A Última Caçada de Kraven: Uma Ópera de Três Animais

Em The Amazing Spider-Man #15 (1964), o recém-criado Amigão da Vizinhança conheceu um de seus maiores inimigos: Kraven, o Caçador. Sergei Kravinoff, descendente da arruinada aristocracia russa, tinha na caça praticamente a única motivação de sua vida, a única coisa que o lembrava de seu passado glorioso, que o fazia honrado e digno. Ele viajou o mundo, abateu todo tipo de fera, não apenas para colecionar suas peles e cabeças em sua imensa mansão, mas para fazê-las parte de si. Para caçar um leão, não bastava uma boa mira, era preciso conhecê-lo, física e mentalmente, e, em alguns aspectos, até mesmo pensar como ele. Para ser o caçador, era preciso se pôr no lugar da caça. Ao descobrir a existência do Homem-Aranha por meio de seu meio-irmão, Camaleão, Kraven tomou para si a missão de caçá-lo e pôr sua máscara no topo da sua coleção. Desde o princípio, Kraven via o Homem-Aranha de maneira diferente de qualquer outro de seus inimigos: nem um herói, nem um homem, mas um majestoso e fascinante animal, o maior desafio da sua vida. Como sempre, ele se preparou. Analisou os poderes, a técnica, o raciocínio, a ponto de não haver nada que o herói pudesse fazer para surpreendê-lo. Os anos de experiência o fizeram arrogante. Com a ajuda do Camaleão, Kraven droga Peter e utiliza armadilhas para tentar capturá-lo, mas nem mesmo todo o seu preparo foi páreo para o poder do Homem-Aranha, que superou todas as suas artimanhas e, em um confronto direto, o derrotou, apresentando-lhe um sentimento que até então ele não havia conhecido: o fracasso. Com o ego ferido, Kravinoff tentou mais e mais vezes matar o Aranha, mas, vez após vez, falhou. Gradualmente, o Cabeça de Teia deixou de ser apenas mais uma presa e se tornou uma verdadeira obsessão. Ele estava convencido de que nenhum homem poderia ser capaz de humilhá-lo tantas vezes seguidas. O Homem-Aranha era definitivamente uma criatura, quase uma entidade, um reflexo dos fracassos de sua família e dos seus. Mesmo com o peso dos anos punindo sua carne e enfraquecendo seus ossos, ele se prendeu à vida de todas as maneiras possíveis, com ervas, drogas, rituais, tudo que lhe desse mais tempo para destruir seu maior inimigo e, assim, libertá-lo dessa interminável caçada. A Última Caçada de Kraven (1987), escrita por J. M. DeMatteis e desenhada por Mike Zeck e Bob McLeod, é certamente uma das HQs mais lendárias do Homem-Aranha, estando sempre entre as mais referenciadas da carreira do herói. A trama psicológica e visceral nos apresenta o lado humano de Peter, o lado animal de Kraven e um meio-termo entre os dois extremos: Rattus, o monstruoso vilão criado por DeMatteis e Zeck seis anos antes, em Captain America #272, e que dá à narrativa momentos dignos de um filme de terror. Mas como essa HQ conseguiu costurar as trajetórias de um herói pressionado, um vilão delirante e uma fera incompreendida? É isso que vamos discutir hoje!

MARVEL E DC

Rafael Silva

9/15/20268 min read

Homem-Aranha

(Créditos: Marvel Comics/Plano Crítico)

Casado com Mary Jane desde The Amazing Spider-Man Annual #21 (1987), Peter Parker praticamente não teve tempo de celebrar. Como sempre, suas obrigações como super-herói se sobrepuseram à sua vida pessoal: MJ, Tia May, seu emprego, tudo ficava em segundo plano quando seu sentido-aranha era acionado.

Todavia, não eram apenas as obrigações que o distanciavam de Peter Parker. As mortes de Ben Parker, George e Gwen Stacy e, mais recentemente, Ned Leeds, tornaram o mundo de Peter cada vez menor. Amigos, família, amores, parecia que, sempre que ele tentava se abrir para essa vida, mais pessoas eram arrancadas dela.

Talvez ser o Homem-Aranha não fosse somente um dever, como também uma forma de fechar os olhos, mesmo que por um instante, para o quão difícil sua vida por trás da máscara poderia ser. Pelo menos como o aracnídeo, sua lista de conhecidos apenas aumentava. O problema é que a maioria desejava matá-lo.

Diferente do de Parker, o mundo do Homem-Aranha era muito mais amplo, mas isso não necessariamente era algo bom. Para além da perseguição ferrenha da polícia e da imprensa liderada por J. J. Jameson, o Aranha era temido principalmente pelos criminosos, que o viam quase como um ser mitológico.

Mesmo vivendo sempre no limite que seu corpo e sua mente eram capazes de suportar, os valores de Peter sempre se sobrepunham ao seu poder ou à sua frustração, diferenciando-o sempre daqueles que enfrentava.

Isso se prova logo no início da HQ, quando o herói vai ao enterro simples de Joe Face, apresentado em Marvel Team-Up #131 (1983) como um criminoso insignificante de Nova York e, por vezes, informante do aracnídeo.

O herói irrompe no funeral repleto de criminosos, não para prendê-los ou desrespeitar o morto, mas para dar dinheiro para que tivesse um enterro digno.

“Claro, seria ótimo se, vestindo uma fantasia, a gente pudesse milagrosamente transformar o homem sob a roupa. Só que não dá. Eu não sou o Homem-Aranha. Eu sou Peter Parker. E por isso me importo.”

O Homem-Aranha podia tê-lo tido como inimigo, mas não Peter Parker. O rosto poderia ser do mito, mas o coração sempre seria o do homem.

Essa verdade se repete novamente na trama, logo após a armadilha de Kraven e a suposta morte do Homem-Aranha. O Cabeça de Teia é drogado e enterrado pelo caçador, que toma seu traje e passa a agir em seu nome, de maneira a não só derrotá-lo fisicamente, mas mostrar-se melhor que ele em seu próprio jogo e, claro, destruir ainda mais sua imagem pública no processo.

Soterrado, o Homem-Aranha luta para recobrar a consciência, preso em seus próprios devaneios. Nessas ilusões, ele vê Peter Parker, nu, pequeno, cercado pelo mais absoluto nada, que rapidamente se preenche com aranhas. Elas o cercam e tomam a forma de um espécime ainda maior, que começa a devorá-lo. O animal estava definitivamente consumindo o humano por completo.

Aquele poder o aterrorizava, desfigurava sua alma, e não bastava para libertá-lo. Lembrando-se de MJ e May, Peter escapa de seu algoz e arrasta-se por um escuro túnel rumo à liberdade, movido não pela força do Homem-Aranha, mas pelo sentimento de Peter Parker por aqueles que amava.

“Ser Peter Parker… Essa é a minha força.” E é movido por essa força que ele escapa, veste seu traje e vai em busca de Kraven. No caminho, ele captura dois dos seguranças do vilão, interrogando-os e descobrindo mais sobre o plano insano do caçador. No processo, o herói nos dá mais uma fala reveladora:

“Olhe só para eles, estão aterrorizados. Pensam que vou matá-los. E uma parte de mim quer isso. Quer estraçalhar os dois até entregarem o maldito… Mas é uma parte bem pequena.”

Assim como Kraven e Rattus, Peter tinha, sim, um lado animal, selvagem e agressivo, condizente com o predador urbano que Kraven e boa parte do submundo do crime de fato pensavam que ele fosse. Todavia, essa característica jamais definiu o seu todo e, nos momentos derradeiros, a voz de Peter ainda falaria mais alto.

Kraven

(Créditos: Marvel Comics)

Sabendo que sua morte estava próxima, Kraven decide dar sua última cartada contra o Homem-Aranha. Matar sua carne não serviria, ele precisava destruir o que ele é, provar para si mesmo que foi capaz de derrotá-lo de todas as maneiras possíveis. E assim ele o fez.

No entanto, a mente do caçador estava à beira de um colapso. Em diversas visões, ele via o Homem-Aranha como uma entidade, um monstro que assolava sua mente e conduzia o seu destino.

Ele então tentou se tornar seu avatar. De comportar-se e movimentar-se igual ao Aranha até comer insetos vivos (o que é bem nojento, por sinal), Kravinoff faz de tudo para tornar-se “A Aranha”, deixando seu nome e seu legado para trás.

Logo após conseguir capturar o Cabeça de Teia, Kraven passa a se vestir como ele e começa a combater o crime à sua maneira. Coitados dos criminosos que cruzaram seu caminho.

Logo em sua primeira missão, ele resgata Mary Jane de uma dupla de agressores, espancando-os impiedosamente. Apenas ao vê-lo agir, MJ teve certeza: ele não era o Homem-Aranha.

Mesmo passando longe de ser tão íntima dele quanto sua esposa, a polícia não tardou a chegar à mesma conclusão que ela. Dezenas de criminosos internados, outros mortos, todos pelo mesmo vigilante. Mesmo que o desprezassem na maior parte do tempo, todos tinham certeza: esse não é o Homem-Aranha.

Kraven poderia ser mais forte, mais eficiente, mas jamais seria melhor que o Homem-Aranha, pois os valores sempre seriam o fator de maior peso na soma do heroísmo. Porém, o caçador jamais foi capaz de compreender isso. Ele agia puramente como um animal caçando suas presas, deixando de lado por completo seu lado humano. Isso não bastava.

Sem o homem por trás da máscara, ele jamais seria o Homem-Aranha.

Seguindo sua cruzada, ele encontra e captura o vilão Rattus, totalmente sozinho, diferente do verdadeiro Homem-Aranha, que precisou da ajuda do Capitão América para vencê-lo. Mas, diferente deles, Kraven não teve misericórdia, espancando-o e torturando-o sem hesitar. Sejam com homens, sejam com monstros, piedade não fazia parte do seu vocabulário.

Rattus

(Créditos: Marvel Comics)

Nascido Edward Whelan, Rattus foi vítima de um dos experimentos mais cruéis da Hydra, conduzido pelo Barão Zemo. Ao final dele, um simples homem se transformou em uma fera abominável, meio homem, meio rato, alvo do desprezo e do pavor de todos.

Incapaz de viver à luz do mundo, Rattus abraçou a escuridão e a sujeira dos esgotos, aceitando seu lugar nas sombras, onde as pessoas poderiam negar sua existência.

No entanto, era impossível negar a sua fome. De tempos em tempos, ele vinha à superfície, sempre à noite, de preferência coberta pela chuva, e alimentava-se dos seres humanos. Quando o sol retomava o seu posto, Rattus retornava ao seu reino, vendo na luz um lembrete do que o mundo exterior havia feito a ele. Mas, lembrando-se de que um dia havia sido um homem, Whelan recordava-se apenas da dor que sentiu sendo um deles.

Guardadas as devidas proporções, ele representa um paralelo entre Kraven e Homem-Aranha: a mente bestial de um e os dons do outro e, curiosamente, ele é justamente o elo entre os dois no terceiro ato.

Seguindo o rastro de Kraven, o Homem-Aranha o encontra junto a Rattus, convidando-o a um último desafio. Recusando-se a lutar, o vilão liberta Rattus e faz com que o herói o enfrente nas mesmas condições que ele.

Conhecendo o homem por trás do monstro, Peter inicialmente evita atacá-lo, reagindo somente quando se vê encurralado pelo assassino. Nesse momento, ele desconta seu ódio, esmurrando-o com toda a força, usando todo o poder que a Aranha lhe deu. Mas, quando se lembra de Peter Parker, ele para, e é nesse momento que Rattus reage, ferindo-o. Parker só não é morto por intervenção de Kraven, que lança uma lâmina na mão do mutante antes que ele pudesse rasgar seu nêmesis.

Para Kraven, essa deveria ser a prova final: ele era, sem sombra de dúvidas, superior ao Homem-Aranha. Completamente livre de quaisquer amarras morais, sem fraquezas e sem limites.

Entretanto, seu olhar havia mudado, sua Aranha havia ido embora. Ele ajuda o Homem-Aranha a se levantar e jura que nunca mais iria cruzar seu caminho, deixando o herói perplexo. Mas Kraven não o via mais com ódio, mas com admiração. Ele podia ver o animal e o homem agindo ao mesmo tempo, e isso foi decisivo para que ele entendesse que todos tinham uma “Aranha”, um lado selvagem que, por vezes, poderiam abraçar. Mas ele havia se jogado. Ele então a enfrentou, achou tê-la dominado e, então, apenas o homem restou.

Porém, sem o animal, parecia não ter lhe restado nada.

Quando Peter o deixou e retomou sua caça a Rattus, Kraven tomou sua última decisão antes de dar um fim a si mesmo. Ele pegou um papel e confessou todos os crimes que havia cometido em nome do Homem-Aranha. Ele definitivamente não era o Homem-Aranha, jamais poderia ter sido. Ele era Kraven, e sempre foi, e somente ele era responsável por seus atos. Ele poderia ter feito de seu legado uma mácula irreparável na carreira do vigilante, mas não o fez em respeito a ele, mostrando que, por debaixo da brutalidade do animal, a honra e a dignidade do aristocrata ainda viviam.

Foi então que ele disparou contra si mesmo, deixando que Peter lidasse com sua própria Aranha e que sua fúria fosse aplacada por aqueles que ainda vivessem.

Enquanto isso, o Homem-Aranha continua sua caçada. Chegando aos esgotos, ele se vê novamente preso na escuridão, e o medo do homem o pede para sair, para voltar para os braços de sua esposa em segurança, mas a vontade do animal o mantém firme em sua missão, independentemente de seu sentimento.

Ele novamente enfrenta um duelo duplo: contra Rattus e contra si mesmo. Controlando sua fúria, ele captura o vilão e tenta fazê-lo ouvir a humanidade que ainda vive em seu interior. No entanto, Rattus estava totalmente consumido pelo medo. Seus instintos lhe disseram mais de uma vez que a luz era algo ruim, que trazia somente a dor. Não importava a lógica, o passado ou as palavras, ele permaneceria em segurança.

Inteligentemente, Peter o provoca, fazendo-o persegui-lo até as ruas, onde os raios de sol tocam seu rosto. Sem identidade, sem um espírito que o guiasse, o animal é completamente consumido pelo pavor, berrando em desespero. É então que, de maneira nobre, o Homem-Aranha o resgata, deixando-o nas mãos da polícia e prometendo-lhe ajuda por meio de Reed Richards. Até mesmo os soldados ficam impressionados: vejam o tanto que ele sofreu e, ainda assim, age de maneira caridosa até mesmo com o pior dos monstros.

De fato, seria impossível para Kraven replicar o Homem-Aranha.

Peter Parker/Homem-Aranha prova ser uma convergência rara entre dois mundos, com cada contraparte dando sentido à outra, sem a qual seria incapaz de existir. O amor contra a lógica fria, o sentimento contra o instinto. Sem essa dualidade, não existe humanidade, e por isso apenas o Homem-Aranha foi capaz de perseverar.

O roteiro de DeMatteis se propõe a pôr frente a frente três homens/monstros e acaba nos mostrando o verdadeiro motivo de o Homem-Aranha ser um herói. Não é por menos que muitos fãs consideram essa a masterpiece definitiva do Cabeça de Teia.

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