AS TIRINHAS: O BERÇO DOS QUADRINHOS
Em 1900, estima-se que cerca de 65 dos 76 milhões de cidadãos dos Estados Unidos da América eram leitores assíduos de jornal. A introdução da prensa rotativa a vapor e da máquina de linotipo permitiu a impressão de dezenas de milhares de jornais por hora, fazendo do jornalismo não mais uma atividade puramente informativa e artesanal, mas sim uma verdadeira indústria. E, como qualquer produto que se preze, ele precisava ser vendido ao máximo, para todos os públicos que pudesse alcançar. E esse público inclui, é claro, as crianças. Desde 1799, quando o Journal des Débats, da França, inaugurou as crônicas cotidianas, com romances e dramas nas páginas dos jornais, não era incomum que ficção e entretenimento se fundissem com conteúdo informativo, buscando não apenas informar o público, como também entretê-lo. Em 1835, o suíço Rodolphe Töpffer criou as primeiras histórias misturando ilustrações em quadrinhos ao texto em prosa fora deles. Ali surgia o embrião do que futuramente se tornaria uma das indústrias mais poderosas da cultura pop: a dos quadrinhos. Vale lembrar que o próprio Superman, que viria a ser o maior ícone dos super-heróis, foi criado como um herói para as tirinhas de jornal, que sistematicamente recusaram a ideia, acreditando que as aventuras do Homem de Aço eram “absurdas demais”. Contudo, logo após o sucesso estrondoso de Action Comics #1 (1938), a coisa mudou, e o Escoteiro Azul foi recebido de braços abertos pelas páginas do jornal, que alavancaram ainda mais sua popularidade. Naquele tempo, algumas páginas na seção dominical de um grande jornal eram uma verdadeira estrada para o sucesso. Mas como isso se consolidou? Quais foram os personagens, autores e histórias que fizeram do público infantojuvenil seus mais fiéis leitores? Como as tirinhas de jornal foram o berço dos quadrinhos? É isso que vamos discutir hoje!
HISTÓRIA DA CULTURA POPMARVEL E DC
Rafael Silva
10/31/20268 min read
The Yellow Kid (1895)
O marco zero das tirinhas de jornal. Richard Felton Outcault, antes ilustrador técnico nos laboratórios de Thomas Edison, tornou-se ilustrador e desenhista profissional, vendendo suas artes para diversos jornais, entre eles o New York World, de Joseph Pulitzer (sim, o mesmo do prêmio).
Em 1895, ele deu início à série Hogan's Alley, que tinha como protagonista o jovem Mickey Dugan, mais conhecido como Yellow Kid (garoto de amarelo). As histórias se passavam em uma vizinhança superlotada de Nova York, de forma a demonstrar o crescimento vertiginoso da Grande Maçã e a diversidade que trazia consigo, que ia desde imigrantes irlandeses e bodes aleatórios até palhaços bizarros e trapezistas. Desde aquele tempo, valia tudo para chamar atenção.
O garoto dividia as tiras com sua namorada, Liz, o cachorro Plato, a vizinha Moiphy e outros garotos da região.
Careca e com enormes orelhas de abano, o pequeno Dugan destacava-se, é claro, pela sua enorme camisola amarela, que ficou dessa cor justamente para destacá-lo entre os demais e para utilizá-la como balão de diálogo, onde Mickey comunicava seus comentários, pensamentos e piadas, tendo em vista que tal recurso ainda não era totalmente comum na época.
As tirinhas traziam aventuras divertidas entre as crianças, ao mesmo tempo que exploravam a violência, a pobreza e a desigualdade social, expondo as contradições da sociedade americana.
As publicações geralmente ocupavam uma única página, com uma grande ilustração por onde os diálogos eram distribuídos. Em Merry Xmas Morning in Hogan's Alley (1895), vislumbramos a celebração do Natal no Hogan's Alley, quando os moradores se reúnem nas ruas para realizar os preparativos, enquanto as crianças se divertem com a neve, um retrato caloroso e simples da festividade pela ótica das classes populares.
Entre 1895 e 1898, aproximadamente 88 páginas de The Yellow Kid foram publicadas. Seu fim precoce se deu, adivinhem? Por uma guerra judicial. Todo mundo queria tirar uns trocados com Mickey.
Em 1896, William Randolph Hearst, dono do New York Journal, ofereceu a Richard Felton melhores condições de trabalho para que deixasse Pulitzer. Ele aceitou. No entanto, seu ex-chefe poderia até deixar o criador ir, mas não junto de sua criação. Ele sabia que The Yellow Kid era valioso demais para cedê-lo à concorrência.
Em 1895, o World vendia cerca de 450 mil exemplares mensais, enquanto o Journal apenas 77 mil. As tirinhas dominicais realmente faziam a diferença. Felton até tentou proteger legalmente sua criação. Em 1896, ele registrou no Escritório de Direitos Autorais dos Estados Unidos um desenho identificado como The Yellow Dugan Kid. Todavia, isso não impediu que o recém-contratado de Pulitzer, George Luks, continuasse desenhando seu personagem sob a alcunha de Hogan's Alley.
Luks manteve o formato de uma única e grande página, focou suas narrativas quase que exclusivamente em Hogan's Alley, além de introduzir dois novos personagens: os irmãos George e Alex.
Por sua vez, Outcault aproveitou-se da maior liberdade criativa para trabalhar mais com a divisão de quadros, misturando letreiros com sequências de desenhos, algo mais próximo do que hoje se tem como quadrinhos.
Basicamente, o personagem agora era publicado por dois veículos simultaneamente, e os impactos disso para ambos foram estratosféricos. Em 1898, no auge de suas vendas, ambos os jornais vendiam aproximadamente 1,5 milhão de cópias mensais. Era um cabo de guerra perfeitamente equilibrado, onde Mickey puxava ambos os lados da corda. Claro, esse crescimento expressivo não se deve unicamente às tirinhas, mas seu impacto é inegável.
Ele passou a ser a face de uma nova fase do jornalismo impresso, mais plural, capaz de equilibrar informação e diversão.
Em 1898, Richard Outcault fez sua última publicação na série. O motivo de sua desistência até hoje é incerto. Especula-se que tenha sido a comunhão entre o estresse causado pela intensa disputa judicial e o crescente desinteresse pelo personagem em si.
Obviamente, esse não foi o fim de Mickey Dugan, com o mesmo voltando a aparecer nas obras posteriores de Richard, como Buster Brown, em 1907.
The Yellow Kid mostrou ao mundo o potencial das tirinhas, não apenas para fazer dinheiro, mas para construir ícones populares cujas histórias iam para além das páginas. É claro que, após esse sucesso estrondoso, muitas outras lendas surgiriam.
Buster Brown (1902)
O momento em que Richard F. Outcault deixou a periferia de Nova York em direção às mais luxuosas mansões dos EUA. Buster Brown (conhecido no Brasil como Chiquinho) era um garoto rico e mimado, mas que, assim como Mickey, era extremamente arteiro, tramando uma nova travessura, que sempre dava errado, terminando com o garoto sendo surrado pelos pais.
O humor era muito mais físico do que satírico, e, no fim, sempre havia uma lição de moral para os jovens leitores. No entanto, ela não necessariamente era entendida da forma correta…
Em certa história, ele se distrai e deixa que uma matilha de cães devore completamente um punhado de carne que sua mãe o havia pedido para comprar. Será que ele chegou à conclusão de que deveria proteger melhor as compras? Não… Ele decidiu virar vegetariano!
A ideia era de que, por mais que ele compreendesse seus erros e irresponsabilidades, nunca os corrigia de fato, preferindo desviar deles.
O diferencial era que o garoto não era necessariamente um “vilão”, mas sim alguém extremamente desastrado, que, ao tentar fazer uma brincadeira inocente, causava uma grande catástrofe.
Em uma tirinha de agosto de 1903, Buster e Tige reuniram todos os cães de sua região para recepcionar um homem responsável por capturar animais sem licença. Podemos dizer que ele não foi muito bem recebido pelos animais… Burrice ou justiça poética, fica ao seu critério.
Nessas aventuras, Buster sempre estava acompanhado de seu leal cão falante, Tige, e sua amiga, Mary Jane.
Agora trabalhando para o New York Herald (pensa em um vira-casaca), Outcault repetiu o erro que cometeu com Yellow Kid em relação aos direitos autorais, licenciando Buster em uma variedade incrível de mercadorias: sapatos, roupas, meias, relógios, câmeras e doces.
Como era de costume em sua vida, Richard enfrentou uma nova guerra judicial quando decidiu deixar o Herald rumo ao New York American. Dessa vez, ele perdeu o direito de usar o nome Buster Brown nos títulos e nos cabeçalhos de suas tirinhas, por mais que pudesse continuar desenhando-o.
Isso nos levou a um episódio interessante: o encontro entre Yellow Kid e Buster, onde o autor fez questão de relembrar que ambos os seus maiores trabalhos foram vítimas da ganância da concorrência.
Todavia, não somente de Richard F. Outcault se fez a gênese das tirinhas de jornal. Para além de sua mente brilhante, havia outros gênios dando vida às suas obras, algumas destinadas a se tornar tão grandiosas quanto as dele.
Little Nemo in Slumberland (1905)
Se Richard Outcault ajudou a estabelecer as bases comerciais e narrativas das tirinhas, Winsor McCay foi um dos responsáveis por demonstrar até onde aquela linguagem poderia chegar artisticamente.
Em 15 de outubro de 1905, McCay publicou no New York Herald a primeira aventura de Little Nemo in Slumberland. O protagonista era um garoto que, todas as noites, embarcava em viagens fantásticas pelo mundo dos sonhos, tentando alcançar o reino de Slumberland, onde vivia a princesa.
E que viagens! Nemo visitava cidades impossíveis, enfrentava criaturas gigantescas, voava em aeronaves, atravessava paisagens surreais e vivia situações que desafiavam completamente as leis da física. Seu companheiro Flip, um sujeito de aparência bastante peculiar, também participava de boa parte dessas aventuras.
O grande diferencial, entretanto, não estava apenas nas histórias, mas na maneira como eram contadas.
McCay transformava a própria página em parte da narrativa. Os quadros mudavam de tamanho e formato conforme as situações, personagens cresciam ou diminuíam, edifícios se esticavam até o céu e cenários inteiros se transformavam diante dos olhos do leitor. Tudo isso acompanhado de ilustrações extremamente detalhadas e cores vibrantes.
Em uma das aventuras, publicada em setembro de 1909, Nemo e seus companheiros são capturados por um macaco que tenta transformá-los em animais de circo, obrigando-os a saltar por arcos. Em outra, por volta de 1910, o grupo retorna de Marte em uma aeronave, mas acaba aterrissando acidentalmente na prisão de Sing Sing, em Nova York.
E havia uma característica recorrente: por mais extraordinária que fosse a aventura, Nemo sempre acabava acordando em sua cama, frequentemente depois de cair dela.
A série passou por diferentes fases editoriais, acompanhando McCay em suas mudanças de jornal. Sua primeira publicação durou até 1911, sendo retomada posteriormente, com diferentes títulos e uma nova fase entre 1924 e 1927.
Little Nemo demonstrou que os quadrinhos podiam ir muito além das piadas cotidianas e das pequenas histórias de travessuras. A página dominical podia ser uma verdadeira obra de arte, com experimentação visual, narrativa sofisticada e liberdade criativa praticamente ilimitada.
Se o Yellow Kid ajudou a mostrar que quadrinhos vendiam jornais, McCay demonstrou que também poderiam ser uma das formas mais inventivas de expressão gráfica de seu tempo.
Popeye (1929)
Avançando um pouco mais no tempo, chegamos a um dos personagens mais conhecidos da história dos quadrinhos. Criado por Elzie Crisler Segar, Popeye, o marinheiro, fez sua primeira aparição em 17 de janeiro de 1929, na série Thimble Theatre, publicada nos jornais do King Features Syndicate.
Mas existe um detalhe curioso: Popeye não era o protagonista da série!
Thimble Theatre já era publicada desde 1919 e acompanhava principalmente as aventuras de Olive Oyl, seu irmão Castor Oyl e seu namorado, Harold Ham Gravy. Popeye apareceu inicialmente como um personagem secundário, contratado para acompanhar Castor em uma viagem marítima.
Quando perguntaram se ele era marinheiro, respondeu com sua famosa frase:
"Ja think I'm a cowboy?" (Tá achando que sou um caubói?)
O sujeito de um olho só, braços musculosos e linguagem peculiar conquistou os leitores tão rapidamente que acabou roubando a cena dos protagonistas originais. Em poucos anos, tornou-se o grande astro da publicação, que passou a ser chamada Thimble Theatre Starring Popeye.
E não demorou para que seu universo crescesse. Além de Olive Oyl, passaram a integrar suas aventuras personagens como J. Wellington Wimpy, o sujeito que estava sempre atrás de um hambúrguer, e Bluto, seu grande adversário. Em 1933, surgiu também o pequeno Swee'Pea, que Popeye adotaria.
As histórias de Segar tinham uma dinâmica bastante diferente das aventuras de Buster Brown. Eram narrativas mais longas, com sequências de ação, humor absurdo, personagens excêntricos e situações que frequentemente misturavam aventura e sátira social.
Outro elemento fundamental era a caracterização de Popeye como uma espécie de herói dos mais fracos. Apesar de sua aparência ameaçadora e de sua força extraordinária, ele frequentemente enfrentava sujeitos maiores, valentões e injustiças, defendendo aqueles que não conseguiam se defender sozinhos.
E, claro, não podemos esquecer do espinafre! O alimento tornou-se sua marca registrada, funcionando como uma fonte quase instantânea de força. A associação foi tão poderosa que a indústria americana de espinafre atribuiu ao personagem um aumento de 33% no consumo do vegetal entre 1931 e 1936. Embora seja difícil comprovar quanto desse crescimento se deveu exclusivamente aos quadrinhos, a relação entre Popeye e o espinafre se tornou um dos exemplos mais famosos de influência de personagens fictícios sobre hábitos de consumo.
Mas o marinheiro não ficou restrito às páginas dos jornais. Em 1933, estreou nos desenhos animados dos estúdios Fleischer, iniciando uma trajetória que o levaria ao cinema, ao rádio, à televisão e a uma infinidade de produtos licenciados.
Curiosamente, existe até uma ligação entre Popeye e o nosso primeiro personagem: antes de se tornar um cartunista conhecido, Segar recebeu incentivo profissional de Richard Felton Outcault, criador do Yellow Kid, que o ajudou a conseguir uma oportunidade no Chicago Herald.
Popeye representa, portanto, uma etapa importante dessa trajetória: o personagem de jornal já não era apenas um atrativo para vender exemplares aos domingos. Ele havia se transformado em uma propriedade cultural capaz de conquistar diferentes gerações, atravessar meios de comunicação e alcançar reconhecimento internacional.
Já conhecia essas histórias? Chegou a ler qualquer uma dessas tirinhas? Não deixe de comentar!
