Arthur Morgan: A Melhor Redenção da Cultura Pop
Muito se fala das icônicas redenções de lendas como Darth Vader e Severo Snape, que, de maneira inesperada, nos apresentaram personagens até então odiáveis, como capazes de sacrificar suas próprias vidas em nome do bem comum. No momento em que deixaram as trevas, todo o seu universo fez o mesmo. Todavia, poucas delas foram construídas tão pacientemente e de forma tão sutil quanto a de Arthur Morgan, protagonista do incrível game Red Dead Redemption 2, da Rockstar. Como um homem fora de seu tempo, o velho fora da lei do Oeste Americano cometeu os mais diversos e brutais crimes e, mesmo sabendo o quão mal era, jamais foi capaz de abandonar seus sanguinários costumes. Mas, afinal, o que mudou? O que fez com que ele mudasse? E, principalmente, o quão relevante essa mudança foi para o mundo à sua volta? É isso que vamos descobrir hoje!
Rafael Silva
5/28/20267 min read
Arthur Morgan era um jovem sem futuro, filho de um pai criminoso e alcoólatra, e, tendo perdido a mãe logo na infância, precisou aprender a sobreviver desde cedo, e logo descobriu que, no Velho Oeste americano, quem não mata, morre.
Aos 16 anos, seus caminhos se cruzaram com os de Dutch Van Der Linde e Hosea Matthews, com quem formou seu primeiro e único bando. Morgan via em Dutch a figura do pai que jamais teve. Seu verdadeiro pai lhe ensinou a ser forte por meio da dor e do desprezo, mas Van Der Linde, por mais que fosse o mais frio dos criminosos, lhe ensinou sobre lealdade, respeito e devoção às pessoas que se ama. Em pouco tempo, seu bando tornou-se muito mais que uma simples gangue: era sua família, e por ela, ele seria capaz de tudo.
A Guerra Civil Americana havia transformado completamente a realidade no sul dos Estados Unidos. O velho abria espaço ao novo, e a criminalidade tradicional começava a ceder lugar aos criminosos engravatados. E Dutch, por mais que tentasse, jamais conseguiria ser como eles. Roubos de trem, bancos e vilas tornavam-se cada vez mais escassos, e a força da lei começava a fazer dele e sua gangue uma espécie em extinção.
Ele sabia que seus dias estavam contados, todavia, não iria simplesmente abandonar os costumes que o moldaram em nome de uma vida justa. Dutch apostaria tudo, da forma mais brutal e incansável, para que finalmente tivesse dinheiro o suficiente para garantir o futuro das dezenas de pessoas que dependiam dele, e Arthur, como seu mais leal parceiro, manteve-se sempre ao seu lado.
Juntos, com a ajuda de John Marston, Micah, Sean, Hosea e muitos outros criminosos, eles aterrorizaram todas as cidades pelas quais passaram. Assaltos, fugas da prisão, extorsões e muitos, muitos assassinatos marcaram esse período turbulento de transição.
Entre esses incontáveis crimes, um em particular marcaria para sempre a vida de Arthur. Ele foi enviado por Leopold Strauss para cobrar a dívida de um pobre fazendeiro chamado Thomas Downes, que claramente não tinha como pagar e estava terrivelmente doente. Ainda assim, Morgan o espancou violentamente e, como um último ato de resistência, Downes cuspiu um último jorro de sangue no rosto do bandido, que, sem saber, havia acabado de ser infectado pela tuberculose. Ele saiu da casa de Thomas com o dinheiro e, também, com seu destino selado.
Porém, a contagem de corpos não era diretamente proporcional ao dinheiro no bolso do bando, e quanto menos dinheiro tinham e mais crimes cometiam, mais atenção indesejada eles chamavam. Além dos bandidos contratados pelo magnata Leviticus Cornwall (com quem Dutch possui uma dívida), existem também outras ameaças, tanto dentro quanto fora da lei, como os Pinkertons pagos pelo Inspetor Milton e os O'Driscoll's Boys, liderados pelo igualmente criminoso Colm O'Driscoll.
Nenhum lugar era seguro, e, ataque após ataque, os nômades eram forçados a fugir em busca de um lugar que ainda não os odiasse.
Inimigos surgem de todos os lados, e Arthur vê Dutch cada vez mais tenso, ao mesmo tempo perigosamente confiante em cada decisão que toma. Todavia, a unidade e a lealdade mantinham a gangue segura.
Arthur e Dutch empreenderam inúmeras missões de resgate para membros capturados, desde o jovem Jack Marston, capturado pelo mafioso Angelo Bronte, até Tilly Jackson, no momento em que a jovem estava prestes a ser violada pela gangue dos Foreman. Uma verdade parecia reinar absoluta naquela família de foras da lei: ninguém fica para trás, pelo menos, por um tempo.
Confiante após ludibriar Angelo Bronte, Dutch lidera o ataque derradeiro ao banco de Saint Denis, em um golpe final contra os poderosos da cidade, visando enfim o dinheiro para tirá-los de lá para sempre. Porém, a arrogância de Van Der Linde precedeu sua queda, assim como abriu uma ferida que jamais cicatrizou dentro de sua gangue.
Em meio ao tiroteio, Hosea é morto por Milton diante dos olhos de todos, e em sua morte, morria também a racionalidade do bando. Eles conseguem escapar, embarcando em um navio com destino à ilha de Guarma, próxima à Cuba, onde se envolvem em conflitos dignos da Segunda Guerra Mundial contra soldados do ditador Alberto Fussar.
Ao mesmo tempo que Arthur sente os efeitos de sua doença ainda desconhecida, definhando seu corpo cada dia mais, ele percebe um Dutch cada vez mais irracional e brutal, assassinando mulheres e idosos sem pestanejar e a troco de nada. Já não era mais por dinheiro ou “princípios”; era pura selvageria, com a qual o puxa-saco Micah sempre concordava, com o objetivo de cair nas graças do patrão.
De volta aos EUA, Arthur descobre sua doença e vê nela um momento de reflexão. Ele havia sido um homem mau durante toda a sua vida, temido e odiado em todos os lugares. Quando morresse, nada de bom surgiria em seu legado. Ele viu amigos morrerem, sua família se desfazer e o homem que ele teve como pai enlouquecer diante de seus olhos.
Não havia mais medo ou ganância; a única coisa que Morgan buscava era um propósito, algo que fizesse sua vida, mesmo que no fim, fazer algum sentido. Manipulado por Micah, Dutch arrisca-se cada vez mais, matando Cornwall e fazendo com que ainda mais ataques recaiam sobre aqueles que lhe são próximos. Rapidamente, aquele “grande pai” passou a deixar seus filhos à própria sorte, recusando-se a salvar John Marston da prisão, mesmo sabendo que seria condenado à forca, algo que Arthur e Sadie fizeram a seu contragosto.
Sem amarras e no fim de suas forças, Arthur tornava-se o protetor que a gangue cada vez mais enxuta precisava. Ele passa a ajudar desconhecidos do garoto Jules, a quem ele salva de ser devorado por crocodilos no pântano Bayou Nwa, até a tribo indígena chefiada por Chuva Caindo (ok, esse nome é engraçado mesmo), com quem tem uma conversa extremamente reflexiva.
Ele fala sobre como o crime tomou sua mulher e seu filho, Isaac, ainda em sua juventude, o que fez com que ele definitivamente mergulhasse em sua parceria com Dutch e deixasse seu amor por Mary de lado. No fim, ele percebeu que havia se tornado o mal que destruiu sua família, e o mentor que havia escolhido estava cada vez mais parecido com o pai que ele odiava.
Assim, ele ajuda essa tribo sem pedir nada em troca, protege os inocentes e enxerga as marcas deixadas pela maldade que antes ele chamava de “trabalho”. Ao perceber sua própria finitude, ele compreendeu quem realmente era.
Ainda assim, parece que nenhum ato de “heroísmo” de Arthur tem efeito real. A tribo continua sendo massacrada pelos militares estadunidenses, Dutch continua a pôr todos em risco e sua saúde se deteriora a cada dia. Sua tragédia nos mostra que a vida raramente é um conto de fadas, e que, mesmo que tenhamos as melhores intenções, a boa vontade não é suficiente para fazer com que tudo dê certo.
Apenas após a traição final de Van Der Linde e Micah, que abandonam Abigail Marston à própria sorte em nome do dinheiro, Arthur dá um basta e decide arriscar tudo para que John, seu amigo, seu irmão, possa ter um destino diferente ao lado de sua família, possa ser o homem que ele não foi. John era o homem que Arthur poderia ter sido caso sua família não lhe fosse tirada, alguém com consciência, alguém que tem pelo que viver e pelo que morrer, e naquele momento, Morgan fez dessa esperança a sua última motivação.
No momento em que a gangue parecia se dividir definitivamente, com Sadie, os Marston e Charles ficam ao lado de Arthur, enquanto Bill e Javier permanecem ao lado de Micah, enquanto Dutch fica entre eles, preso entre dois mundos. Ele sabe que os levou àquela situação. Ele sabe que Strauss, Tilly, Swanson e tantos outros foram embora graças às suas atitudes. No fundo, ele sabe que Arthur está certo, mas sua arrogância não lhe permite aceitar que os últimos de sua espécie seriam extintos por causa dele.
No entanto, antes que qualquer decisão fosse tomada, os Pinkertons invadem o abrigo e Arthur tenta escapar junto a John, ajudando-o a levar o dinheiro guardado por Dutch. Porém, seus pulmões já estavam no limite e, incapaz de ajudar seu amigo, ele pede que ele apenas vá e recomece sua vida ao lado de sua família. Para ele, não havia mais futuro; nada mais justo do que seu último ato fosse justamente proteger o do seu melhor amigo.
Arthur consegue garantir a fuga de John, mas seus pulmões já não suportavam mais. Após enfrentar Micah pela última vez, ele é abandonado à própria sorte enquanto Dutch, incapaz de encarar o homem que traiu, simplesmente vai embora. Sozinho, observando o nascer do sol sobre as montanhas, Arthur Morgan finalmente encontra a paz, morto por um homem idêntico ao que ele havia sido por toda a sua vida.
A morte de Vader significou a liberdade para toda uma galáxia após anos de tirania. A morte de Snape significou a vida para o filho da mulher que ele um dia amou e a paz para o mundo bruxo. Já a morte de Morgan, suja, anticlimática e brutal, significou a vida para apenas uma família, algo que nem de longe se equipara às tantas outras que ele destruiu ao longo de suas décadas como um criminoso vil e cruel.
Porém, esse é justamente o charme de sua redenção. Ele não é um herói, é um homem que desde cedo aprendeu a conquistar tudo por meio da força e, quando os tempos mudaram, foi incapaz de abandonar seus antigos hábitos. Sua lealdade, por muito tempo irracional, a um homem egocêntrico e perverso como Dutch, o levaram a cometer os piores crimes, muitos que ele cometeu sem sequer hesitar. Porém, quando a certeza do fim lhe atingiu, ele percebeu o peso de seus atos e, mesmo sem tentar diretamente fazer algo para “revertê-los”, ele morreu de maneira honrada.
Sua doença, ao mesmo tempo que o punia por todo o mal que havia cometido, também lhe ensinava e lhe dava a oportunidade de ser diferente, e ele assim o fez. Talvez o ponto central seja que ele mesmo jamais se julgou digno de perdão, e, no fim, ele realmente não é, mas, no coração daqueles que ajudou, ele sempre será lembrado como um homem bom. Enquanto seus pulmões morriam, seu coração se aquecia.
E você, acha que a redenção de Arthur Morgan pode ser considerada a melhor da cultura pop? Não deixe de comentar!


