As Faces do Mal em Senhor dos Anéis

A obra de J.R.R. Tolkien é sem dúvida uma das mais icônicas da ficção e uma das mais ricas em simbolismos e referências religiosas: o anel como a face do pecado e a luta de Frodo contra seu poder sintetizando a luta do homem contra o pecado, a ganância de Gollum simbolizando a perversão humana diante desse mesmo pecado e Sauron, como a encarnação do próprio Inimigo, como um mal que age por meio de nossas fraquezas, sempre atento (como um grande olho) a qualquer sinal de fraqueza. A saga Hobbit/Senhor dos Anéis sempre soube explorar o imenso poder benigno e maligno que reside na vontade de cada um. Hoje, vamos dissertar sobre como alguns vilões da Terra Média simbolizam facetas da maldade humana, com paralelos bíblicos que nos lembram, inclusive, os famosos Sete Pecados Capitais. Sem mais delongas, vamos lá!

Rafael Silva

2/7/20269 min read

Sauron

Como você caiu dos céus,

ó estrela da manhã, filho da alvorada!

Como foi atirado à terra,

você, que derrubava as nações! Isaías 14:12-15

Essa passagem bíblica, retrata a queda de Lúcifer dos céus, quando ele e outros anjos revoltosos, decidiram desafiar a autoridade de Deus, e assim, deflagraram uma guerra no paraíso. Após sua iminente derrota, estes seres, antes criados a imagem e semelhança do Senhor, e concebidos para a perfeição, assim como ele, foram destituídos de toda sua glória, e lançados na Terra, onde seduzem os homens com suas mentiras, enquanto aguardam o julgamento final. Mas, o que isso tem a ver com Sauron? Muita coisa!

Tolkien baseou-se diretamente na história do Anjo Caído, para desenvolver aquele que se tornaria o Senhor dos Anéis. Originalmente chamado Mairon, Sauron foi um dos seguidores de Melkor em sua rebelião contra Eru Ilúvatar, o deus criador de toda a vida na Terra Média. Mairon sempre foi fascinado pelo controle e pela ordem absoluta, e Melkor soube explorar esses sentimentos para corrompê-lo, levando-o a crer que somente por meio da tirania, o equilíbrio final seria alcançado.

Assim, Melkor e Sauron invadiram a Terra Média, e iniciaram a guerra que daria início à Primeira Era. Seu objetivo: instaurar o caos, e por meio dele, o controle total.

Melkor foi derrotado, deixando Sauron no comando de suas tropas, o que deu início a Segunda Era da Terra Média, onde o Senhor do Escuro, se tornaria o sinônimo de maldade. Munido pelo poder do Um Anel, o Senhor do Escuro massacrou os povos da Terra Média, fazendo-a arder em chamas. Povos antes rivais, como elfos, humanos e anões, viram-se forçados unir-se para deter essa ameaça contra toda a vida. A sede de Sauron pelo controle absoluto, misturou-se com seu ódio contra todos os seres viventes, como uma vingança pessoal contra seu antigo mestre, punindo-o por meio do sangue derramado de seus milhões de filhos.

Porém, na Batalha de Mordor, o Lorde das Trevas teve seu dedo decepado, junto ao anel, pela lâmina abençoada de Isildur, que pôs fim a séculos de um conflito sanguinário. Porém, Sauron, mesmo sem forma física, mostrou-se um inimigo ainda mais perigoso, pois agora, assim como o mal bíblico, ele não agiria por suas próprias mãos, e sim, pelas daqueles que falhassem em resistir às suas tentações. O próprio Isildur, não foi capaz de pôr um fim ao Anel, fascinado por seu poder. Após sua morte, aquele receptáculo do mal manteve-se oculto nas profundezas de um lago, até ser encontrado pelo jovem Smeagol, que foi completamente dominado por seus poderes. Por meio do Anel, Sauron corrompeu o corpo e a mente de Smeagol, transformando-se no monstruoso Gollum, em um brilhante metáfora para o que o pecado faz aqueles que sucumbem a ele.

Enquanto isso, ele fortalecia seus exércitos em Mordor, observando seus inimigos por meio de seu Grande Olho, uma representação clara da metáfora: o mal nunca dorme. Sauron era capaz de prever cada movimento de seus inimigos, contra seu olhar, ninguém estava a salvo.

Posteriormente, o Anel acabou nas mãos de Bilbo, o Bolseiro, que lhe entregou a Sociedade do Anel, que tinha como único objetivo, destruí-lo, para enfim, dar um ponto final ao reino de terror de Sauron. A trilogia dos Senhor dos Anéis, mostra a extensão do poder maligno do Senhor do Escuro. Se por um lado, seus exércitos espalhavam morte e destruição, por outro, seu poder sutil corrompia lentamente a mente de Frodo e Sam, mostrando duas faces dois distintas de um mesmo vilão: um mal capaz de destruir um reino inteiro com suas mãos, mas também, cruel para quebrar até o mais resistente dos corações.

Por essas e outras, Sauron é considerada a face mais conhecida do mal em Senhor dos Anéis, mas, sem dúvida, não é a única. De um mal primordial, várias ramificações surgem.



Saruman

“Mas, se tendes amarga inveja e preocupações egoístas no vosso coração, não vos orgulheis, nem mintais contra a verdade, porque esta sabedoria não vem do alto; antes, é terrena, animal e demoníaca. Tiago 3, 14-16

Essa passagem de Tiago nos ensina sobre os perigos da inveja, esse sentimento ganancioso, que nos leva a tramar para obter algo ou alguém que não nos pertence, independentemente do preço. Tal fraqueza, como veremos adiante, não afeta apenas os ignorantes, como também aqueles mais sábios, mostrando como o mal pode dominar qualquer um que lhe der espaço em seu coração, mesmo que esse alguém seja o Líder dos Magos da Terra Média.

Saruman, cujo nome original era Curumo, é um Maia, um espírito imortal criado por Eru Ilúvatar, assim como os Valar e Sauron, servindo originalmente a Aulë, o Ferreiro. Ele foi enviado à Terra-média como um dos cinco Istari (Magos) pelos Valar, para ajudar os Povos Livres contra Sauron.

Devido à sua imensa sabedoria, foi eleito líder dos magos, sendo muitíssimo respeitado por Gandalf e Galadriel. Porém, todo esse poder e prestígio o tornaram arrogante e incapaz de aceitar estar abaixo de qualquer um. Quando Galadriel disse que Gandalf, o Cinzento, era o mais sábio entre os Istari e, por isso, o mais digno de liderá-los, Saruman se enfureceu. Assim, quando a ameaça de Sauron passou a pairar novamente sobre a Terra Média, o Mago Branco novamente demonstrou sua prepotência, recusando a ajuda de Elrond e Galadriel para caçar o Senhor do Escuro, julgando-se perfeitamente capaz de dominá-lo por conta própria. Em sua torre, o Mago Branco aprofundou-se nos estudos do Um Anel e ficou hipnotizado pelo seu poder, desejando tê-lo para si. Ao brincar com o fogo, Saruman acabou sendo consumido pelas chamas.

Ele passou a crer ser capaz de enganar Sauron e tomar o Anel dele, algo obviamente impossível. Saruman fez um pacto com o diabo, achando que poderia enganá-lo, mas, no final, acabou perdendo sua alma, assim como qualquer um a tentar se aproveitar das trevas para benefício próprio. Ele não compreendeu que nenhum ser é capaz de usar o mal, o mal é quem o usa.

"Estejam alertas e vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda em derredor, rugindo como leão, buscando a quem possa devorar." 1 Pedro 5:8

Sem perceber, ele se tornou nada mais que um peão nas mãos do Rei de Mordor, mostrando claramente como até mesmo o mais sábio entre nós pode ser tomado pela ignorância, quando movido por um desejo egoísta e irracional. Assim como o diabo em Pedro, Sauron é o adversário sempre à espreita, esperando por qualquer oportunidade, e Saruman agiu como um verdadeiro kamikaze, se entregando de bom grado ao mal.

Porém, como veremos em seguida, a inveja e a ganância podem assumir muitas formas e propósitos.


Smaug

Quem ama o dinheiro

jamais terá o suficiente;

Quem ama as riquezas jamais ficará

satisfeito com os seus rendimentos.

Isso também não faz sentido.

Eclesiastes 5:10

Nesse trecho de Eclesiastes, compreendemos a finitude do dinheiro, como um mero bem material, sem nenhum tipo de valor espiritual e, assim como tudo que tem origem no mundo, está fadado ao pó. Mas, na realidade e na ficção, existem aqueles que vivem em função de suas riquezas, mas, o caso de Smaug, o Dragão de Fogo, talvez seja o mais inusitado.

Smaug, o terrível dragão da Montanha Solitária próxima ao vilarejo de Erebor, tornou-se dono de uma das maiores fortunas da Terra Média, atraindo a atenção de muitos, que arriscaram suas vidas enfrentando o poderoso dragão, em busca de dinheiro.

Sua origem é misteriosa, mas suspeita-se de que ele tenha sido um dos dragões de fogo corrompidos por Melkor na Primeira Era e tenha se instalado na montanha durante sua invasão à Terra Média. Posteriormente, ele incinerou Erebor na Terceira Era. Lá, Smaug apropriou-se do tesouro deixado pelos anões liderados pelo Rei Thráin I, um verdadeiro oceano dourado, com valor estimado em mais de 50 bilhões de dólares. Porém, ressalta-se o óbvio: o que um dragão iria fazer com aquele dinheiro? Não é como se ele fosse comprar alguma coisa…

Aqui, observa-se a máxima da ganância: o ter, pelo prazer de ter. Smaug jamais compraria belos castelos, carruagens ou bebidas caras; ele apenas queria ter a certeza de que todo aquele dinheiro lhe pertencia. Ele se deliciava em ver a miséria de Erebor, em contraste com a sua vastidão de riqueza, mesmo que, na prática, ela não tivesse valor algum.

Mesmo após a morte de Smaug, pelas mãos de Bard, o Arqueiro, o tesouro continuou a ser motivo de derramamento de sangue. Homens, elfos, anões e orcs lutaram pelo direito àquela herança, mostrando, mais uma vez, como a vida de tantos seres parece ser precificada, tanto na arte quanto na vida.

Mas ainda nos resta mais um exemplo, talvez o mais depravado entre todos eles, de alguém que se destruiu por completo ao se entregar aos seus desejos mais sombrios.


Gollum

"Quem vive pecando é escravo do pecado". João 8:34

Essa passagem de João, retrata a natureza daqueles que se rendem ao mal que habita dentro de si, aceitando o pecado, como seu estado natural. Como seres nascidos dele, é impossível vivermos livres do pecado, do erro, e da maldade inerente a cada um de nós, mas, abrir mão de lutar contra essa corrupção interna, é o que realmente nos lança no vale da morte. E talvez, não existe exemplo melhor para isso na cultura pop, do que Gollum.

Smeagol era um Stoor comum, semelhante em muito aos hobbits Frodo ou Sam, e assim como eles, foi seduzido pelo poder sombrio do anel.

Desde que encontrou seu "precioso" nas águas de um rio enquanto pescava, sua mente começou a ruir perante seu poder, sua vontade passou a ser dobrada pela do anel e, a cada instante, ele ansiava mais por seus prazeres, independentemente do que precisasse fazer para senti-los.

Tomado pelo egoísmo, ele assassinou seu próprio amigo, Déagol (primeiro crime), para ter o precioso somente para si. Tal crime serviu como a quebra de uma barreira em sua vida, quando decidiu abrir mão de qualquer valor moral para tornar-se uma versão bestial de si mesmo, refém de sua própria obsessão.

No entanto, sua mente ainda possuía um lado racional, mas quase totalmente sobrepujado por seu lado selvagem. Desde aquele momento, sua vontade nunca mais seria soberana sob suas ações.

Como um drogado, Smeagol reconhecia seus erros, mas era incapaz de deixá-los, pois sua dependência falava mais alto. As consequências foram além da mente e logo passaram a surgir em seu corpo e, em pouco tempo, o jovem Smeagol transformou-se no horrendo Gollum, um escárnio daquilo que havia sido um dia, um ser fadado a viver com o ódio e desprezo de toda a Terra Média.

Pelos anos seguintes, ele foi caçado, considerado uma aberração por todos os reinos. Quando o anel voltou ao seu alcance, por meio de Frodo e Sam, incumbidos da missão de destruí-lo em nome de toda a Terra Média, o conflito voltou ao coração de Gollum.

Ele desejava ter o anel só para ele novamente, mas a compaixão e bondade de Frodo para com ele, como quando o chamou pelo seu antigo nome, acendeu a fagulha de bondade que ainda havia em seu âmago.

Prova disso são as constantes discussões entre suas duas "partes", em que seu lado dominado pelas trevas tenta convencê-lo a trair os hobbits, enquanto sua parte sã confia neles e quer realmente ajudá-los. Mesmo em meio a esse conflito interno, o deformado hobbit foi decisivo para Frodo e Sam em sua marcha até Mordor.

Porém, no momento derradeiro, em meio ao mar de fogo da Montanha da Perdição, Gollum selou seu destino: morrer como um servo das trevas de seu interior. Ele lutou com Frodo para impedi-lo de destruir o anel e, após arrancar o dedo do herói, ele caiu e, em uma morte carregada de simbolismos, ardeu no fogo eterno de Mordor, abraçado ao pecado que escolheu servir até seus últimos instantes de vida. Tolkien, cristão convicto e autor de Senhor dos Anéis e O Hobbit, desenvolveu o arco de Smeagol/Gollum sob um forte viés religioso: um homem comum, que se tornou lentamente escravo de um erro e, não sendo forte o suficiente para vencê-lo, acabou engolido por ele.


E para você, qual desses vilões representa melhor as faces do pecado em Senhor dos Anéis? Não deixe de comentar!