Batman Arkham Knight: A Noite em que Batman Venceu o Medo
Após o sucesso estrondoso de Batman Arkham City (2011), tido até hoje como um dos melhores jogos de super-herói de todos os tempos, a Rocksteady tomou uma decisão polêmica: lançar o capítulo final da saga para a nova (hoje velha) geração de consoles, PlayStation 4 e Xbox One. O motivo da mudança: fazer o jogo definitivo. Se Arkham City tivesse sido um imenso salto de grandiosidade em relação a Asylum, Knight seria outro patamar. O maior mapa, a maior história e número de missões secundárias, os melhores gráficos e a melhor mecânica de combate e, claro, a inserção do elemento que tantos players pediam: o Batmóvel. Entre um jogo e outro, tivemos Batman Arkham Origins, o único dos quatro sem desenvolvimento da Rocksteady, servindo como prequel para Arkham Asylum. Muitos (entre eles eu) o consideram o pior dos quatro, mas, além de ser um grande jogo (do qual podemos falar futuramente...) serviu para saciar o desejo dos fãs até que obra-prima chegasse as prateleiras. O resultado foi fantástico. Knight tornou-se o maior sucesso de vendas da história da saga, fechando dezenas de pontas soltas deixadas ao longo da saga (umas melhores que outras) e refinando a gameplay até a perfeição. Todavia, não iremos nos limitar a uma review do game, já que praticamente TODO mundo já fez isso. Ao invés disso, vamos nos ater a um aspecto interessantíssimo da trama: a relação de Batman e Espantalho com o medo. Como Crane transformou o maior trunfo do Cavaleiro das Trevas em uma fragilidade que o acompanhou ao longo de toda a trama, expondo-o de maneira que nenhum dos outros capítulos foi capaz de fazer. Então, sem mais delongas, vamos ao assunto!
MARVEL E DC
Rafael Silva
9/30/202611 min read
O Poder do Medo


(Créditos: Rocksteady/DC Comics)
Os nove meses de paz após a queridíssima morte do Coringa foram interrompidos pelo retorno inesperado do Espantalho, que, após ser massacrado pelo Crocodilo em Arkham Asylum, teve de ser quase que completamente remendado, deixando-o com o visual mais perturbador que já teve. Até o Crocodilo parecia bonito perto dele.
Por mais de um ano, ele planejou sua vingança. Mesmo preso Arkham City, ele não deixou de experimentar variações cada vez mais poderosas de sua toxina. Seu retorno faria Gotham queimar.
Com uma dose irrisória de seu gás do medo, ele foi capaz de fazer com que os clientes de uma cafeteria simplesmente se estraçalhassem, tomados por um medo inexplicável e irremediável.
A resposta foi imediata. Centenas de ônibus deixaram Gotham, fazendo com que a maior cidade dos EUA se transformasse em uma cidade fantasma em menos de um dia. Bastou uma pequena centelha de medo para que 6,3 milhões de pessoas abandonassem suas casas, empregos e família em nome da sua própria segurança.
As ruas agora só tinham lugar para dois tipos de pessoas: os homens e mulheres do DPGC que decidiram ficar para lutar pela sua cidade e a escória como as gangues de Duas-Caras, Pinguim e Charada, que apenas aguardavam para alimentar-se da carcaça dela quando tudo terminasse. Eram os melhores contra os piores de Gotham. Numericamente, a contava estavam bem desfavorável para os mocinhos.
Quando Jim Gordon ativou o Bat-Sinal, ele convocou o único homem que jamais viraria as costas para Gotham, um que jamais se deixaria dominar pelo medo, o único em quem poderiam confiar para salvar a todos eles: Batman.
Logo de cara, Bruce percebe que não está lidando com uma noite de crime qualquer. As forças do Espantalho possuem carros blindados, tanques, uma milícia privada muitíssimo bem treinada. Além dos maníacos que estava acostumado a enfrentar todas as noites, ele precisaria lidar com soldados treinados especialmente para derrotá-lo. Era o seu dever decepcioná-los.
Isso dá o tom do jogo. Arkham Knight traz a faceta mais épica do Batman. Um único homem contra um exército feito sob medida para destruí-lo. Esse “super-heroísmo” exacerbado poderia descaracterizar a saga, conhecida por, muitas vezes, flertar até mesmo com um terror psicológico envolvendo o Homem-Morcego.
Arkham Asylum punha o Cavaleiro das Trevas em um manicômio claustrofóbico inundado pela loucura. Arkham City fazia-o correr contra o tempo, com o sangue infectado de seu maior inimigo destruindo suas veias, enquanto Hugo Strange ameaçava revelar o segredo do homem por trás da máscara ao mundo.
Em ambos os casos, Batman foi levado ao limite físico, mas também psicológico. Em Arkham Knight, por mais que possamos enfrentar dezenas de drones com um carro-tanque, o verdadeiro conflito se desenrola em um âmbito muito mais íntimo: a mente do Batman. É lá que a verdadeira “boss fight” do jogo se desenrola ao longo de toda a narrativa.
As Várias Vias do Terror


(Créditos: Rocksteady/DC Comics)
É na Química Ace, no momento em que Batman tenta impedir que o Espantalho detone a fábrica, espalhando sua toxina por toda Gotham, que o horror é apresentado a ele de todas as formas.
Primeiro: o Cavaleiro de Arkham. Um vilão desconhecido, incrivelmente habilidoso e com um conhecimento gigante das habilidades e estratégias do Cavaleiro das Trevas, só não maior que ódio que tinha pelo mesmo.
Aqui, o medo do herói não é a força do oponente, é a incerteza e a impotência que tem ao enfrentá-lo. Como alguém que ele nem ao menos conhece poderia saber tanto sobre ele? Como era possível alguém construir um exército e tomar sua cidade sem que percebesse? Para o Maior Detetive do Mundo, não havia humilhação maior do que ser pego desprevenido.
Todavia, isso foi apenas o começo. Ao invadir a Química Ace e chegar a Crane, o vilão diz ter sequestrado Bárbara Gordon, ameaçando matá-la caso ele não o deixasse ir.
Outro golpe, esse muito mais duro que o anterior. Bruce sempre temeu pôr outras pessoas em sua cruzada, sabia dos riscos e sabia ainda melhor o quanto essa guerra sem fim era capaz de consumir a alma de quem aceitasse travá-la. Agora, assim como Jason Todd nas mãos do Coringa, Bárbara estava prestes a morrer apenas por ousar lutar ao seu lado.
As consequências eram imensuráveis. Tim Drake, seu terceiro Robin, era apaixonado por Bárbara e ficaria possesso quando soubesse que ela havia sido pega. O que dizer de Gordon? Um pai que tinha em sua filha a única que lhe restava. Por meio de uma única rachadura, todas as pontes do Batman tombariam.
Após a fuga de Crane, Batman dedica-se a retardar o raio da explosão com agentes neutralizantes, mais uma vez, totalmente destemido em relação à morte, mesmo quando Alfred lhe implora para que se salvasse. O Cavaleiro das Trevas nunca permitiria que a sua vida valesse a de milhões. No entanto, ele sabia que aquela decisão não decidiria apenas o seu destino. Sem ele, quem salvaria a Oráculo? Quem impediria o Espantalho? Quem descobriria a verdade sobre o Cavaleiro de Arkham? Era impossível virar as costas para o medo quando o mesmo o perseguiria mesmo depois da morte.
É nesse instante que a última peça do quebra-cabeça surge: o Coringa. Mas ele não estava morto? Sim, e, ao mesmo tempo, mais vivo do que nunca. Os fãs certamente se lembram de Arkham City, onde o Palhaço do Crime não apenas infectou Batman com seu sangue corrompido pelo Titã que ingeriu em Arkham Asylum, enviando amostras para os hospitais de Gotham. Os azarados que acidentalmente foram tratados com esse sangue, Johnny Carisma, Golias, Henry Adams e Christina Bell, estavam gradualmente se transformando no Palhaço do Crime, assumindo diferentes aspectos de sua personalidade doentia.
Obviamente, o Batman não foi exceção. No entanto, ele vinha sendo capaz de conter sua própria transformação e empenhava-se em buscar uma cura, sem dizer a ninguém da sua real condição. Mas, diante de tamanha pressão, a figura do nêmesis surgiu em sua mente, para condená-lo e, ao mesmo tempo, salvá-lo, no sentido mais estranho da palavra.
Durante toda a sua carreira criminosa, o Coringa jamais esboçou medo, preocupação, arrependimento, nada que de fato o fizesse pensar duas vezes antes de agir. Abrir mão da sanidade era libertar-se da culpa, libertar-se do medo.
Para o Espantalho e o Cavaleiro de Arkham, matar o Batman fisicamente seria apenas uma parte do plano. Era preciso destruí-lo completamente e, para isso, o morcego que ostentava em seu peito deveria perder o sentido para todos e, principalmente, para ele mesmo. Ele deveria ruir com o peso de seus fracassos, com a morte daqueles que jurou defender e, somente quando ele perdesse a esperança em si mesmo, Gotham poderia perder as esperanças nele. E que maneira melhor de fazer isso, do que vagarosamente transformá-lo naquele que ele mais odeia? Sem perceber, Crane tinha a chave da vitória em suas mãos.
O Homem Sem Medo


(Créditos: Rocksteady/DC Comics)
Após escapar da Química Ace, Batman retoma sua guerra contra a milícia e as dezenas de criminosos soltos em Gotham.
O Comissário Gordon o abandona assim que descobre a verdade sobre sua filha, dando um soco na cara de seu antigo aliado, combinado com uma frase fria e definitiva.
“Eu nunca deveria ter confiado em você”.
O homem que lhe abriu as portas da lei para que as autoridades pudessem confiar nele agora removia seu voto de confiança. Dois aliados perdidos em uma mesma noite.
Ao mesmo tempo, Alfred simplesmente não consegue encontrar perfis compatíveis com o do Cavaleiro de Arkham no passado de Bruce. Ele é uma incógnita absoluta. Uma incerteza que tinha todas as certezas sobre ele.
Quanto mais distante de seus aliados, mais próximo do Coringa o Batman fica. O Palhaço começa a aparecer cada vez mais em seus vislumbres, encorajando-o a deixá-lo no controle, a desistir de uma missão fadada ao fracasso.
As alucinações chegam a tomar a mente do Batman quase por completo em algumas cenas, como no momento em que o mesmo vê os capangas do Espantalho se transformarem em réplicas do Coringa diante dele. A coisa estava ficando bizarra.
Quando invade o dirigível de Simon Stagg para capturar o Espantalho, o herói é temporariamente tomado pelo palhaço, após respirar uma pequena dose de gás do medo. Por alguns instantes, o seu “Coringa interior” tem a chance de aflorar, de sentir o quão poderoso seria com o corpo, as armas e a habilidade do Batman.
De acordo com o próprio Coringa:
“É um trabalho em andamento com muito potencial”.
Porém, novamente, sua força de vontade digna de um Lanterna Verde o faz retomar sua própria mente, infelizmente, não a tempo de impedir que Crane fugisse com o Dispositivo de Precipitação, a arma que iria utilizar para transformar a cidade em um pandemônio tomado pelo medo.
Decidido a dar uma amostra do que seu gás faria em Gotham, o Espantalho dá ao Batman a localização de Bárbara, apenas para envenená-la com sua toxina, fazendo-a tirar sua própria vida diante dos olhos do morcego. Hoje, todos sabemos que isso se tratou de uma alucinação do herói, porém, o impacto imediato foi fortíssimo.
A mesma dor que sentiu ao perder Jason o atingiu como um trem. Ele caiu de joelhos diante do corpo dela, sem forças para continuar. Novamente, o Coringa surge ao seu lado.
“Deixa o Titio C assumir, chega de memórias ruins, chega de dor, chega de medo…”. Mais uma vez, seu subconsciente lhe estendia a mão.
Era tentador… mas não o suficiente para o Batman. A obsessão por justiça que o movia sempre falaria mais alto que seu medo ou sua frustração. Essa obsessão jamais deixaria que a ex-Batgirl morresse em vão.
Posteriormente, ele descobre que havia sido manipulado pela toxina do medo, mas isso não muda o fato de que a morte de uma amiga não o retardou, e sim duplicou sua vontade. O medo da perda só o fazia mais forte.
“Nós lutamos com você, não por você, não se esqueça disso”.
É o que a própria Oráculo diz após ser salva por Bruce e seu pai. Ela, Bruce, Alfred, Tim, Jason, Dick, Jim, todos estavam em uma guerra por Gotham, não pelo Batman. Em maior ou menor escala, todos se entregaram pela cidade e, assim como ele, estavam dispostos a morrer por ela. Ele não era culpado pelas escolhas deles.
Ainda assim, o fantasma da morte não deixou de pairar sobre o Batman.
Hera-Venenosa morreu tentando ajudá-lo a limpar Gotham do gás do medo. Henry Adams, o único infectado que parecia ser imune ao sangue do Coringa, mostrou-se um traidor, responsável por permitir que Arlequina e sua gangue invadissem o laboratório do herói. Robin e Asa Noturna? Proibidos de intervir pelo próprio Batman. Naquela noite, todos os seus aliados ou foram mortos ou afastados por ele mesmo para que não seguissem pelo mesmo caminho.
Mesmo sozinho, Batman segue imparável. Ele detém o Dispositivo de Precipitação, captura os maiores criminosos de Gotham, destrói o tanque do Cavaleiro de Arkham e os de seus tenentes. Um único homem foi capaz de vencer um exército. Se em algum momento ele temia não estar à altura do desafio, esse medo caiu por terra. Porém, seu pesadelo não parava de assumir novas formas.
O mistério do Cavaleiro de Arkham se encerra quando o mesmo se revela como Jason Todd, ainda vivo. O Coringa havia forjado sua morte, fazendo com que Bruce parasse de procurá-lo, enquanto secretamente nutria o ódio do garoto por seu mentor, que tinha certeza de que Wayne havia não apenas o abandonado, mas o substituído sem pensar duas vezes. Era como se sua morte não tivesse significado nada. Ele não poderia ter se enganado mais, porém, Batman foi incapaz de fazê-lo enxergar isso e, após um breve confronto, Jason também se vai.
O medo do desconhecido deu lugar ao arrependimento do fracasso. Ele havia aprendido a suportar a morte, mas não uma vida destruída por sua causa. Isso faz com que o Coringa fique ainda mais vivo em sua mente, como uma cicatriz que insiste em não cicatrizar.
E é com essa ferida aberta que Bruce vai ao encontro do Espantalho, que novamente o atrai, pondo em risco a vida daqueles que lhe são próximos, dessa vez, Tim e Gordon.
Ele é levado ao lugar onde tudo começou: o Asilo Arkham, e, diante das câmeras, do mundo inteiro, sua face é removida pelas mãos forçadas de Jim Gordon, mostrando ao mundo quem ele fingia ser: Bruce Wayne.
Esse era o golpe final do Espantalho. Ele não havia conseguido matar ou corromper o Batman, muito menos destruir Gotham. Mas, a partir do momento em que todos soubessem que por trás da lenda havia um simples homem, seu mito estaria morto. Mais do que nunca, todos ao seu redor estariam em risco. Mais do que nunca, ele nunca teria paz.
Ter seu maior segredo revelado, esse era o único medo para alguém que já superou todos os outros.
Quando Crane injeta toxina nas veias do herói, o Coringa assume o controle. Ele se vê pondo fim em Gotham pelas mãos do Batman, provando àquela cidade que nem mesmo a morte era capaz de pará-lo. Porém, Batman reage, usando o único medo do Coringa contra ele: ser esquecido. Ele mostra seu funeral patético, onde apenas Arlequina se fez presente. Os jornais estampando o Pinguim como o maior inimigo do Batman. Mostra o quão insignificante era alguém que precisava do homem que mais lhe odiava para fazer sentido.
Com suas próprias mãos, Batman prende o Coringa em seu subconsciente, condenando-o ao esquecimento eterno, levando consigo o último temor que lhe restava: o de um dia se tornar alguém como ele.
É nesse momento que, para o desespero de Crane, Batman diz:
“Eu não tenho medo”.
Todas as suas ameaças haviam falhado.
“Sem medo, a vida não faz sentido”.
Diz o Espantalho ao sacar um revólver para pôr fim ao morcego, que simplesmente fecha os olhos. Para ele, a morte nunca foi digna de medo, mas ainda não havia chegado seu dia de encontrá-la. Na verdade, era o momento de outro alguém superar os seus próprios fantasmas.
Jason Todd retorna, desarmando Crane e libertando o Batman, permitindo que o herói faça com que o vilão experimente o seu próprio veneno, fazendo com que aquele acostumado a controlar os outros por meio do medo fosse consumido pelos seus próprios.
Naquele instante, Todd provou que a fé de seu mentor nele foi recompensada, que, por mais que ele tenha se tornado um monstro, os valores ensinados por Bruce ainda viviam dentro dele. Ele ainda poderia ser salvo, por mais difícil que fosse o caminho.
Para o Batman, era seu último medo sendo de fato superado: o de ter perdido Jason para sempre.
O Cavaleiro das Trevas venceu o medo em todas as faces com as quais se apresentou e, de quebra, o usou para vencer aqueles que julgavam-se livres ou acima dele.
Arkham Knight pode não ter Boss Fights incríveis como Arkham Origins, a história impecável de City ou a atmosfera imersiva de Asylum, mas nenhum deles trabalhou a mente do Batman de forma tão brilhante. O herói luta, do início ao fim, contra o seu próprio pesadelo e sai vitorioso.
E você, já jogou Arkham Knight? O que achou da trama? Não deixe de comentar!
