A Nova República realmente salvou a galáxia? (Legends)

Após a queda do Império, uma nova ordem nasceu das cinzas do Imperador Palpatine e seu emissário, Darth Vader. A galáxia não mais seria governada por meio do terror e da morte, e sim, de acordo com a vontade de seus trilhões de cidadãos, restabelecendo, após duas décadas de tirania imperial, um governo republicano democrático. No entanto, não bastava apenas restaurar um antigo regime, era necessário incrementá-lo, corrigir as falhas sistemáticas que o levaram à ruína e, enfim, construir uma galáxia mais justa para todos. Essa missão recaiu sobre os ombros dos líderes da vitoriosa Aliança Rebelde: Mon Mothma, Leia Organa e Almirante Ackbar, que logo descobriram que gerir uma galáxia com mais 1,3 milhão de mundos era tão difícil quanto enfrentar o temível poderio de Palpatine. Afinal, a Nova República cumpriu sua missão, sendo o vento que enfim apagou o fogo da desordem pela galáxia, ou acabou sendo a responsável por espalhá-lo ainda mais? É isso que iremos descobrir hoje!

STAR WARS

Rafael Silva

2/2/202610 min read

A crise da mão de obra e a imortalidade do Império

O Império Galáctico manteve um domínio simbólico sobre todos os sistemas estelares, até mesmo as Regiões Desconhecidas. Para isso, Palpatine dispunha de bilhões de funcionários, nas mais diversas esferas de poder dentro da hierarquia imperial, que fizeram com que essa máquina funcionasse consideravelmente “bem” durante mais de vinte anos.

A Nova República, por sua vez, tinha de fazer o mesmo com alguns milhares de membros. Por mais que fossem vistos por muitos mundos como os libertadores da galáxia, sendo assim, seus legítimos governantes, eles definitivamente não estavam interligados à estrutura como seus antecessores: não tinham naves de transporte ou segurança, não possuíam controle da indústria, não possuíam contato com todos os mundos (e nem sequer tinham condições de o fazer). Tudo que lhes restava, na grande maioria dos casos, era implorar pela boa vontade dos povos e planetas, que, por vezes, lhes atendiam.

Ainda assim, milhares de mundos seguiam alheios à autoridade republicana, sendo governados por senhores da guerra ou grupos de elite como a Autoridade do Setor Corporativo, que agiam segundo a própria lei, ignorando completamente quaisquer medidas impostas pelo governo de Mothma.

Outro problema batido é a desordem nos planetas, algo que deve-se dizer que nenhum regime conseguiu resolver. A Velha República, por muitas vezes, fechava os olhos ou até mesmo compactuava com escravidão, lordes do crime e outras atividades ilegais. O Império também fazia vista grossa, apesar de por vezes confrontá-los. Já a Nova República, por mais que tivesse intenções de mudar isso, jamais teve condições.

Devemos nos lembrar de que a Velha República estendeu-se por mais de 20 mil anos, e o Império herdou muito de sua estrutura. Ainda assim, nenhum deles foi capaz de atingir um nível aceitável. Mas a precariedade extrema da República recém-formada era inegável.

Prova dessa precariedade estrutural mostrou-se com clareza em Herdeiro do Império, de Timothy Zahn, em que Han, Lando e Chewie se viram obrigados a negociar com Talon Karrde, um contrabandista, em busca de mais naves e pilotos para sua frota, além de um maior acesso aos contatos do submundo galáctico, aos quais o Império tinha, e que agora teriam imenso valor para a República. Em troca, eles limparam suas fichas e lhes permitiriam recomeçar, dessa vez, do lado certo da lei. Tão certo quanto Império Contra-Ataca ser o melhor filme de Star Wars, eles recusaram, rendendo uma tremenda humilhação a Solo e seus amigos.

Um governo que se vê obrigado a ajoelhar-se para criminosos para conseguir se sustentar realmente não passa muita confiança, mas esse não é nem de longe o maior erro dessa lógica. O Império, durante todo o seu reinado, manteve relações cordiais com múltiplas organizações criminosas, em especial, o Cartel Hutt, liderado por Jabba, em Tatooine. Ou seja, mesmo que por razões distintas, o método foi repetido.

Além disso, essa busca por recursos e mão de obra não se fazia apenas por necessidade imediata de abastecer a galáxia, mas também por legitimidade. A frota de Thrawn ainda mantinha-se forte, mesmo que oculta, e sua mera existência punha em xeque a autoridade republicana. Por isso, angariar mais forças, seja lá de onde estivessem vindo, poderia ser válido, se mostrasse que, por mais frágil que fosse, a Nova República era quem dava as cartas naquele momento.

Mesmo em minoria, a frota de Thrawn mostrou-se uma ameaça à altura da República, rendendo-lhe múltiplas derrotas e mantendo sob seu domínio planetas como Noghri. Com a queda de Thrawn (que só se deu devido a uma traição interna), o Tratado Pellaeon-Gavrisom foi assinado em 19 ABY (Após a Batalha de Yavin), dando um ponto final na Guerra Civil Galáctica, com o Comandante Supremo Pellaeon reconhecendo a Nova República como um Estado legítimo e mantendo seus soldados sob a alcunha de Dinastia Fel, posteriormente chamada Império Fel. Comandado por múltiplos imperadores, Fel futuramente viria a juntar-se à Nova República, formando assim a Aliança Galáctica, em uma tentativa de resistir à invasão de Yuuzhan Vong (invasores intergalácticos).

Assim, prova-se que, desde o início, a República sofreu com terríveis dificuldades financeiras e estruturais, precisando, por vezes, apelar para antigos costumes imperiais, apesar de jamais ter adotado as medidas genocidas que os dois regimes antecessores adotaram por mais de uma vez. Sua falha em derrotar o Império também é notável. Mostrando que, mesmo em frangalhos, o Império era resiliente o suficiente para sobreviver, mesmo perante o ápice do poder republicano, e somente ao lado da Dinastia Fel, a República pode trazer o mínimo de estabilidade à galáxia. Melhor dizendo: foi necessário se aliar ao inimigo para enfim derrotá-lo.

Bom, mas pelo menos a corrupção e o jogo de poder típicos da República e do Império não se repetiram… Será mesmo?


Inimigos internos

Durante os anos de Guerra Civil, a Rebelião necessitava de toda a ajuda possível para derrotar seu inimigo aparentemente imbatível. Para isso, aceitaram em suas linhas ex-criminosos (e alguns criminosos mesmo), terroristas (como Saw Guerrera) e ativistas questionáveis como Fey’lya. Todos unidos sob um único propósito: derrotar o Império. O que aconteceria depois, pouco importava. Não havia doutrina, apenas o desejo irrefreável de deter um regime tirânico. A ordem se fazia por meio de heróis como Luke Skywalker, Leia e Han, que inspiraram todos aqueles homens e mulheres a arriscarem suas vidas pelos ideais que pessoas como eles defendiam.

A Aliança Rebelde nasceu como um conjunto de múltiplas células de resistência pela galáxia, e quando o Imperador foi morto, cada uma dessas células desejava algo diferente.

Havia desavenças até mesmo nas altas cúpulas do poder. Ackbar, como um militar, tinha uma visão mais agressiva em relação à crise galáctica, recusando-se veementemente a aliar-se com criminosos como Karrde. Já Fey’lya via o Mon Calamari como um incompetente e, ao seu ver, um traidor da causa rebelde. Mon Mothma e Leia, que na época faziam a linha de frente como os rostos daquele novo regime, mantinham-se um tanto distantes daquele conflito interno, sem medir o quão sérios eles poderiam se tornar.

Em Ascensão da Força Sombria, Fey'lya tomou medidas constantes para minar a base de poder de Ackbar. Durante a Crise Thrawn, por exemplo, ele manipulou o Conselho da Nova República para acreditar em acusações falsas de que Ackbar era um traidor ou incompetente, baseando-se em informações plantadas pelo Grande Almirante Thrawn. Isso resultou na suspensão temporária de Ackbar e causou perda de tempo e energia valiosos para a Nova República.

Sem o Grão-Almirante, Fey'lya sonhava em ter o poder militar para si, subordinando-o ao poder civil, sobre o qual ele exercia forte influência. Até mesmo em um governo que deveria ser pautado na igualdade, havia aqueles que desejavam o poder apenas para si mesmos. A crise se resolveu, e o Bothan continuou como um dos membros mais respeitados da Nova República, morrendo como mártir ao sacrificar-se para eliminar mais de 25 mil Yuuzhan Vong.

Além dessas disputas ideológicas catastróficas, houve, é claro, escândalos de corrupção, mas em escala muitíssimo menor que no Império ou Velha República. Pode-se dizer que, por mais conturbada que tenha sido sua fundação, a Nova República construiu-se como um governo consideravelmente estável, no que se refere ao seu regimento, sem precisar apelar para o medo, como fez o Império.

Mas, talvez, o maior trunfo da Nova República tenha sido sua relação com seus maiores guardiões: os Jedi.


A Nova República e Ordem

A relação da Ordem Jedi com a República sempre foi marcada por altos e baixos, até a queda de ambos com a ascensão do Império, que tratou de caçar seus remanescentes até quase a extinção. No início, os Jedi atuavam como Chanceleres Supremos, sendo não apenas líderes religiosos e militares, como também líderes políticos. Seu poder não conhecia limites. Desde seus primórdios, a República e seus planetas viveram em meio ao aparentemente interminável conflito entre Jedi e Sith, com os seguidores da luz não apenas comandando a chancelaria, como também todas as forças armadas da República.

Após a queda da Irmandade da Escuridão de Lorde Kaan, o então Chanceler Supremo, Tarsus Valorum (um dos primeiros não sensitivos a assumir o cargo), com pleno apoio do Senado e da comunidade galáctica, aprovou as Reformas de Russan, dissolvendo o Exército da Luz e retirando dos Jedi qualquer tipo de poder político ou militar. Dali em diante, a Ordem serviria apenas para a manutenção da paz, e não para grandes guerras.

Se, na Velha República, a relação do Estado com os Jedi era de parceria e, por vezes, de domínio, com o Império, a coisa mudou completamente de figura. O Império ergueu-se sobre a premissa de que os Jedi eram traidores do Chanceler Palpatine e deveriam ser caçados e exterminados sem piedade. A propaganda imperial tratou de abalar ainda mais a reputação dos Jedi de forma quase irreversível, como quando acusou Mace Windu de tentar assassinar Palpatine para usurpar seu trono. Se a imagem dos Jedi já estava desgastada pelos anos de Guerras Clônicas que arderam a galáxia em chamas, o Império fez o possível para fazer com que ela nunca mais viesse a ser vista com bons olhos.

Coube a Luke Skywalker não apenas restabelecer a Ordem Jedi, como também adaptá-la para os novos tempos. O respeito pelos Jedi já havia voltado, graças a ele próprio, que foi capaz de derrotar Palpatine e Vader, impondo em torno de si mesmo uma aura mítica. Os Jedi já eram vistos como reais e poderosos mais uma vez; no entanto, Skywalker não poderia se dar ao luxo de cometer os mesmos erros de seus antecessores. Sua compreensão quando a Força era mais complexa do que a de qualquer Jedi até então. Mesmo jovem, ele possuía uma conexão tão íntima quanto qualquer outro usuário da Força nos milênios que o antecederam. Se tinha alguém que estava à altura desse desafio, era a Nova Esperança.

Luke desde cedo soube dividir sua Ordem da Nova República. Por mais que sua imagem fosse usada constantemente como propaganda pelo governo de sua irmã, já que ele era tido como o “libertador da galáxia”, ele jamais permitiu a si mesmo e aos seus estudantes envolver-se em assuntos políticos, em um exemplo fictício da divisão histórica entre Estado e Religião, ao estilo John Locke. Ele seria o bastião espiritual, e Leia, a face política da República.

Apesar disso, a República forneceu recursos para a construção do Praxeum Jedi em Yavin 4, enxergando-o como um símbolo poderoso de reconstrução da galáxia.

Skywalker rompeu com os antigos dogmas, permitindo que seus alunos se casassem e mantivessem contato com família e amigos, pois ele via tais sentimentos como parte natural da Força e reconhecia seu imenso valor, tendo em vista que foi o amor por seu pai que o salvou em seu momento mais sombrio. Sem tais dogmas, a nova Ordem Jedi só seguiria uma vontade: a da Força. Luke via seus aprendizes como seres pensantes, e não servos de uma ideologia.

Assim, definiu-se que ambas as ordens seriam aliadas, mas totalmente independentes uma da outra.

Luke treinou seus sobrinhos, Anakin, Jaina e Jacen Solo, que tornaram-se poderosos Jedi, dando um vislumbre de um futuro glorioso para a galáxia, se não fosse por um pequeno detalhe: a invasão Yuuzhan Vong.

O conflito mais sanguinário da história galáctica custou trilhões de vidas, em uma escala de destruição nunca antes vista. Assim, os Jedi novamente foram forçados a sair em defesa da República, mesmo que os invasores tivessem imunidade à Força.

Jacen Solo caiu para o lado sombrio, tornando-se Darth Caedus e matando Mara Jade, sua tia e esposa de Luke. Anakin Solo, Chewbacca e Fey'lya morreram em batalha, e Luke, Leia e Han tiveram o conflito mais intenso de suas vidas. A Nova República quase caiu na Invasão de Coruscant, mas mostrou-se mais resiliente que qualquer outro governo da história galáctica, suportando a pressão inimiga e derrotando seu líder, Overlorde Shimrra. Mesmo diante do inimigo mais poderoso que a galáxia já viu, a Ordem Jedi e a República se mantiveram de pé e foram capazes de unificar a galáxia em busca da vitória, ao contrário dos dois regimes anteriores, que a quebraram até a dissolução completa da unidade.

Veredito:

É inegável que a Nova República possuía falhas estruturais graves, advindas do marasmo deixado pelo Império, levando décadas para conquistar estabilidade e precisando aliar-se com inimigos para isso. Assim como qualquer governo, havia corrupção e desentendimentos, mas é justamente aí que o maior diferencial da Nova República prevalece: seus líderes tinham seu coração ligado ao seu povo.

Mothma, Luke, Leia e até Ackbar, por mais que divergissem e, por vezes, falhassem, fizeram valer cada gota de sangue derramada para estabelecer a democracia e a liberdade na galáxia. Seu poder não vinha da burocracia, e muito menos do medo, e sim da confiança e admiração de trilhões por aqueles que os libertaram da tirania, e, por mais frágeis que fossem, permitiam que suas vozes fossem ouvidas, pela primeira vez em milênios. Prova disso foi a capacidade de unificação impressionante na Guerra Yuuzhan Vong.

Então, podemos dizer com confiança que sim: a Nova República foi o melhor governo de Star Wars e salvou a galáxia da infinita corrupção da Velha República e da mão de ferro do Império.

E você, qual acha que foi o melhor governo de Star Wars? Não deixe de comentar!