Batman: a cura e a doença de Bruce Wayne
Recentemente, li duas HQs muitíssimo celebradas do Cavaleiro das Trevas, mas que representam momentos completamente diferentes de sua jornada: Acossado (1990-1991), de Doug Moench e Paul Gulacy, e O Cavaleiro das Trevas (1986), de Frank Miller e Klaus Janson, que, para muitos, é a melhor HQ do Homem-Morcego. A primeira mostra os primeiros anos de carreira do Vingador da Noite, com sua crescente rixa com certos setores da polícia, sua frágil aliança com Gordon e a mórbida curiosidade de Hugo Strange pela sua quase indecifrável psique. A segunda traz um Batman velho, carrancudo e aposentado, incapaz de permanecer inerte enquanto sua cidade é destruída pelo caos e pela violência promovidos pela Gangue Mutante. Parecem totalmente diferentes, não é mesmo? O momento, sim. A qualidade, com certeza! Mas existe algo em comum nessas duas narrativas: a maneira como trabalham o símbolo do morcego e o que ele significa para Bruce Wayne. No início, um abrigo para um homem incapaz de ver a luz. No final, uma obsessão que o impede de enxergar qualquer outro fim para si mesmo que não morrer pela mesma espada que anos antes decidiu empunhar. Hoje, vamos entender um pouco melhor o subtexto que conecta ambos os clássicos, além de, como sempre, analisar a qualidade de ambas. Vale ressaltar que as duas obras NÃO se passam no mesmo universo. Trata-se de uma leitura livre de como o Batman é escrito, para além da linha cronológica das HQs em questão. Então, sem mais delongas, vamos lá!
MARVEL E DC
Rafael Silva
10/7/20268 min read
A mente despida


(Créditos: DC Comics/Paul Gulacy)
No início de Batman: Acossado, a sociedade gothamita ainda não sabe como lidar com o recém-chegado vigilante. Uns o enxergam como a única esperança de uma cidade consumida pela corrupção; para outros, ele não passa de um efeito colateral dessa mesma corrupção.
O recém-eleito prefeito, Wilson Klass, influenciado pelo estranho psicólogo Hugo Strange, decide montar uma força-tarefa para capturar o Batman, mostrando que, em Gotham, a lei é para todos. Gordon, ainda grato ao herói por ter salvo seu filho em Ano Um, insiste em mantê-lo como aliado, mesmo que, para isso, precisasse quebrar as próprias leis que jurou defender.
Strange, o epicentro dessa crise na vida do herói, nutre uma obsessão perturbadora por ele, tendo desenvolvido sua própria teoria sobre como funciona a mente do Batman e explicando-a em rede nacional.
“Eu diria que ele é completamente obcecado. Obcecado por tudo isso. Além de uma obsessão muito maior pela escuridão. Talvez, pela vingança. Eu não me surpreenderia se ele ou algum ente querido tivesse sido vítima de um crime… cometido nas trevas. Sem dúvida, a própria gênese dessa alma atormentada pode ser rastreada até os eventos mais traumáticos de uma única noite. Uma noite que assombra… talvez até hoje”.
Do outro lado da TV, Bruce o assistia. Mesmo sem ver seu rosto, Strange podia enxergar através de sua máscara. O holofote aceso sobre seu trauma era luminoso demais, expositivo demais, doloroso demais. Ao ser confrontado pela luz, a única coisa que o Batman é capaz de fazer é fugir para as trevas, para sua Batcaverna.
Mas, para Strange, apenas entender o homem por trás da máscara não bastava: ele precisava saber exatamente quem ele era. Usando sua influência cada vez maior na prefeitura e no DPGC, Hugo obtém dados sobre crimes violentos nos últimos cinco anos, buscando indícios de um trauma que pudesse levar um homem a se transformar em uma criatura da noite. Mesmo sendo brilhante, ele ainda falhava em entender que o Batman não era fruto apenas de um trauma, mas sim, uma resposta a ele e uma condenação para toda a vida.
O vilão desejava, de alguma forma, emular a persona do herói; queria sentir o mesmo poder que ele. Ele próprio tinha um traje semelhante ao do Batman.
Mas ainda lhe faltavam os músculos. Para isso, recorreu ao psicopata Maxwell Cort, sargento do DPGC completamente fissurado em matar o Batman. Ele não queria cumprir a lei; queria provar que a polícia, ou melhor dizendo, ele mesmo, era melhor que o Batman. Hipnotizando-o, Hugo terminou de quebrar sua mente, transformando-o no sanguinário justiceiro conhecido como Flagelo da Noite, que cometeria crimes em nome do Batman, voltando ainda mais a opinião pública contra o Cavaleiro das Trevas.
Em uma forçação de roteiro sem precedentes, esse policial comum torna-se um guerreiro hábil com espadas, lâminas e armas de fogo, conseguindo medir forças com o Batman em mais de uma ocasião.
O abrigo nas trevas
Em meio a ótimas cenas de ação e várias (várias mesmo) mulheres seminuas, Batman se sente cada vez mais acuado, enquanto Strange finalmente chega ao nome de Bruce Wayne, cruzando traumas psicológicos, recursos financeiros e forma física. Ao sequestrar a filha do prefeito, Catherine Klass, Strange atrai o herói até o seu apartamento, onde o infecta com um alucinógeno que o faz revisitar a noite que mudou sua vida, a noite em que seus pais morreram.
Batman se arrasta até a Mansão Wayne, onde Strange havia deixado gravações e bonecos que representavam seus pais, culpando-os por suas mortes e amaldiçoando-o com a mácula do Morcego. A casa de Bruce Wayne não era mais segura; só havia uma saída…
“A caverna! É o único lugar onde não vão me pegar!”, gritava Bruce enquanto descia as escadas em direção às trevas.
Diferentemente do que Strange imaginava, a escuridão não significava o poder pelo poder para Batman, e sim, a força para suportar a si mesmo. Nem mesmo ele era capaz de entender inteiramente a mente do Cavaleiro das Trevas.
Fortalecido pela escuridão, Batman é capaz de enganar Strange, fazendo-o admitir seus crimes diante da polícia e, posteriormente, derrotando o Flagelo em um duelo fantástico, superando a mente de Hugo e os músculos de Cort em uma única noite. Não importava o quão fraco estivesse, o quanto fosse ferido, as sombras sempre iriam revigorá-lo, dar-lhe sentido para além da lógica. Com elas ao seu lado, nada poderia pará-lo. Era um impacto indissolúvel entre homem e animal.
Porém, por mais que essa aliança obscura pudesse libertá-lo, ela também o mantinha preso ao Batman. Não importava quanto tempo passasse, o quanto os anos pesassem sobre sua mente e seu corpo: sem o morcego, o homem nunca estaria completo.
A aliança eterna


(Créditos: DC Comics/Klaus Janson
Em O Cavaleiro das Trevas, o Batman pendurou a capa há mais de dez anos. A lei antivigilantes e a morte de Jason Todd tornaram sua cruzada pesada demais.
Por uma década, Bruce Wayne tentou viver sozinho, mas o monstro não parava de bater nas paredes de sua mente. Ele havia salvado Bruce, dado-lhe um propósito, e agora ele não poderia simplesmente esquecê-lo, fingir ser capaz de viver sem ele.
Ele tentou dissipar esse desejo pela ação de todas as maneiras possíveis: bebendo (coisa que não fazia antes), buscando adrenalina em corridas de Fórmula 1 e mantendo-se próximo de seus antigos aliados, como Jim Gordon. Mas Gotham simplesmente não o deixava em paz.
Após ser abordado por criminosos ao passar pelo Beco do Crime, Bruce não consegue nem sequer dormir sem que sua mente seja tomada pela memória da morte de seus pais, pela certeza de que o mesmo mal que os levou ainda corria solto e de que ele, mesmo que ainda respirasse, não estava fazendo nada. O medo o consome novamente, e a única forma de encontrar coragem é descer até sua antiga caverna, completamente nua, permitindo que o bater das asas dos morcegos seja sentido por todo o seu corpo. Ele buscava se conectar com aquela relíquia do passado mais uma vez e, ao vê-lo lá, Alfred sabia bem o que estava por vir.
Em sua ausência, Gotham vinha sendo consumida pela violentíssima Gangue Mutante, formada por criminosos que não buscavam dinheiro ou fama, mas sim, saciar sua inexplicável sede por sangue. A loucura não foi embora quando o Batman saiu de cena; ela perdeu o seu catalisador e agora corria solta pelas ruas, completamente incontrolável.
Ele então decide agir, não apenas para salvar a cidade, mas também a si mesmo. Naquela noite, o Homem-Morcego distribuiu justiça pelas ruas, surrando e capturando dezenas de assaltantes, abusadores e assassinos, fazendo-os sentir o mesmo sentimento que usavam para pôr Gotham de joelhos: o medo. Sentimento esse que deixou de servir para tornar-se o mestre assim que pôs o capuz.
Três décadas depois, o morcego quebrou sua janela novamente.
“Onde está a dor? Eu deveria ser uma massa de músculos exaustos e doloridos… fracos, desgastados, incapazes de se mover. Se eu fosse, com certeza estaria assim. Mas hoje, eu sou um homem de trinta… não, vinte. A chuva é o meu batismo. Eu nasci outra vez.” Naquela noite, ele mostrou para si e para o mundo: os anos que destruíram Bruce Wayne não significavam nada para o Batman.
A verdadeira natureza
O retorno do Cavaleiro das Trevas trouxe consigo inúmeras consequências: Duas-Caras e Coringa foram libertos de Arkham, trazendo consigo a antiga insanidade com a qual Batman teve que se reacostumar a lidar; Superman, seu antigo amigo e hoje cão de guarda dos EUA, voltou das sombras do passado para detê-lo; e a Gangue Mutante, antes formada por jovens leais somente à causa da violência gratuita, agora via no Batman uma liderança forte o bastante para dar-lhe motivo para lutar.
Por mais que o sentimento pudesse negar, seu corpo envelhecido não era capaz das maravilhas que sua juventude lhe possibilitou, mas seu intelecto e, acima de tudo, sua vontade faziam seu corpo ir além do que qualquer homem poderia sonhar em fazer. Isso porque seu espírito não era movido por um homem, mas sim, por uma ideia: uma ideia nascida nas trevas, uma que o fazia lutar mesmo quando seu corpo já não poderia mais aguentar, uma que nunca o deixaria desistir. A ideia que fazia dele um herói.
As trevas eram sua cura e sua doença, sua bênção e sua maldição. Elas o fortaleceram para que pudesse andar à luz, mas jamais o deixariam abandoná-las por completo.
O retorno do Cruzado Encapuzado fez com que a opinião pública se dividisse novamente, quase da mesma forma que em seu surgimento décadas antes. Uns o viam como um louco e um criminoso; outros, como um grito de esperança de uma cidade que simplesmente se recusava a viver de joelhos.
Os dois protagonistas desse debate foram o psicólogo Bartholomew Wolper e a editora-chefe do Planeta Diário, Lana Lang. Wolper vê o Batman como uma espécie de egomaníaco fascista, que promove a loucura por meio de seus atos, fazendo com que cidadãos de mente fraca, como o Coringa, sucumbam à loucura. Ele soca a membrana do crime, fazendo-a afundar temporariamente, apenas para ricochetear, voltando ainda mais forte. Em suma: ele é o culpado pelo terror que Gotham vive, e não os assassinos que dedicou a vida a combater. Bom, digamos que, quando o Coringa o matou ao vivo na TV, sua teoria mostrou-se um tanto falha…
Já para Lana, Batman é simplesmente alguém cansado da injustiça que consumiu a cidade. Autoridades impotentes, um governo frágil e incompetente e uma população aterrorizada. O Batman era a prova de que as pessoas poderiam bater de volta.
Quem está certo? De certa forma, ambos. O Batman inegavelmente tem sérios problemas psicológicos (como já ficou bem claro até aqui…), e sua cruzada contra o crime claramente o fez mudar sua natureza. No início, o Cavaleiro das Trevas enfrentava mafiosos e policiais corruptos, e, poucos anos depois, Gotham estava infestada de maníacos fantasiados que, assim como Batman, foram consumidos por seus traumas. Mas sua aposentadoria, somada ao hiato de seus maiores vilões, deixou claro que Gotham é quase um organismo vivo que, com ou sem ele, segue evoluindo, tornando-se cada vez pior. A desordem e a loucura persistiram e, novamente, só havia um homem capaz de enfrentá-las… O Batman era uma consequência de Gotham, ao mesmo tempo que Gotham era uma consequência dele. Ambos simplesmente precisam um do outro.
A obra de Miller traz muito mais que uma arte sublime e confrontos épicos: é a prova viva de quem o Batman realmente é, de como defender Gotham não é simplesmente um dever, talvez nem mesmo uma obsessão, mas sua razão de viver, uma razão que manteve íntegra desde que seus pais foram mortos diante de seus olhos, aos oito anos de idade.
E você, já leu algum desses clássicos? O que achou? Não deixe de comentar!
