herói de infância era real, que se tornou inconcebível vê-lo morrer diante de seus olhos. De maneiras diferentes, Steve Rogers representava a mesma coisa para duas gerações e dois heróis totalmente distintos, pois seu símbolo era maior que o tempo e as diferenças. Tanto para o Homem-Aranha quanto para Wolverine, o Capitão América era eterno.
Essa dupla improvável representa também a depressão: Wolverine perdeu uma âncora de seu passado, enquanto o Aranha perdeu um mentor em seu presente. Quando Rogers morreu, um pouco dos dois se foi com ele.
Homem de Ferro e Falcão: A Barganha e a Aceitação
Tony Stark foi o grande responsável pelas circunstâncias que levaram à morte do Capitão, um peso que ele mesmo admite estar em suas costas e que não consegue suportar. A última conversa entre eles havia ocorrido de maneira extremamente amarga na HQ Confissão, com Steve atrás das grades da Ilha Ryker enquanto Tony cantava vitória do outro lado.
Rogers o colocou contra a parede, mostrando como ele havia se vendido por remorso, traído seus amigos e desencadeado uma guerra que destruiu a credibilidade de todos. Diante dessas afirmações, Stark limitou-se a responder: “Você é um mau perdedor, Capitão América”.
Mas, naquele momento, diante de seu corpo sem vida, o Homem de Ferro teve a certeza: ele havia perdido. Ele era o culpado pelo amigo que agora teria que enterrar.
Sua arrogância causou a Guerra Civil, fez com que o Capitão fosse preso e, consequentemente, assassinado. Se o mundo tinha perdido seu melhor defensor, Tony era o maior culpado. E, como de costume, Stark jamais foi capaz de lidar com seu próprio fracasso. Simbolizando o processo da barganha, ele tenta substituir não o homem, mas a ideia por trás dele.
Ele oferece a Clint Barton, o Gavião Arqueiro, o uniforme, o escudo e até mesmo o nome de Capitão América. Porém, ambos sabem que ninguém é verdadeiramente capaz de carregar esse fardo. Por mais que Tony tentasse, seu erro era irreversível, assim como sua derrota moral. Os aliados do Capitão, as massas e o próprio Stark sabiam que Steve Rogers estava certo. Ele era um homem melhor, alguém que, no dia do seu funeral, assumiria a responsabilidade e confessaria seu erro diante de todos, algo que Tony não foi capaz de fazer.
Assim, coube a Sam Wilson, o Falcão, fazer jus a Steve. Não como parceiro de combate, nem como fã, mas como amigo: alguém que enxergava a pessoa simples por trás da máscara e sabia exatamente o que tornava o Capitão América especial. Era a sua humanidade e seus valores imortais que uniam a todos. Esse foi o momento da aceitação, a certeza de que, dali em diante, era dever deles continuar lutando pelo mundo que o Capitão América viveu para construir.
O Peso de uma Lenda
Dadas as devidas proporções, a morte do Capitão América assemelha-se à morte do Superman nos anos 1990. Ambos carregavam um simbolismo muito maior do que seus poderes, e suas mortes serviram para abalar as estruturas de seus respectivos universos. Contudo, em seu cerne, o fim de suas vidas foi muito diferente.
O Homem de Aço morreu em combate, sacrificando-se para deter o Apocalipse e salvar Metrópolis, com todos tendo a certeza de que aquele que deu a vida por eles era um herói irrestrito. Steve Rogers foi morto de maneira covarde, vítima de um atentado que só foi possível porque seus antigos aliados o desarmaram e o prenderam. Mas foi o seu sangue que lavou as feridas daquela guerra e o fez vitorioso, mesmo que em seu próprio calvário. Sua morte fez com que todos, dentro e fora das páginas, percebessem o quão gigante ele foi.
E você, já leu essas HQs? Qual morte achou mais impactante: a do Capitão América ou a do Superman? Não deixe de comentar!
