Alemanha: O Kaiser da Cultura POP

No dia 1 de agosto de 1914, O Kaiser Guilherme II, Imperador da Prússia, Württemberg, Saxônia e Baviera, tomou a decisão que mudaria para sempre a história da Alemanha pelos próximos 112 anos: declarou a guerra à Rússia, o que por consequência, o levou a fazer o mesmo contra Reino Unido e França, com intuito de proteger seus aliados otomanos e Austro-Húngaros, dando início assim, à Primeira Guerra Mundial. O conflito foi o mais devastador da história até aquele momento, envolvendo países de todos os cantos do mundo, seja no campo de batalha, seja com apoio logístico, político ou financeiro. Após quatro anos de um conflito sangrento, o Império Alemão se viu completamente desgastado. 2 milhões de militares e civis foram mortos, 4 milhões de feridos e mais de 130 bilhões de marcos em dívidas. Assim, em 11 de novembro de 1918, em Compiègne, na França, os generais alemães, que naquela altura já eram os verdadeiros líderes do país devido à perda progressiva de autoridade do Kaiser, assinaram a rendição, encerrando um conflito de quatro anos, e mais de 20 milhões de mortes. Guilherme II, que havia sido deposto pelo Chanceler Max von Baden apenas dois dias antes da rendição alemã, exilou-se na Holanda, encerrando mais de 300 anos de monarquia nos reinos germânicos. O Tratado de Versalhes, a República de Weimar, a Ascensão de Hitler, a Segunda Guerra Mundial, a ocupação alemã pelos Aliados e pela URSS, a divisão do país entre ocidente e oriente, todos esses eventos chave na história moderna alemã, foram resultados diretos das decisões de Guilherme II e seus generais em 1914, que definiram o estereótipo pelo qual a Alemanha ficaria conhecida até os dias de hoje: um país belicoso, preconceituoso, totalitarista e ideologicamente perigoso. Por mais que seja impossível separar os erros da história de qualquer país, não é certo enxergá-lo apenas por seus momentos mais sombrios. A nação onde a música clássica conheceu seu apogeu com Beethoven, onde o cinema de terror viveu um de seus momentos mais prósperos com Nosferatu e o Vampiro de Dusseldorf, e leu os contos dos Irmãos Grimm, que deram origem às histórias mais incríveis das animações, sem dúvida, é muito maior que isso. Hoje, vamos conhecer as potencialidades culturais da Alemanha, dando sequência à série iniciada com o Japão, apresentando países extremamente relevantes na cultura pop, mas que muitas vezes não reconhecemos como tal, devido ao imenso volume de produções vindas dos EUA e Reino Unido que consumimos diariamente. Hoje, você irá perceber que muito do que conhecemos na cultura pop atual nasceu na Alemanha!

HISTÓRIA DA CULTURA POP

Rafael Silva

1/24/202647 min read

História I: Origens de uma Nação

A história da Alemanha se iniciou mais de um milênio antes de sua unificação pelas mãos de Otto Von Bismarck. Os primeiros registros de povos germânicos surgiram em 9 D.C., na Batalha de Teutoburgo, quando legiões das tribos de Queruscos e Cimbros superaram as tropas romanas. Aqui, nasceu o conceito do Cavaleiro Sombrio, típico da cultura alemã. Se britânicos e franceses tratavam seus guerreiros como heróis iluminados, a exemplo do famoso Rei Arthur, os germânicos prezavam pela eficiência e agressividade e, ao mesmo tempo, pela lealdade e a conexão com a natureza.

Os germânicos eram tidos pelos romanos como bárbaros, mas acabaram por aliar-se a eles a partir do século III, para abastecer suas linhas de soldados. Em troca do apoio de seus mercenários, os romanos cederam terras aos germânicos, que passaram a amalgamar-se ao império romano, algo que veio de encontro à sua crescente conversão ao cristianismo, abandonando o arianismo.

Uma vez que o Sacro Império Romano-Germânico era um verdadeiro Frankenstein, unindo todos os tipos de povos, línguas e religiões sob seus domínios, os germânicos mantinham sua unidade enquanto povo, persistindo por meio de sua língua e religião. Ao mesmo tempo que lutava para existir independentemente dos romanos, o povo anexava algumas de suas características, desde sua arquitetura monumental até seu gosto pela ordem e pela política.

Todavia, foi somente após a coroação de Carlos Magno em 800 D.C., por ordem do Papa Leão III, que os germânicos passaram a ter seus próprios domínios dentro do Império. Foi sob seu reinado que as sementes que viriam a gerar os quatro reinos formadores do futuro Império Alemão foram plantadas.

Baviera: criada em 1805 e governada pela Casa Wittelsbach, a Baviera é a Alemanha dos contos de fadas, conhecida por seus belos castelos e por ser o berço de uma celebração que nossos conterrâneos de Blumenau devem conhecer muito bem: a Oktoberfest.

Ao contrário dos outros reinos alemães, a Baviera manteve-se fortemente católica e conservadora, distante das empreitadas industriais dos outros três, em especial, a Prússia.

Prússia: Consagrada como reino em 1706, a Prússia foi o maior e mais rico membro do Império Alemão, sendo ela a maior responsável por sua unificação em 1871. Ao contrário da Baviera, a Prússia experimentou desde cedo uma tendência às revoluções iluministas que ganhavam força na Europa, colocando a razão e a ciência à frente da religião.

O militarismo, a industrialização massiva e o apreço pela ciência, que se tornaram características recorrentes na Alemanha, encontraram seu berço na Prússia. Sem os prussianos, as grandes metrópoles industriais vistas em clássicos do cinema alemão como Metrópolis (1927) jamais seriam possíveis.

No entanto, seu modelo educacional rígido e focado no ensino técnico, que se tornou base para todo o sistema educacional moderno, foi e ainda tem sido alvo de duras críticas. A um de seus maiores fãs, John Rockefeller, disse a seguinte frase em 1903, ao referir-se a esse modelo: “Precisamos de uma nação de trabalhadores, não de pensadores”. Isso demonstra que, por mais que a Alemanha tenha gerado grandes gênios, como o próprio Albert Einstein, também foi dela que surgiu o mecanismo educacional que cerceia, em muitos casos, o potencial de um povo.

Sua consagração como potência militar se deu nas Guerras Napoleônicas, quando, após cair de maneira humilhante perante as forças francesas na Batalha de Jena-Auerstedt (1806), reergueu-se com auxílio britânico e russo, sendo responsável por dar o golpe final nas forças de Napoleão na histórica Batalha de Waterloo (1815).

Em 1870, um ano antes da unificação, a Prússia ainda viria a derrotar a França novamente, conquistando os territórios de Alsácia-Lorena, mostrando às potências europeias as potências que os germânicos vinham se tornando.

Com a fundação do Império Alemão, o Rei da Prússia atuaria também como Imperador da Alemanha, sendo o primeiro deles, Guilherme I, e o último, o notório Guilherme II.

Württemberg: O menor dos quatro reinos, porém, um dos mais importantes. Assim como a Prússia, Württemberg tinha seu foco especialmente no ramo industrial, mas destacava-se em uma área muito específica: os automóveis, que são até hoje o ponto forte da economia alemã. Foi nas fábricas de Stuttgart que surgiram os primeiros motores rápidos a gasolina em 1886, e, nos anos seguintes, viriam a ser construídas as primeiras montadoras da Mercedes Benz, Porsche e Bosch. Tais marcas, hoje, são consideradas a elite do automobilismo.

Saxônia: O mais povoado e central, servindo de berço para a Reforma Protestante liderada por Martinho Lutero em 1517. Dresden, uma de suas maiores cidades, viria a ser o palco da Arte Barroca, um dos movimentos artísticos mais importantes da Europa nos séculos XVI-XVII.

Em 1871, esses quatro reinos foram enfim unificados, após três guerras consecutivas contra Áustria, Dinamarca e França, que serviram para consolidar os interesses da burguesia e aristocracia alemã em reunir as indústrias e economias de todos eles sob uma única bandeira e liderança.


O País dos Contos de Fadas:

O folclore alemão tem raízes profundas na mitologia germânica e nórdica, evoluindo de contos orais rurais, lendas medievais e crenças pagãs sobre a natureza, magia e criaturas sobrenaturais.

Como é comum em qualquer cultura, essas tradições e crenças, originalmente transmitidas oralmente, passaram a servir não só como forma de moldar uma cultura local coesa, como também inspirar obras literárias.

Um dos primeiros a unir crenças antigas a questões da modernidade com maestria foi Johann Wolfgang von Goethe, poeta e escritor, ícone dos movimentos romancistas e classicistas. Entre suas principais obras, temos Fausto, lançado em 1808 e 1832 (partes um e dois).

Heinrich Faust era um homem erudito, amante do conhecimento e da ciência. No entanto, a idade começava a afetá-lo, e ele temia que, após sua morte, não pudesse mais desfrutar do prazer de saber. Assim sendo, ele desafia a religião e firma um pacto com o demônio Mefistófeles (que seria, inclusive, o vilão do primeiro curta-metragem de terror da história, a “Mansão do Diabo”, de 1896), entregando sua alma em troca de juventude, conhecimento “infinito” e prazeres ilimitados. Uma vida terrena farta em desejos, em troca de uma eternidade no inferno.

Faust concorda que, caso ele se satisfaça completamente, a ponto de desejar que o tempo pare para sempre em um determinado momento, o anjo caído poderá levar sua alma. Sabendo disso, o inimigo conduz o homem por experiências sexuais e mágicas, levando-o lentamente ao êxtase. Isso leva Faust a apaixonar-se por Gretchen, em um romance sangrento, que termina na morte da família da garota e em sua condenação à morte.

A segunda parte do romance, lançada duas décadas depois, viaja para um lado mais político e social, com Fausto e seu companheiro indesejado passando por diversas crises financeiras, sociais e políticas. Ele novamente se apaixona, dessa vez, por Helena de Tróia, com quem se casa e tem um filho. Porém, tudo dá errado novamente, e o que havia conquistado lhe é tirado.

Na velhice, sem mais poder ver, Fausto limita-se a sonhar com um mundo ideal e se vê tão maravilhado com as maravilhas que sua própria mente pode gerar que se permitiu ser levado ao inferno por Mefisto.

Apesar de densa, a trama reúne diversos conceitos da cultura alemã da época: magia, fadas, castelos, religião, política, guerras, romance e arte, um verdadeiro caldeirão de possibilidades, se encontrando em uma única obra, que, até os dias de hoje, é uma das mais aclamadas da literatura clássica alemã.

Mas as maiores lendas da literatura alemã, cujas mentes deram origem a muitas das maiores fábulas de contos de fadas de todos os tempos, fariam o folclore alemão fazer parte em definitivo da cultura pop mundial: os Irmãos Grimm.

Wilhelm e Jacob Grimm, os famosos Irmãos Grimm, foram acadêmicos, linguistas e escritores, e criadores de várias das maiores lendas da literatura fantasiosa, como Branca de Neve, Cinderela, João e Maria (Hansel e Gretel), Chapeuzinho Vermelho, Rapunzel e A Bela Adormecida, e outros que viriam a se tornar sucessos milionários nas mãos da Disney dos anos 1930 em diante.

Os irmãos viajaram pelo país, entrevistando contadores de histórias, eternizando lendas que poderiam ser perdidas pela história se não fossem pelas suas mãos. Seus contos não eram apenas ideias, eram a voz de um país escrita no papel.

Porém, muitos sabem que as versões originais dos Irmãos Grimm são muitíssimo mais perturbadoras e macabras, muitas vezes, voltadas a um público mais adulto. Na sequência, vamos conhecer como os Irmãos originalmente escreveram algumas dessas lendas:


Branca de Neve

Mais de um século antes de se tornar o marco 0 da Disney, Branca de Neve era uma simples lenda oral alemã, até ser transformada em conto pelos Grimm em 1812. Vale ressaltar que Wilhelm e Jacob viam-se mais como coletores de histórias do que propriamente criadores.

Inicialmente, tudo parece muito parecido com a versão que conhecemos: a Rainha Má se casa com o rei após a morte de sua esposa, e, após ele também morrer, torna-se soberana, passando a nutrir uma inveja fatal de sua enteada, Branca de Neve, que, de acordo com seu espelho mágico, era a única tão bela quanto ela.

A partir daí, as coisas tomam um rumo bem diferente. A Rainha não queria apenas que o caçador matasse a princesa e lhe entregasse seu coração; na verdade, desejava comer seu fígado e pulmões, na esperança de rejuvenescer, ao maior estilo Elizabeth Bathory (quem leu nossos posts sobre Drácula sabe do que estamos falando).

Após a traição do Caçador, a Rainha age por conta própria, transformando-se em uma bruxa e tentando por duas vezes assassinar a Branca: enforcando-a com um corpete e, após o fracasso, enfim entregando-lhe a maçã envenenada, que a põe em sono profundo.

Esqueça o amor verdadeiro, o príncipe encantado e os anões apenas se conformam com a morte e a põem em um caixão de vidro, levando-a pela floresta, até que tropeçam, e, ao chacoalhar o corpo, o pedaço da maçã preso em sua garganta é cuspido, e a princesa volta à consciência (é sério…).

Finalmente juntos, Branca de Neve e o príncipe se casam, e como atração principal da festa, puseram a Rainha calçada com sapatos de ferro aquecidos em brasa, para dançar até a morte sob carvão quente. Deve ter sido uma cerimônia realmente linda.

Obviamente, esse final brutal foi cortado em versões futuras, e o fim da Rainha muitas vezes se dá em uma queda de penhasco, como o visto no filme de 1936. Se achou isso bizarro, calma que tem mais.


Chapeuzinho Vermelho

Por mais bizarro que seja, a versão dos Irmãos Grimm foi uma das mais leves dessa história. A primeira versão impressa de Chapéuzinho Vermelho foi feita na França, por Charles Perrault, em 1697. A bizarrice é tanta que o Lobo chega a enganar Chapéuzinho, fazendo-a comer pedaços da própria avó sem saber (você nunca mais vai ver essa história da mesma forma). No fim, ambas morrem.

A versão dos Grimm, por mais densa que seja, ainda traz um ar levemente esperançoso, introduzindo o Caçador que resgata avó e neta no final, mas, sem abrir mão de um subtexto chocante, é intrinsecamente ligada à tradição oral da história.

Na versão mais 'fofinha' da história, Chapeuzinho vai até a casa de sua avó levar alguns doces, seguindo por um atalho, onde se encontra com o famoso Lobo Mau, o personagem central de toda essa história.

O Lobo convida a jovem para ir com ele, mas ela se nega, escapando da primeira armadilha. Então, ele vai direto até a casa da avó, devorando-a, para então disfarçar-se como ela, para atrair Chapeuzinho. Porém, antes que ela seja morta, um caçador chega, elimina o Lobo e resgata não só Chapeuzinho, mas também a avó, conseguindo retirá-la do estômago do predador. Mas como uma história tão bobinha poderia ter um significado oculto?

Por baixo de toda essa magia, a história original é repleta de conotações sexuais. O Lobo (ou Lobisomem, dependendo da versão) da história era apenas uma metáfora para um predador sexual, que buscava se satisfazer com a garota. As roupas vermelhas da menina faziam referência à luxúria e à chegada da garota à puberdade, tornando-a suscetível aos ataques do 'Lobo'.

A floresta simboliza o desconhecido, o mundo adulto. O caminho reto representa a obediência, e o desvio, a curiosidade ou tentação. Chapeuzinho, ao se afastar da rota, deixa de ser apenas uma criança inocente para tornar-se protagonista de sua própria experiência de amadurecimento.

O final varia de versão para versão. Em alguns casos, o Caçador abre o estômago do Lobo para salvar as duas; em outros, enche-o com pedras, forçando-as a sair (não me pergunta por onde) e matando o lobo sufocado.

Fato é que a versão dos Grimm apela menos para a violência pura e bruta e foca em um subtexto de alerta muito funcional, sem, é claro, abrir mão de algumas bizarrices.


Cinderela

As primeiras versões da história de Cinderela, surpreendentemente, surgiram na China já no século IX, sendo chamada de Ye Xian. Em 1697, novamente Charles Perrault faria sua adaptação, e, em 1812, os Irmãos Grimm fariam sua versão para sua coletânea de contos germânicos.

Fada Madrinha? Não! Cinderela consegue seus sapatinhos de cristal, carruagem e vestido de um salgueiro plantado sob o túmulo de sua mãe, que cresceu regado por suas próprias lágrimas (confesso que gostei mais que da versão definitiva…). Aqui, Cinderela tem pai, mas ele permanece omisso diante do sofrimento da filha.

Os abusos por parte de sua madrasta e meias-irmãs permanecem inalterados, e em certas versões, elas até mesmo fazem Cinderela passar fome como forma de punição. Cegas pelo desejo de se tornarem princesas, as irmãs cortam os próprios calcanhares para que seus pés se encaixem nos sapatinhos deixados no palácio após a dança de Cinderela e o príncipe. Elas não são apenas ridículas e patricinhas, são completamente obcecadas e corruptas, capazes de tudo para obter status, em uma poderosa crítica social à aristocracia da época.

Todavia, o soberano percebe o sangue em seus pés e as condena pela fraude, enfim, vendo em Cinderela a mulher por quem se apaixonou naquela noite. Eles se casam, e mais uma vez, uma cena brutal se desenrola para animar a cerimônia: as meia-irmãs têm seus olhos comidos por pássaros que ajudavam Cinderela em suas tarefas domésticas. Não dá pra fazer um casamento sem um bom banho de sangue, não é mesmo? Essa brutalidade é certamente o elemento mais lembrado dessa roupagem da história.

Em 1950, a versão de Cinderela que conhecemos foi lançada, baseada quase que totalmente na versão de Charles Perrault, que possuía elementos como a fada madrinha e a carruagem encantada, e um viés bem menos violento. Porém, a adaptação dos Grimm tornou-se um clássico cult pra lá de perturbador.


Rapunzel

Um dos mais viajados. Aqui, os irmãos adaptaram um conto francês chamado Persinette (1698), lançando sua versão em 1812, na coletânea Kinder- und Hausmärchen (“Contos de Criança e Casa”).

Muito diferente da versão que conhecemos com a Disney, aqui, Rapunzel nasce de um casal de fazendeiros, que não conseguiam ter um filho. Quando a esposa enfim engravida, ela pede a seu marido que lhe busque uma planta rapôncio no jardim de uma feiticeira. Sem escolha, ele o faz, mas é descoberto pela bruxa, que ameaça matar a todos. Para salvar sua família, o homem decide entregar sua filha a ela, permitindo que ela sobreviva, abrindo mão de seu maior sonho, por amor.

A bruxa a nomeou como Rapunzel e a criou como sua filha. Quando Rapunzel chegou à adolescência, ela passou a trancá-la em uma alta torre, conseguindo acessá-la somente quando a garota lançava seus cabelos. Novamente, uma alegoria à descoberta da sexualidade e à necessidade maternal de reprimi-la de alguma forma.

Porém, um príncipe a descobre e passa a subir na torre para visitá-la. A vilã descobre, assim cortando seus cabelos e levando-a em segredo para um deserto isolado, fazendo com que o príncipe pensasse que ela havia o deixado, lançando-se do topo da torre e perdendo a visão.

No entanto, ele magicamente consegue achá-la no deserto, onde vivia com seus dois filhos (pelo visto eles produziram bastante naqueles breves encontros na torre), e, com suas lágrimas, consegue regenerar seus olhos, devolvendo-lhe a visão.

A viagem foi grande, e é possível ver novamente como muito da trama foi alterada ou descartada para torná-la palatável ao público infantil no século seguinte.


Bela Adormecida

Aqui, os Irmãos Grimm tornaram a história minimamente possível de ser lida para crianças, porque, originalmente, o buraco era bem, mas BEM lá embaixo. Na versão de Charles Perrault (1697), tudo corre de forma semelhante, até o momento em que Aurora cai em um sono profundo.

Nesse momento, um rei chega ao local e faz AQUELE tipo de coisa com Aurora desacordada. Nove meses se passam, e dois gêmeos nascem, e quando um deles chupa seu dedo, consegue acidentalmente retirar a farpa que a mantinha desmaiada, libertando-a da maldição de uma fada má. Se você achou a salvação da Branca de Neve bizarra, é porque certamente não conhecia essa versão da Bela Adormecida.

Como era humanamente impossível mostrar esse crime para uma criança, os Grimm simplificaram. Tudo ocorre normalmente, Aurora é jurada por uma fada que não havia sido convidada para um jantar, uma vez que o rei tinha apenas doze pratos de ouro para treze delas.

O rei então ordena que as fadas cuidem dela e a mantenham longe do castelo. Ainda assim, ela é atraída pela vilã e acaba furando seu dedo na roca de fiar, algo que fez não só com que ela dormisse, como também que todo o reino simplesmente parasse no tempo. Pessoas congeladas, moscas paradas no ar, até mesmo as lareiras não vibravam com o próprio calor, era a morte simbólica de todo um povo.

Uma muralha de espinhos formou-se em torno do reino, e muitos morreram tentando atravessá-la, transformando-a em uma exposição de corpos dilacerados ao ar livre. Apenas cem anos depois, quando os espinhos se tornam flores, um príncipe consegue atravessar as defesas, beijar Aurora e pôr um fim a tudo aquilo, não por amor verdadeiro, mas porque o ciclo punitivo da fada já havia sido concluído.

Você deve estar se perguntando: cadê a Malévola? Devo dizer que eu também fiquei surpreso, mas ela só foi criada no filme da Disney em 1959, que deu personalidade à décima terceira fada totalmente genérica do conto original.

Mesmo com seu final trágico, a versão dos Grimm é infinitamente mais aceitável que a insanidade cometida por Charles Perrault.




João e Maria


O último da coleção Kinder- und Hausmärchen de 1812. Suas origens advêm da Era Medieval, das grandes fomes vividas pelos povos germânicos, em que, muitas vezes, as famílias desertavam seus filhos para não morrerem de fome.

João e Maria perderam sua mãe logo após o nascimento e foram criados por seu pai e sua madrasta, que sempre os desprezou, tentando convencer seu pai a abandoná-los. O homem tenta fazê-lo, mas as crianças inicialmente conseguem achar o caminho de volta graças às migalhas no chão, mas não dão a mesma sorte na segunda vez. Diferentemente das versões mais conhecidas, os irmãos não se perdem; na verdade, são vítimas de seu pai, que tenta ativamente matá-los de fome.

Perdidos na floresta, João e Maria desbravam outro conceito constante no folclore alemão: a Floresta Negra, um local mágico e belo, e ao mesmo tempo sombrio e ameaçador. Após muito caminhar, eles encontram uma casa feita inteiramente de doces. Para alguém que já não comia há dias, aquilo era uma visão do céu.

O que os irmãos não imaginavam é que seriam capturados por uma idosa canibal, que os aprisionaria e começaria a engordar João ao máximo para poder assá-lo no forno. Se antes o garoto implorava por comida, agora fazia regime de fome, pois sabia que cada migalha que ousasse comer o deixava mais próximo da morte. Sem dúvida, uma tortura psicológica cruel.

Felizmente, Maria conseguiu lançar a velha no fogo antes que ela matasse seu irmão, e aproveitou para roubar todas as joias dela. Juntos e ricos, eles voltam para casa, onde sua madrasta já havia morrido, e seu pai os aceita de volta simplesmente porque agora eles têm dinheiro para sustentá-los.

Metáforas, terror psicológico, violência gráfica: os Irmãos Grimm fizeram das lendas infantis algo denso e, por vezes, extremamente perturbador, mas, inegavelmente, tiveram papel decisivo para a consagração da literatura alemã e, principalmente, na construção do maior império da ficção: a Disney.

Porém, a literatura alemã vai muito além dos Grimm, e, na sequência, iremos listar alguns dos maiores autores alemães de todos os tempos e suas principais obras:


História II: Do Céu ao Inferno

Sob a liderança de Otto Von Bismarck, a unificação foi feita, e Guilherme I foi coroado Kaiser, dando início a um período de crescimento econômico astronômico, mas que rapidamente se transformou em fonte de muitos problemas.

Entre 1871 e 1914, a Alemanha viu sua população crescer de 41 milhões de habitantes para 68 milhões. Sem as barreiras políticas e alfandegárias entre os reinos, o Império triplicou sua malha ferroviária e quadruplicou suas exportações, movimentando mais de 10 bilhões de marcos até 1914.

Em pouco tempo, seu PIB passou a crescer cerca de 4% ao ano, alcançando incríveis 237 bilhões de dólares em 1914. Em comparação, o Império Britânico, na época a maior potência industrial e exportadora, crescia em média 1% ao ano e detinha um PIB estimado de 224 bilhões de dólares.

Porém, havia uma ferida aberta no ego alemão, que servia de enorme vantagem aos britânicos: A Conferência de Berlim, em 1885. No auge do colonialismo, as potências europeias passaram a reunir-se para decidir o futuro de suas ocupações na África, com britânicos e franceses detendo a maior parte dos territórios e extraindo deles muitas de suas riquezas, o que enfureceu os alemães.

O colonialismo alemão, por mais que breve, foi talvez o mais brutal já visto. Sob sua posse, estavam: Sudoeste Africano Alemão (Namíbia), África Oriental Alemã (Tanzânia, Ruanda, Burundi), Togolândia e Camarões. O foco principal era a extração de recursos naturais por meio de mão de obra forçada. Todavia, a brutalidade alemã chegou a níveis inéditos até o Congo Belga de Leopoldo II. Estima-se que cerca de 65.000 hereros (80% da população) e 10.000 namas (metade da população) foram mortos pelas forças imperiais alemãs. Hoje, a história chama de genocídio; na época, foi tratado como “política colonial”.

Porém, isso não satisfez o voraz apetite de poder do Kaiser Guilherme II, coroado imperador em 1888, o fatídico Ano dos Três Imperadores, em que Guilherme I morreu, foi sucedido por Frederico III, que também morreu, reinando por apenas 99 dias, com a coroa enfim parando na cabeça de Guilherme II.

Guilherme nasceu em 1859, neto da famosa Rainha Vitória, do Reino Unido. Logo ao nascer, foi marcado por algo que lhe traria profunda vergonha até o fim de sua vida: um braço esquerdo atrofiado, devido a complicações no parto. Essa sutil deficiência fez-lhe crescer com um profundo complexo de inferioridade, julgando-se fraco perante seu povo. Isso o fez tomar como missão pessoal demonstrar força, virilidade e capacidade de conquistar, um tanto parecido com as próprias ambições de seu país naquele período. Uma combinação certamente perigosa.

Sua educação seguiu os moldes típicos da elite prussiana: rígida e nacionalista. Ele rejeitava veementemente o modelo democrático adotado pela monarquia britânica, acreditando que a coroa era símbolo da vontade divina e que ninguém deveria se opor ao poder de quem a portasse.

Com apenas 29 anos, Guilherme ascendeu ao trono logo após a morte de seu pai, Frederico, e teve como um de seus primeiros atos demitir Otto Von Bismarck, um dos maiores símbolos da nação. Esse ato só pode ser explicado como uma tentativa de afastar qualquer um que pudesse ameaçar seu poder.

Guilherme deu início a uma militarização acelerada em seu país, em uma corrida armamentista direta com o Reino Unido, dando início ao período que ficaria conhecido como Paz Armada, onde as nações pareciam estar em paz, mas por debaixo das cortinas, já estavam armadas até os dentes, apenas aguardando que o primeiro tiro fosse dado.

Enquanto britânicos, franceses e russos aliaram-se para garantir sua hegemonia, os alemães uniam-se a potências decadentes e instáveis, como Império Austro-Húngaro e Otomano, além da também recém-unificada Itália, que não representava praticamente nenhuma ameaça aos inimigos do Kaiser. Assim, nasceu a Tríplice Aliança, um alinhamento oculto entre quatro países, prontos para a guerra.

Em 1914, a morte do Arquiduque Francisco Ferdinando, da Áustria-Hungria, em solo sérvio, por mãos de nacionalistas, serviu de estopim para o maior conflito que a humanidade já havia visto até então: a Primeira Guerra Mundial. Em resposta à declaração de guerra do Império Russo aos Austro-Húngaros, o Império Alemão declarou guerra à Rússia, como também aos britânicos e franceses, vendo aquilo não apenas como uma guerra puramente europeia, como também a chance de conquistar a hegemonia colonial que tanto almejavam.

O exército alemão era naquele momento o mais bem treinado e equipado da Europa, com mais de 1,5 milhão de soldados sendo enviados apenas ao front ocidental. Ao todo, de 1914 até 1918, mais de 14 milhões de soldados foram utilizados pelo Império Alemão.

A Alemanha obteve vitórias significativas no início da guerra, porém, as trincheiras passaram a ser seu maior algoz. Tendo superioridade em campo, os alemães passaram a perder semanas e, por vezes, meses em trincheiras criadas por franceses, impedindo seu avanço. No mar, outro duro golpe foi dado. A Royal Navy, na época a marinha mais poderosa do mundo, bloqueou as rotas comerciais alemãs, estrangulando sua economia. A Itália já havia mudado de lado logo no início da guerra. Sufocada e sem aliados à altura, uma coisa era certa: não importa o quanto demorasse, a Alemanha iria perder.

Sua única esperança de uma vitória repousava em uma tomada rápida de Paris, o dito Plano Schlieffen, que evaporou logo nos primeiros meses.

A fome e o desemprego já assolavam o Império, e, cada vez mais, revoltas explodiam em todos os cantos do Reino, e Guilherme simplesmente as suprimia, acreditando que sua vontade estava acima de tudo. Porém, seu poder sobre as forças armadas já estava diluído, com generais como Paul von Hindenburg e Erich Ludendorff, tornando-se os verdadeiros líderes do país.

Em 1917, a Rússia deixou a guerra após a Revolução Bolchevique, que lançou o país em uma guerra civil sem precedentes. Por outro lado, os Estados Unidos, que até então haviam permanecido apenas como financiadores da Tríplice Entente, entraram definitivamente no conflito, rendendo aos alemães uma série de derrotas-chave, que dariam fim à guerra.

Isso tudo nos leva ao momento-chave que iniciou nossa jornada histórica: o Tratado de Versalhes. Hindenburg e Ludendorff afirmavam que a rendição alemã havia sido uma “facada nas costas”, dada por traidores, comunistas e, especialmente, judeus, de forma a não admitir a própria desistência em relação a um conflito que sabiam ser incapazes de vencer. Todavia, essas mentiras foram decisivas para fortalecer o preconceito que levaria o país ao seu período mais baixo.

O Kaiser Guilherme viveu em exílio na Holanda até sua morte em 1941. Inicialmente, ele expressou simpatia pelo nazismo, mas, após o início da Segunda Guerra, exigiu que nenhum símbolo relacionado a eles fosse colocado em seu funeral.

Fato é que o Império Alemão enfrentou um verdadeiro colapso. Todas as suas colônias foram retiradas, sua indústria eclodiu e, em 1923, já na República de Weimar, um único dólar chegou a valer trilhões de marcos, rendendo imagens como essa:




A República de Weimar surgiu logo em 1919, com uma constituição considerada progressista para sua época, enfrentando oposição ferrenha de comunistas, nacionalistas e, claro, dos nazistas. A instabilidade política e econômica era altíssima, tendo sido agravada ainda mais pela incapacidade dos alemães em quitar sua dívida de 132 bilhões de marcos com a Entente.

No entanto, os parlamentares reagiram, criando o Marco Seguro, atrelado a terras agrícolas, e abriram-se a renegociar suas dívidas com as potências vencedoras, alcançando considerável estabilidade, até 1929, quando a Grande Depressão assolou os EUA e, por consequência, o resto do mundo.

Mas se a política falhou nas trincheiras, a alma alemã encontrou sua voz em um novo lugar: as telas de cinema.


O Cinema: Uma Arte de Resistência

A Sétima Arte nasceu em 1888, no Reino Unido. "Roundhay Garden Scene", o curta-metragem de apenas dois segundos filmado em Leeds, foi o primeiro contato do público com essa que viria a se tornar, possivelmente, a maior indústria do entretenimento global.

A novidade chegou à Alemanha por meio dos irmãos Max e Emil Skladanowsky, que realizaram a primeira exibição pública no país em 1895, com o curta-metragem Italienischer Bauerntanz (Dança Camponesa Italiana).

Esse, assim como a maioria dos curtas lançados naquele mesmo ano, não tinha mais que dez segundos, mas já demonstrava o pioneirismo alemão na sétima arte. Os Skladanowsky utilizavam-se do Bioscoop para fazer suas sessões, mas acabaram sendo “superados” pelo cinematógrafo dos Irmãos Lumière, que se consagraram como os “pais do cinema”.

No entanto, o apogeu do cinema alemão surgiria justamente em seu momento mais crítico: o pós-Primeira Guerra Mundial. O país passava por uma crise sem precedentes, e a realidade se tornava pesada, e por isso, a arte surgiu como uma espécie de escapismo lúdico para uma vida cada vez mais difícil. Foi nesse contexto que surgiu um dos movimentos mais criativos e únicos do cinema clássico: o Expressionismo Alemão.

O movimento expressionista encontra suas raízes em 1515, na obra Retábulo de Isenheim, de Mathias Grünewald, famosa por suas distorções violentas e emocionalismo extremo. No entanto, a obra mais icônica do movimento nasceria apenas em 1893, quando o pintor norueguês Edvard Munch deu vida a O Grito (que todo mundo deve ter conhecido nas aulas de artes), retratando um homem gritando em meio a uma ponte, em uma personificação do medo vivido por uma pessoa alienada no mundo.

O expressionismo pautava-se em uma visão subjetiva e extremamente emocional do mundo, em contraponto absoluto à observação objetiva. Coincidência ou não, a alma do expressionismo ia de encontro ao estado de espírito do povo alemão naquele momento: emocionalmente instável, em pânico com as mudanças do mundo e vendo a destruição à sua volta, como uma distorção da realidade que conheciam. A estética fantástica de obras como Gabinete do Dr. Caligari e Nosferatu definitivamente não são a única coisa que os cineastas extraíram do movimento fundado por Grünewald quatrocentos anos antes; aquilo se tratava da alma estraçalhada de uma nação, sendo retratada por meio da arte.

Na sequência, vamos conhecer alguns dos maiores sucessos desse período histórico do cinema clássico, que foi o início de um dos gêneros mais populares da cultura pop: o terror.


Nosferatu

A obra mais icônica do Expressionismo Alemão. Lançado em 1922, Nosferatu: Uma Sinfonia de Horrores foi a primeira adaptação não oficial da obra Drácula, de Bram Stoker (1897), dirigida por Friedrich.W Murnau e estrelada pelo até então desconhecido Max Shreck, viria a se tornar um dos maiores ícones do horror cult. A ideia surgiu com base em uma experiência do fundador da Prana-Films, Albin Grau, que relatava que seu pai havia sido um vampiro durante a Primeira Guerra Mundial.

A obra de Stoker, baseada no livro O Vampiro, de John Polidori, retrata seu vilão como um sujeito galanteador e elegante, que mantinha sua natureza selvagem oculta por detrás de uma máscara de civilidade, servindo de crítica direta ao período vitoriano vivido no Reino Unido, em que o desenvolvimento e luxo eram construídos por meio do horror e da violência.

Drácula era uma ameaça sutil, que seduzia sua presa antes de devorá-la, utilizando-se principalmente de seu charme ao invés de sua força bruta.

Após a morte de Bram, os direitos de Drácula passaram para as mãos de Florence Stoker, sua esposa, que jamais permitiu nenhuma adaptação desde então. Assim sendo, Murnau e a Prana-Films jamais poderiam adaptar a obra por completo, com cenários, nomes e estética, mas aquilo acabou sendo uma vantagem.

O vampiro de Murnau não seria um galã romeno, e sim, uma aberração, com dentes e orelhas pontudas, corpo esquelético e nariz longo, misturando referências do folclore escandinavo com as obras do artista Hugo Steiner, fazendo dele um ser repugnante e ameaçador, assemelhando-se até mesmo a um rato. Esse visual também reforçava o antissemitismo crescente na Alemanha, que constantemente relacionava a figura dos judeus aos ratos, mostrando o lado sombrio por trás da obra.

Os nomes de vários personagens foram alterados: Jonathan Harker tornou-se Thomas Hutter, Mina Murray tornou-se Ellen Hutter, Renfield tornou-se Knoch e Conde Drácula tornou-se Conde Orlok. Atores como Gustav von Wangenheim (Thomas) e Greta Schröder (Ellen) possuíam raízes no cinema expressionista, o que potencializou ainda mais seus papéis no longa-metragem.

A trama pouco foge da obra de Stoker. Thomas é enviado pelo corretor de imóveis Knoch até a Transilvânia, onde deveria vender uma casa em frente à sua para um velho e recluso conde, chamado Orlok. Ao chegar, Hutter fica assustado com a aparência e o comportamento do nobre, que parece ter um estranho fascínio pelo sangue.

Por meio de uma foto, Orlok descobre Ellen e apaixona-se por ela, passando a assombrá-la por meio de seus sonhos, enquanto mantém Hutter prisioneiro, rendendo cenas simplesmente incríveis, como quando Nosferatu faz com que Hutter se contorça de pânico apenas com sua sombra. Nos momentos de tensão, vale destacar o trabalho incrível da trilha sonora composta por Hans Erdmann, que tem suas raízes nas orquestras clássicas.

Ao chegar a Bremen, Nosferatu inicia uma onda de mortes, por meio da Peste Negra, e aproxima-se cada vez mais de Ellen. Sabendo que não havia outra forma de detê-lo, Ellen se sacrifica, permitindo que o vampiro beba seu sangue até o amanhecer, quando os primeiros raios de sol o atingem, reduzindo-o a pó.

Por mais que o filme tenha sido um sucesso de crítica, a alegria durou pouco, uma vez que Florence Stoker iniciou uma guerra judicial contra a Prana-Films logo em abril de 1922, obtendo a vitória nos tribunais em 1925, obrigando todas as cópias a serem destruídas. Felizmente, muitas escaparam da fogueira, e Nosferatu tornou-se um verdadeiro clássico do cinema de terror, sendo tido até os dias de hoje como um dos melhores do gênero de todos os tempos. A Prana-Films não teve a mesma sorte, fechando as portas logo depois do fim do processo.

Nosferatu transformou-se em um ícone da cultura pop, recebendo outros quatro filmes, sendo o último deles o remake dirigido por Robert Eggers em 2024. O vilão já foi satirizado no desenho Bob Esponja, referenciado em álbuns de David Bowie e serviu de inspiração para o filho do mestre Stephen King, Joe Hill. Não à toa, o monstro é a face do Expressionismo Alemão.


O Gabinete do Dr. Caligari

A estética do Expressionismo Alemão, resumida em uma única obra! O Gabinete do Dr. Caligari (1920), dirigido por Robert Wiene (conhecido até então por ter dirigido Die Wafen der Jugend, hoje perdido), é mundialmente reconhecido por sua estética única: prédios tortos, ruas em 2D e cenários parecendo saídos de um desenho infantil distorcido, evocando a destruição causada pela Primeira Guerra Mundial, em comunhão com os traços exagerados e lúdicos do expressionismo clássico. Além disso, tem a honra de ser considerado o primeiro longa-metragem de horror.

A obra retrata o Dr. Caligari, um circense sem limites, que viaja o país com sua mais nova atração: o sonâmbulo Cesare, que ele afirma estar dormindo há 23 anos e é capaz de prever o futuro. Em uma noite, Cesare prevê a morte de Alan naquela mesma noite, um jovem que assistia ao show junto com seu amigo Francis. O diálogo nos leva diretamente até os contos de fadas, quando um homem desafia o destino de maneira imprudente e sofre as consequências:

  • Até quando viverei? Pergunta Alan.

  • Até a alvorada! Respondeu Cesare.

Por mais que se mantivesse cético, ele tinha um resquício de temor por aquela previsão macabra, que, para o seu azar, se cumpriu, com o sonâmbulo o assassinando brutalmente dentro de sua própria casa.

Desde então, Francis passou a perseguir Caligari e Cesare, tendo certeza de que eles eram os culpados pela morte de seu melhor amigo. A polícia investiga Caligari, mas não obtém provas. Assim, o doutor ordena que seu servo mate Jane, o interesse romântico de Francis. O homem até a captura, mas recusa-se a matá-la, por também estar apaixonado por ela, o que nos rende uma cena sublime, em que a figura enegrecida de Cesare carrega a frágil figura clara de Jane pelos telhados distorcidos da cidade, com a trilha composta por Giuseppe Becce, tocando no último volume, tornando a cena uma visão aterradora e agoniante.

Quando se põe em perspectiva a bizarrice dos cenários, a instabilidade mental dos personagens e sua desproporcionalidade em relação aos cenários, é possível compreender a verdadeira estética do filme, em que nada é o que parece, e todo o mundo parece ter enlouquecido.

Porém, antes da conclusão, somos surpreendidos com uma cena simplesmente inimaginável: Francis, Jane e Cesare em um sanatório, sendo tratados pelo próprio Caligari, indicando que tudo que havíamos visto até ali não passava de uma visão da mente perturbada de Francis, no primeiro grande plot-twist do cinema. Em resumo, foi o primeiro filme que acabou com o famoso: era tudo um sonho. Todavia, essa reviravolta serviu para amenizar a crítica central da trama.

Inicialmente, a ideia do roteirista Hans Janowitz era de fazer uma crítica ao governo da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, com Caligari sendo o líder sem escrúpulos, que se utiliza de um sonâmbulo, seu povo alienado pela ideologia, para cometer assassinatos. Essa lógica reforça-se por meio de falas do próprio Hans:

  • Desde então, nunca confiei no poder sem limites de um Estado desumano, que enlouquece.

O uso de ambientes palpavelmente irreais é a mais marcante de suas características, conversando diretamente com a falta de recursos da época, mas nem de longe é a única inovação trazida pela obra. Wiene introduziu conceitos de suspense psicológico existentes na ficção desde os tempos do dramaturgo Aristófanes, como o Narrador Não Confiável, em que não se pode crer 100% naquilo que vemos em tela, pois a sanidade daquele que nos mostra pode não ser das melhores.

Sua estética e lógica quebradas serviram de inspiração para diretores como Alfred Hitchcock e até mesmo Tim Burton, que criou o visual de Edward Mãos de Tesoura e do Pinguim em Batman: O Retorno, baseando-se nos visuais exagerados e bizarros da obra de Wine. Mais uma vez, o cinema alemão serviu de base para obras ainda mais icônicas na cultura pop.


Metrópolis

O pai da ficção científica! Muitos filmes viajaram para o futuro. O precursor deles foi Metrópolis (1927), de Fritz Lang, que retrata a raça humana em 2026 (vejam só que coincidência), com suas megalópoles ultra desenvolvidas, carros voadores, inteligências artificiais (isso até que acertaram), que soa não somente como um prelúdio de um futuro esperado, como também de um momento em que o povo alemão via a própria imagem no espelho.

Lang inspirou-se não somente nos horrores mecanizados usados contra seu povo na Primeira Guerra Mundial, como também nos imensos arranha-céus que conheceu em Nova York, onde, diante deles, as pessoas pareciam meras formigas. Enquanto a mente do homem era capaz de levá-lo para até além das nuvens, sua realidade o mantinha com os pés bem firmes no chão, em uma eterna corrida de ratos.

A cidade funciona como a própria crítica social que Metrópolis carrega. As classes mais altas vivem em torres luxuosas, a centenas de metros do chão, sendo incapazes de ver onde vivem as classes baixas, vivendo no solo ou até mesmo no subsolo da megacidade, onde nem mesmo a luz do sol é capaz de adentrar. A tecnologia não é vista como benção, mas sim como maldição, uma vez que serve apenas para acentuar o poder daqueles que têm mais sobre aqueles que têm menos.

Para as elites, a própria existência dos mais pobres é desprezível, com a Maschinenmensch (Máquina-Humano) servindo para replicar suas funções e comportamentos, algo que o insano Dr. Rotwang foi capaz de fazer com a protagonista, Maria (Brigitte Helm). Essa cena viria a ser replicada em Frankenstein (1931), um dos maiores clássicos da Universal.

A mecanização criada sob o pretexto de potencializar a capacidade humana e pôr um fim a todos os seus problemas se torna simplesmente uma forma de desumanizar e escravizar ainda mais as massas.

Para criar o visual único da metrópole, Lang trabalhou ao lado de Eugen Schüfftan, pioneiro em efeitos especiais, que foi capaz de buscar referências no expressionismo para criar uma espécie de Manhattan distorcida e ainda mais monstruosa e exagerada. Star Wars e Blade Runner, nascidos apenas nos anos 1970 e 1980, inspiraram seus visuais futuristas e intergalácticos justamente nessa obra, demonstrando o quão à frente de seu tempo ela estava. O próprio droide de protocolo C3-PO foi diretamente inspirado em Maschinenmensch.

A trama acompanha Freder (Rudolf Klein), filho de um poderoso magnata industrial chamado Fredersen (Alfred Abel), que vive completamente alienado em sua vida de riqueza e privilégios, totalmente alheio aos horrores que se desenrolaram nas camadas mais baixas e que permitem seu estilo de vida. Essa ilusão termina quando o jovem conhece Maria, uma operária que apresenta a algumas crianças o estilo de vida da elite. As mãos que constroem conhecendo o cérebro que articula. Freder apaixona-se por Maria e trata de conhecer a realidade vivida por ela nas imensas fábricas na base da cidade, e fica chocado ao ver o quão precárias eram as condições de trabalho. A máquina industrial, que alimenta a cidade com energia, mais parece uma espécie de templo profano, onde os trabalhadores são tragados para seu interior escuro e esfumaçado e têm suas almas sugadas, tornando-se nada mais que engrenagens para a grande máquina que é Metrópolis. O cérebro conhece as mãos que tornam suas pretensões reais.

Por mais que a ideia de Fritz Lang fosse criticar a realidade de seu país e apontar os rumos da humanidade no futuro, ele fez questão de criar um final otimista, em que Freder e Maria, o cérebro e as mãos, o rico e o pobre, poderiam unir-se por meio do amor. Pois não importa o quão diferentes nós possamos ser, ainda somos todos humanos, e sempre haverá algo capaz de nos unificar.

Apesar da recepção morna, o filme não escapou de uma censura forte da Paramount, que distribuía o filme nos Estados Unidos, que reduziu sua duração de 150 para menos de 100 minutos.

O material se originou, passou anos sem ser encontrado, até uma cópia quase completa ser encontrada em Buenos Aires, no ano de 2008. A UFA, órgão interno de censura alemã, seguiu o mesmo modelo de cortes da Paramount, alegando prezar pela rentabilidade e que o filme era longo e confuso demais. Porém, muitos insistem que tais mudanças foram feitas por razões puramente políticas, uma vez que algumas cenas faziam alusão a revoltas comunistas, o que poderia ser perigoso, caso passasse a ser replicado pelos espectadores em meio à realidade instável do país nos anos 1920.

Fato é que Metrópolis foi o marco 0 para um dos gêneros mais queridos e criativos da cultura pop e carrega uma crítica poderosíssima até os dias de hoje, além de, inegavelmente, ter previsto muito do que aconteceria no futuro da raça humana. No quesito importância histórica, é certamente o maior filme do Expressionismo Alemão.


M, o Vampiro de Düsseldorf

Mais um clássico de Fritz Lang, sem o qual jamais conheceríamos Seven, Silêncio dos Inocentes, Psicose e muitos dos slashers que tomariam os cinemas nos anos 1970/1980. Além disso, pode-se dizer que esse foi um dos primeiros filmes de terror a basear-se em fatos reais, uma vez que os crimes do assassino M foram inspirados nos assassinatos cometidos por Peter Küerten.

Küerten foi um assassino em série, culpado por múltiplos assassinatos e agressões sexuais na cidade de Düsseldorf em 1929, sendo capturado e condenado à morte na guilhotina em 1931. Durante seu tempo em atividade, a imprensa o nomeou como “Vampiro de Düsseldorf”.

Na obra, os crimes do assassino Beckert (Peter Lorre) são, muitas vezes, deixados apenas subentendidos, sem mostrar a violência de forma explícita, o que nos rende uma verdadeira aula de tensão. Logo no primeiro crime, o vilão acompanha uma garota que jogava bola na rua. Antes que possamos ver o que aconteceu, o foco passa para a mãe da menina, esperando-a em casa, enquanto tudo que nos remete à criança é mostrado de maneira sombria. Por fim, no local onde antes ela estava, restava apenas sua bola.

O rosto do assassino permanece oculto até o final, com ele permanecendo sempre de costas ou oculto nas sombras. Lang muitas vezes muda de foco, mostrando o desespero da população e das autoridades em capturá-lo, mostrando o quão grande é o poder do medo, sendo ele capaz de fazer com que uma cidade inteira fique em alerta.

Diante da falha da polícia em capturá-lo, um bando de marginais reúne-se para fazer justiça com as próprias mãos, e o faz, matando Beckert por quebrar as regras do submundo, mostrando que, mesmo entre criminosos, existe honra.

O mais curioso é o fato de que o assassino não possui uma aparência “ameaçadora”, servindo como extremo oposto ao Nosferatu de Murnau. O vampiro é um homem comum, que facilmente poderia enganar uma criança ou passar totalmente despercebido em uma lista de suspeitos, um medo mais real.

Apesar de ser o primeiro filme falado de Lang, o diretor faz bom uso do silêncio na construção da tensão, que chega ao seu ápice quando o assassino passa a assobiar, algo que lhe é característico quando está prestes a atacar. Essa é, até hoje, considerada a primeira “trilha de personagem” do cinema de terror. Se Jason, Michael Myers e Freddy Krueger receberam suas próprias e icônicas trilhas sonoras, certamente devem a esse filme.

Por incrível que pareça, a obra de Fritz Lang, que futuramente seria obrigado a fugir para os EUA após negar o pedido dos nazistas para liderar a UFA, foi grandemente elogiada por Joseph Goebbels, que disse o seguinte sobre o filme:

  • "Fantástico! Contra o sentimentalismo humanitário. Em defesa da pena de morte. Bom trabalho. Lang será nosso diretor um dia."

Como podemos ver, o nazista não compreendeu muita coisa do que o filme realmente queria tratar, mas não dava para se esperar muito…

M é sem dúvida um dos maiores clássicos do cinema alemão, sendo tido por seu diretor como a melhor de suas obras.


Aurora

Se em Nosferatu, F.W. Murnau utilizou a música como instrumento de terror, em Aurora (1927), ele a usou para dar vida a um amor intenso e, ao mesmo tempo, mortal.

A trama segue um fazendeiro (George O'Brien) tentado por uma vampiresca mulher da cidade (Margaret Livingston) a afogar sua esposa (Janet Gaynor), mas ele desiste e ela foge para a cidade, sendo seguida pelo marido para provar seu amor, resultando em uma jornada de reconciliação e redenção que explora o conflito entre o campo e a vida urbana, com tons de expressionismo alemão e forte simbolismo visual, sendo um marco do cinema mudo.

A Mulher da Cidade é retratada como a encarnação do pecado, demonstrando fragilidade e carinho pelo Fazendeiro, recostando-se em seu ombro enquanto lhe pede para matar sua própria esposa, para que possam viver juntos, como um demônio espreitando alguém, buscando levá-lo ao abismo.

Aurora é como uma montagem do melhor que o cinema mudo tem a oferecer, um carrossel cintilante de melodrama, suspense, pastelão, romance e tragédia. Infelizmente, esse foi o último filme de Murnau, que faleceu em 1931, em um acidente de carro.

Felizmente, o longa-metragem faturou 3 Oscar, nas categorias: Melhor Atriz (Janet Gaynor), Melhor Cinematografia e Melhor Produção Artística, sendo um dos filmes mais premiados da história do cinema alemão.

Tragicamente, o Expressionismo Alemão foi enterrado pelas medidas cada vez mais rígidas do regime nazista, que passou a censurar cada vez mais qualquer obra considerada dissidente, ocasionando a conhecida “fuga de talentos” da Alemanha para Hollywood, a exemplo de Fritz Lang, Otto Preminger, Max Ophuls, Douglas Sirk, Paul Henreid, Conrad Veidt, S.Z. Sakall, Billy Wilder e Peter Lorre.

Desde então, apenas filmes passivos à ditadura seriam acatados, e produções com viés nacionalista e pró-regime seriam incentivadas. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, o cinema alemão ganhou um novo ar, especialmente no lado ocidental de Berlim, rendendo clássicos como Alemanha, Ano Zero (1948), O Enigma de Kaspar Hauser (1974), O Tambor de Lata (1979), Asas do Desejo (1987), Adeus, Lenin! (2003) e A Vida dos Outros (2006).

Isso nos mostra que a Alemanha vai muito além do Expressionismo, mas que esse movimento incrível foi vital para moldar as bases do cinema de terror, ficção científica e romance, com o país sendo dominante na sétima arte nos anos 1920/1930. Para não deixar dúvidas do tamanho da Alemanha nos cinemas, confira todas as principais premiações faturadas pelo país:


História III

Em 1919, ainda nas cinzas da guerra, surgiu o DAP (Partido dos Trabalhadores Alemães), pelas mãos do militante nacionalista Anton Drexler. Porém, seu ideólogo seria, na verdade, o jornalista Karl Harrer, que pregava o antissemitismo, anticomunismo e o nacionalismo extremo. Seu membro mais famoso, o fracassado pintor austríaco Adolf Hitler, filiou-se apenas em setembro daquele ano, e rapidamente subiu em sua hierarquia, devido à boa retórica.

Um ano depois, o partido mudaria de nome para: Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Em 1923, Hitler e seus asseclas tentaram um golpe de Estado na Putsch da Cervejaria e fracassaram miseravelmente, com Hitler acabando na prisão por nove meses. Em seu tempo encarcerado, escreveu um dos livros mais amaldiçoados da história: Mein Kampf. Naquelas páginas, ele começou a criar os inimigos públicos aos quais iria imputar a culpa de todos os fracassos do país: judeus, ciganos, comunistas…

A base de toda sua ideologia repousava-se sob a distorção de uma antiga crença germânica, que já foi citada aqui: o arianismo.

O arianismo, tal como utilizado na ideologia nazista, foi uma construção pseudocientífica que distorceu conceitos históricos e linguísticos para criar a base do racismo de Hitler. Originalmente, o termo "ariano" referia-se a um grupo linguístico de povos indo-iranianos que viveram na Ásia Central entre 1800 e 1500 a.C. No entanto, teóricos raciais do século XIX, como Arthur de Gobineau, deturparam esse termo, transformando um grupo cultural em uma "raça superior" de sangue puro, supostamente germânica.

Após sua libertação, ele passou a propagar o livro, e sua ideologia ganhou cada vez mais força, em especial, graças à ajuda de Joseph Goebbels, a mente maligna por trás da propaganda nazista, a quem ele havia conhecido em 1925. Apesar de votações inicialmente enxutas, o Partido Nazista gradualmente ia se transformando em mais do que um mero coadjuvante no cenário político alemão.

Em 1928, os nazistas possuíam apenas 12 cadeiras. Após a quebra da Bolsa de Wall Street, saltaram para 107 em 1930, com Joseph Goebbels aproveitando-se da crise para transformar Hitler em uma espécie de salvador da pátria. Em 1932, o partido torna-se absolutamente o maior do país, e um ano depois, o presidente Paul von Hindenburg nomeou Hitler chanceler da Alemanha. Dali para frente, foi só para trás.

Empossado como premiê italiano pelo Rei Victor Emmanuel III em 1922, Benito Mussolini já havia se consolidado no poder na Itália, como líder supremo do Partido Fascista, de quem Hitler passou a se aproximar, devido ao encontro de suas ideologias. Ali, as bases do Eixo passaram a se forjar.

Porém, Adolf ainda não tinha o poder absoluto. Isso viria a acontecer em 27 de fevereiro de 1933, precisamente após as 21:00, quando o Reichstag, prédio central do parlamento alemão, foi queimado. Historiadores creem fortemente que o atentado foi cometido pelos próprios nazistas, apesar de não haver certeza absoluta.

Logo no dia seguinte, Hitler afobou-se em pôr a culpa do crime no Partido Comunista Alemão, banindo-o definitivamente do país, acabando assim com a única oposição que poderia impedi-lo de ter maioria no parlamento.

No ano seguinte, Hindenburg morreu, e Hitler uniu os cargos de Chanceler e Presidente em um único, autoproclamando-se o Fuhrer da Alemanha. Com esse poder, ele destruiu a democracia de seu próprio país.

Ainda em 1934, Hitler daria um fim definitivo a seus opositores na Noite das Facas Longas, onde forças da SS, lideradas por Heinrich Himmler, prenderam ou executaram líderes das SA contrários a Hitler, demonstrando como a oposição seria tratada a partir daquele momento.

A perseguição aos judeus seguiu forte, especialmente por meio da propaganda elaborada por Goebbels, que os tratava como seres deformados e sub-humanos. O auge dessa desumanização foi a Noite dos Cristais, onde a SA e até mesmo alguns civis realizaram múltiplos ataques em estabelecimentos e lares de judeus. 250 sinagogas foram incendiadas, 7500 lojas destruídas, 30 mil judeus foram presos e mais de 90 foram assassinados.

Esse foi apenas o início da perseguição brutal dos nazistas aos judeus, que durou até o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Campos de concentração como Auschwitz serviram de prisão para mais de 1,3 milhão de pessoas e também foram o local da morte de quase todas elas. O Holocausto, dito como a “Solução Final” pelos nazistas, assassinou entre 11 e 17 milhões de pessoas, entre elas, seis milhões de judeus, sendo esse um dos maiores crimes contra a humanidade já cometidos, e o capítulo mais vergonhoso da história alemã.

Hitler já tinha a lealdade (ou o medo) de boa parte do povo alemão, já havia concentrado todos os poderes possíveis em suas mãos, e já havia firmado suas alianças com Itália, Japão e URSS (a quem ele futuramente trairia). Por mais que apaziguadores britânicos e franceses tentassem freá-lo, eles bem sabiam que estavam negociando com um tigre, com a cabeça na boca dele, como diria Winston Churchill.

Assim, em 1 de setembro de 1939, forças alemãs e soviéticas invadiram em conjunto a Polônia, conquistando-a em apenas 35 dias.

Usando-se da Blitzkrieg, doutrina militar alemã de ataque rápido e coordenado, usando forças móveis como tanques (Panzers), infantaria motorizada e apoio aéreo para romper defesas inimigas, a Alemanha obteve vitórias rápidas e devastadoras contra Holanda, Bélgica e até mesmo a França, sendo detida apenas na Batalha de Londres (1940), onde a RAF (Força Aérea Real) derrotou a Luftwaffe, tornando inviável a invasão anfíbia pretendida por Hitler. Qualquer acordo de paz entre Reino Unido e Alemanha tornou-se impossível com a chegada de Winston Churchill ao poder, que contava com pleno apoio do Rei George VI, e impôs uma resistência ferrenha aos nazistas, estreitando suas relações com os EUA, que passaram a ajudar os britânicos por meio do Lend Lease.

Começando a agir de maneira cada vez mais irracional, Hitler decidiu então voltar a maior parte de suas forças, que naquele momento já lutava na Europa Ocidental e África, para executar a maior invasão terrestre da história: a Operação Barbarossa, contra a sua até então “aliada”, URSS. Líderes militares viam aquilo como uma insanidade, uma vez que o território de Stalin era colossal, e seu exército simplesmente imbatível numericamente. Uma vitória rápida era quase impossível, e caso se prolongasse, a indústria mais poderosa venceria, e sem dúvida, não seria a alemã.

Com a entrada dos EUA na guerra após o ataque japonês à base naval de Pearl Harbor, a situação alemã tornou-se insustentável. Por mais que conseguissem múltiplas vitórias no front soviético, o Exército Vermelho e a população mostravam-se resilientes, e o clima, extremamente hostil. Após a Batalha de Stalingrado (1942-1943), os nazistas já haviam perdido mais de 800 mil soldados, e seus recursos estavam por um fio.

Após o desembarque Aliado na Normandia em 1944 (o famigerado Dia D), Hitler viu suas forças serem esmagadas por ambas as frentes, levando à inevitável derrota do Eixo logo no ano seguinte. Antes que os soviéticos tomassem Berlim por completo, Hitler, Goebbels e outros nomes importantes do partido nazista se suicidaram.

Em 8 de maio de 1945, o Marechal de Campo Wilhelm Keitel assinou a rendição alemã, dando um fim definitivo ao conflito em solo europeu, após mais de 70 milhões de mortes.

Desde então, Berlim foi repartida em quatro blocos de influência: estadunidense, britânico, francês e soviético, e estava fadada a se tornar o palco da maior disputa ideológica da história humana: a Guerra Fria…

As discordâncias tiveram início logo após a ocupação, e atingiram seu auge em 1948, quando Berlim passou perto de tornar-se palco de mais uma guerra mundial. O Presidente dos EUA, Harry Truman, havia dado início a Doutrina Truman, com intuito de frear o expansionismo comunista. Junto a isso, também nasceu o plano Marshall, direcionando 13 bilhões de dólares (cerca de 151 bilhões nos dias de hoje), para a reconstrução da Europa e Ásia devastadas pela guerra, sendo cerca de 1,5 bilhão desse valor, direcionado à Alemanha. Um processo de desnazificação se desenrolava na ocupação ocidental, que começava a se desenvolver rapidamente.

Todavia, algo muito diferente acontecia no lado oriental, comandado pela União Soviética de Stalin. Os soviéticos vinham tomando a Europa Oriental de assalto, abolindo todo e qualquer partido não comunista nesses países, e pondo sobre eles a sua influência, e com seu lado da Alemanha, não seria diferente. Tendo em vista a resistência do povo aos ideais comunistas, Stalin decidiu destruir suas linhas férreas, estradas e comunicações, isolando mais de 2,5 milhões de habitantes, ameaçando matá-los de fome, caso não se rendessem a sua ideologia.

Os Aliados ocidentais não enfrentaram Stalin diretamente, temendo que isso pudesse desencadear outro conflito global, preferindo enviar alimentos através de suas forças aéreas, realizando mais de 240 mil missões entre 1948 e 1949. Percebendo seu fracasso, Stalin desfez o bloqueio, mas, não havia perdido o interesse em manter o lado oriental de Berlim sob sua influência. Assim, um povo foi partido ao meio, dando origem à Alemanha Ocidental, democrática e sob influência capitalista, e a Alemanha Oriental, uma ditadura comunista, sob influência soviética.

Doze anos se passaram, e um cenário muito claro vinha se formando: milhares de alemães orientais fugiam dia após dia para o lado ocidental, inclusive especialistas como médicos e engenheiros. O que os orientais chamavam de “sangria demográfica”, estava levando sua economia à ruína, com mão de obra especializada deixando o país por falta de oportunidades, e não era para menos. A Alemanha Oriental tinha uma produção 40% menor que seu vizinho, e quase a metade da renda Per Capita. Mais uma vez, o modelo de economia estatizada levou um país ao ostracismo econômico, falta de liberdade e escassez de recursos, enquanto seu vizinho, prostrava-se entre as dez maiores economias do mundo.

Walter Ulbricht, na época Presidente da Alemanha Oriental, autorizou a construção do Muro de Berlim, rasgando o coração da Alemanha ao meio, separando amigos, famílias e culturas, em nome de uma disputa ideológica, que agora, eles eram o grande palco. Por mais que isso tenha reduzido a fuga de cidadãos, foi um golpe duríssimo contra a imagem oriental, com a imprensa ocidental usando as massas tentando escalar o muro para o seu lado, como símbolo máximo da repressão comunista.

Isso não impediu que dezenas de milhares de pessoas conseguissem escapar entre 1961 e 1989, utilizando-se desde aviões e túneis, até balões e asas-delta (acredite se quiser). Infelizmente, 140 pessoas morreram pelas mãos de soldados orientais, enquanto tentavam a travessia.

Mesmo com a repressão, milhões de pessoas se uniram contra a tirania soviética, dentro e fora da Alemanha. Na Polônia, a ditadura comunista que perdurava 45 anos, caiu, graças aos esforços principalmente do sindicato Solidariedade, e apoio externo do Papa João Paulo II. Dois milhões de pessoas se uniram na Lituânia, Estônia e Letônia para enfrentar o domínio vermelho. Por todos os cantos, o comunismo perdia força. A Hungria abriu suas fronteiras, recebendo milhões de alemães orientais vindos da Áustria. Vozes por toda a Europa pediam por uma só coisa: liberdade.

A própria União Soviética se via em meio a um colapso interno, com economia estagnada e corrupção sistemática. Em meio ao caos, Mikhail Gorbachev recusa-se a usar o poder militar para suprimir insurreições em países satélite. Sem escolha, o governo oriental liderado na época por Erich Honecker, suspendeu as restrições de viagem aos cidadãos, e orientou os guardas a não impedirem a passagem das massas pelo muro. De ambos os lados, o povo alemão passou a bater nos mais de 1,5 metro de espessura de concreto e aço que os dividiram, com até mesmo soldados orientais e ocidentais ajudando na tarefa, e no dia 9 de novembro de 1989, o Muro de Berlim foi ao chão, e após 75 anos, a Alemanha estava reunificada e em paz novamente. Nem mesmo guerras ou disputas ideológicas foram capazes de destruir a unidade do povo alemão.

Nos dois dias seguintes, três milhões de pessoas cruzaram a fronteira do lado oriental para o ocidental, simbolizando a derrota definitiva da URSS na Guerra Fria, que foi oficialmente encerrada em 3 de dezembro de 1989, junto aos EUA.

A Alemanha reunificada, agora seria vista como um país de desenvolvimento, riqueza e estabilidade, dando um fim às décadas de disputa e guerra que a permeavam desde a decisão tomada por Guilherme II em 1 de agosto de 1914.


Uma Nação e Sinfonias:

A música alemã possui uma das tradições mais ricas e influentes do mundo, moldada por séculos de evolução, abrangendo desde composições clássicas complexas até a música popular folclórica (Volksmusik) e moderna. A sua origem remonta à Idade Média, com os poetas cantores, e consolidou-se como potência cultural na música clássica, Barroca e Romântica.

Não podemos nos esquecer, das músicas tradicionais de celebrações como a Oktoberfest, que têm suas origens enraizadas na cultura popular bávara e germânica, com muitas delas consolidando-se ao longo dos séculos XIX e XX, evoluindo de marchas militares e músicas folclóricas ("Volkslieder") para o som característico de bandas de metais ("Oompah"). A Oktoberfest em si surgiu em 1810, em Munique, para comemorar o casamento do príncipe Luís (futuro rei Luís I) com a princesa Teresa de Saxe-Hildburghausen.

No entanto, o maior expoente da música alemã viria a nascer somente em 1770, em Bonn, e estaria destinado a tornar-se o maior ícone da música clássica, com suas sinfonias servindo de inspiração muitas das trilhas mais lendárias da cultura pop desde o Bebê de Rosemary (1968) até Laranja Mecânica (1971), é claro que não poderíamos estar falando de outro gênio musical, senão Ludwig van Beethoven.

Por mais que seu incontestável parecesse ser um dom inerente a ele desde o nascimento, Ludwig recebeu uma educação extremamente rígida de seu pai, Johann, que também foi músico, e deseja que seu filho se transforma-se no “novo Mozart”. Podemos dizer que ele conseguiu. Esse treinamento intenso, lhe fez exímio como pianista e compositor desde a infância.

Em 1792, Beethoven mudou-se para Viena, onde passou a ser instruído por um dos maiores mestres de seu tempo: Joseph Haydn. Ao seu lado, Ludwig ficou notório entre a elite, que rapidamente notou sua incrível habilidade com o piano. Mas, aos 26 anos, uma adversidade física viria a pôr tudo que ele havia conquistado em xeque: a perda de sua audição.

Na época, o artista chegou a escrever o Testamento de Heiligenstadt, onde confessou ter desejos suicidas, por começar a se sentir incapaz de praticar aquilo que fazia sua vida ter sentido: a arte. Era como um um artesão que havia perdido as mãos, como um pintor que havia ficado cego. Mas, a mesma arte que ameaçava pôr fim a sua vida, foi justamente o que lhe deu razão para continuar, pois sua paixão por ela era tamanha, que nem mesmo a perda de sua capacidade de ouvi-lá poderia detê-lo.

Incrivelmente, muitas de suas melhores obras surgiram justamente depois que sua audição o deixou. Confira alguns clássicos:

🎵 5ª Sinfonia

🎵 9ª Sinfonia (Ode à Alegria)

🎵 Sonata ao Luar

🎵 Appassionata

🎵 Missa Solemnis


Isso não apenas prova que uma deficiência não significa o fim da capacidade de realizar seus sonhos, como também, mostra que em certos casos, pode até mesmo ampliar suas capacidades. É dito que Ludwig era capaz de sentir as vibrações sonoras, para compreender o som por meio delas. Simplesmente fantástico.

Beethoven mostrou que a arte é muito mais que belos acordes, é a alma falando por meio do som. Cada nota, era um grito de algo incrustado em seu âmago. Sem uso da força, a música fazia o corpo balançar.

Infelizmente, o final de sua vida foi um tanto melancólico, solitário e muito doente, Ludwig van Beethoven faleceu em 1827, em Viena, reunindo mais de 20 mil pessoas em seu funeral, algo raríssimo na época.

Beethoven marcou para sempre a história da música, sendo considerando a ponte entre duas eras da primeira arte. Abaixo, confira uma coletânea de suas melhores sinfonias:


A música de orquestra seguiu popular no país, sendo ainda mais fortalecida no expressionismo alemão, onde a carga emocional e dramática tinham grande valor. Mas, um momento verdadeira revolucionário na música alemã, nasceria nos anos que se seguiram após a Segunda Guerra Mundial.

A entrada da Alemanha na Era da Música POP, a partir dos anos 1970, não foi apenas um movimento de adaptação, mas de transformação. Enquanto o mundo ainda via a música eletrônica como experimental, grupos como o Kraftwerk converteram máquinas em linguagem pop, criando a base do synthpop, do techno e de grande parte da música dançante que dominaria as décadas seguintes. A Alemanha deixou de ser espectadora das tendências anglo-americanas para se tornar uma de suas principais arquitetas.

Nos anos 1980, essa herança se consolidou no mainstream com a Neue Deutsche Welle, movimento que uniu eletrônica, estética pop e refrões universais. Bandas como Nena, Alphaville e Peter Schilling provaram que o pop alemão podia ser exportável, moderno e emocionalmente conectável. O Alphaville, surgido em 1982, é um símbolo perfeito dessa virada: ao transformar sintetizadores em canções atemporais como Forever Young (que todos devem conhecer graças aos 500 trilhões de edits no Tik Tok com essa música) e Big in Japan, o grupo ajudou a colocar a Alemanha no centro do pop global.

Brincadeiras a parte, vale ressaltar como Forever Young parece ser um hino de unificação do país, uma música esperançosa ao mesmo tempo que trágica, que conversa como uma nação que viveu por séculos a beira do abismo, e mais de uma vez, olhou para ele, mas, perseverou, apesar das guerras, líderes genocidas e opressões externas.

A cultura pop alemã, é e sempre foi o reflexo direto de sua história, servindo como representação, escapismo e até mesmo crítica à fase que ela vivia em cada momento. Com tudo que aprendemos, podemos perceber que a Alemanha é muito mais que guerras e chucrute, é um povo forte, criativo e perseverante, que assim como muitos outros, foi usado como massa de manobra por homens loucos por poder, mas, que sempre soube se reinventar. Para concluir, fiquem com a lista das melhores bandas e músicos alemães, e o clipe de Forever Young, para fechar com chave de ouro essa trajetória por mais de 2 mil anos de história! Não se esqueça de compartilhar a publicação e seguir atento para mais conteúdos!