A Jornada do Anti-Herói: Han Solo, V e Severo Snape
Ao longo de nossa longa jornada pelos arquétipos da ficção, já passamos pela Jornada do Herói, criada por Joseph Campbell e trilhada por heróis como Luke e Harry Potter. Pela Jornada da Heroína, desenvolvida por Maureen Murdock, que traçou a trajetória de ícones como Mulher-Maravilha e Mulan. E, por último, mas não menos importante, a Jornada do Vilão, nascida como uma antítese da Jornada do Herói, e que se fez presente na caminhada de vilões como Darth Vader e Lorde Voldemort. No entanto, existem aqueles personagens que flutuam entre o bem e o mal, cujas ações são guiadas majoritariamente por seus interesses pessoais, ao invés de questões morais. Esse tipo de personagem é tido por muitos como os seus favoritos, graças à sua complexidade moral, que acaba lhes tornando muito mais palpáveis do que os heróis e heroínas, vilões e vilãs tradicionais. Todavia, como sua própria complexidade sugere, é impossível encaixá-los todos em um único modelo de jornada, já que podemos dividir os anti-heróis em três categorias: Justiceiro, Herói Relutante e Personagem Cinza, que apesar de suas divergências, acabam convergindo no mesmo modelo de caminhada. Hoje, vamos conferir como lendas como Han Solo, V e Severo Snape, encontram-se em cada uma dessas definições, e como cada um deles, ao seu modo, trilhou a não tão conhecida Jornada do Anti-Herói.
STAR WARSHARRY POTTER
Rafael Silva
3/4/202620 min read
Han Solo: O Herói Relutante


Antes de mais nada, é necessário compreender quais são os passos exatos dessa jornada:
A Estrutura da Jornada do Anti-herói
Diferente da jornada épica tradicional, onde o protagonista é movido por virtudes e um chamado nobre, a trajetória do anti-herói é marcada pela imperfeição humana e pela necessidade. Podemos dividi-la em quatro estágios fundamentais:
1. O Ponto de Partida Defeituoso: O protagonista não começa no topo da "montanha dos deuses". Ele surge na base: é alguém comum, muitas vezes alienado, egoísta ou amargurado. Ele possui falhas de caráter evidentes ou está mergulhado em uma conformidade apática com um sistema que ele sabe ser errado, mas que prefere não enfrentar.
2. O Chamado por Necessidade: O "chamado à aventura" aqui raramente é aceito por honra ou dever. O anti-herói é empurrado para a ação por forças externas ou interesses puramente pessoais — seja uma dívida financeira, o desejo de vingança, a busca por sobrevivência ou a proteção de algo que lhe pertence. O motor da mudança é o desespero, não o altruísmo.
3. O Caminho das Sombras (Métodos Questionáveis): Durante o conflito, as linhas entre o herói e o vilão se tornam tênues. Para atingir seus objetivos, o anti-herói não hesita em utilizar métodos moralmente duvidosos. Ele mente, manipula ou utiliza violência extrema. Suas escolhas são pautadas pelo pragmatismo: o fim justifica os meios, e as regras da moralidade clássica são vistas como obstáculos ou luxos que ele não pode pagar.
4. O desfecho de ambiguidade: O final dessa jornada raramente é uma celebração gloriosa. Mesmo quando o anti-herói alcança uma vitória, ela é acompanhada de um custo alto ou de um gosto agridoce. Ele pode encontrar a redenção, pode fugir para sobreviver mais um dia ou pode ser completamente consumido pelo sistema que tentou desafiar. No fim, ele não se torna um deus, mas permanece profundamente humano — para o bem ou para o mal.
O contrabandista corelliano é talvez o personagem mais amado da trilogia clássica de Star Wars, justamente por seu jeito cafajeste, descompromissado e oportunista, mas que no fundo, esconde um improvável senso de dever e heroísmo.
Logo em Uma Nova Esperança, já temos um vislumbre de como iria se desenhar a sua trajetória. Quando Luke e Obi-Wan conhecem Solo, rapidamente percebem o quão malandro ele é. Han e seu fiel parceiro Wookie, Chewbacca, ganham a vida como contrabandistas, a bordo da Millennium Falcon, dita por ele mesmo como “o ferro velho mais veloz da galáxia”.
Ele pouco se importa com Império, Rebelião ou Cartel Hutt, quem paga mais é quem realmente interessa. Quando Obi-Wan revela que deseja ir para Alderaan com descrição, com intuito de evitar problemas imperiais, Han reluta, já que não queria de forma alguma se relacionar com a Guerra Civil que se desenrolava pela galáxia, mas, ao mesmo tempo, como um bom negociador, viu ali a chance de conseguir dinheiro suficiente para quitar sua dívida com Jabba, o Hutt, que já havia posto sua cabeça a prêmio, enviando Greedo para matá-lo.
Logo de cara, ele dá dois passos em sua jornada, saindo da alienação e entrando desavisadamente no conflito galáctico, mesmo que guiado por motivações puramente financeiras. Após a Millennium Falcon ser capturada pelo raio trator da Estrela da Morte, Solo usa de toda sua esperteza para permanecer escondido dentro da estação bélica infestada de imperiais.
Ele estava fora do seu habitat, longe dos bares, cassinos e covis de criminosos, estava na guerra que tanto havia tentado evitar. Ele inicialmente só pensa em fugir, mas Luke o convence a ficar e ajudá-lo a libertar a Princesa Leia, algo que Solo e seu escudeiro só aceitam ao ouvir a palavra: dinheiro.
Ele enfrenta Stormtroopers, lança-se no compactador de lixo da Estrela da Morte e arrisca-se para salvar Luke, quando o mesmo estava enfurecido ao ver Kenobi ser morto pelas mãos de Darth Vader. Ele enfrenta os Caças-Tie Imperiais, eliminando-os como um soldado experiente, tomado pela adrenalina. Mesmo sem querer, ele havia sido um herói.
Todavia, ao chegar ao QG Rebelde em Yavin 4, Solo volta à sua programação de fábrica, pedindo a Leia o dinheiro que lhe devia, e rapidamente indo embora, mesmo com Luke e a princesa lhe pedindo para ficar. No entanto, Solo havia voltado a pensar como aquilo que sempre foi, um sobrevivente, e enfrentar uma estação bélica do tamanho de uma lua, da qual eles custaram tanto para escapar, não era a melhor forma de permanecer vivo.
Porém, antes de virar as costas para Luke, o contrabandista lança uma frase curiosa: que a Força esteja com você.
Durante toda a trama, Solo havia se mostrado descrente em relação a todo e qualquer tipo de poder superior a permear a galáxia, como sua icônica frase sugere: “Religiões e armas antigas não se comparam a um bom blaster.”
A Batalha de Yavin se inicia, e um pequeno esquadrão rebelde é imbuído de destruir a arma mais poderosa do universo, uma missão aparentemente impossível, se não fosse pela frase dita pelo próprio Darth Vader aos oficiais imperiais:
“A capacidade de destruir um planeta é insignificante, perto do poder da Força.”
Liderados por Vader, os Tie Imperiais devastaram boa parte dos X-Wing Rebeldes, e Yavin 4 estava na mira de Tarkin, que pouco antes já havia destruído Alderaan com um único disparo de sua super-arma. Luke escutava Obi-Wan lhe dizer: confie na Força, enquanto mantinha-se fixo no alvo: o exaustor da Estrela da Morte.
Logo atrás dele, vinha Darth Vader, ladeado por dois Caças Tie, pronto para matá-lo, quando de repente, a Força mostrou o quão imprevisível pode ser. A Millennium Falcon irrompeu o campo de batalha, disparando contra Vader e seus soldados, abrindo caminho para que Luke acertasse um disparo impossível e destruísse a maior arma do Império.
Engana-se quem acredita que a Força foi decisiva apenas para Luke acertar o tiro, apenas ela pode explicar como um contrabandista sem escrúpulos, com dezenas de milhares de créditos recém-ganhos, iria arriscar tudo para salvar alguém que acabou de conhecer.
Guiado por seus instintos, Solo realizou um ato de coragem que julgava-se incapaz de ter, e na prática, tornou-se a encarnação da Força a abençoar Skywalker, quando mais precisou.
Dali em diante, Han Solo tornou-se efetivamente membro da Aliança Rebelde, lutando por uma causa maior que seu próprio bolso, no entanto, suas raízes ainda estavam lá. Mesmo em Império Contra-Ataca, quando o mesmo estava decidido a deixar Hoth para pagar Jabba, seus planos são virados de ponta-cabeça, quando o Império inicia a Batalha de Hoth, forçando-o a fugir com Leia, Chewbacca e C3-PO, e embarcar em mais uma cruzada aparentemente suicida contra o Império.
Durante aqueles dias de perseguição sob a mira de Star Destroyers, Han sente seus sentimentos por Leia crescerem cada vez mais, e mesmo sendo tão diferentes, pareciam ter sido feitos um para o outro.
O que mais lhe aproxima do terceiro aspecto da Jornada do Anti-Herói é sua ida a Bespin, onde aceita a ajuda suspeita de Lando, o homem do qual ganhou a Millennium Falcon em uma aposta. Ele sabia que Calrissian não era confiável, mas ainda assim, como sempre fez, arriscou, mas dessa vez, a sorte (ou a Força) não estava com ele.
Solo acaba traído por Calrissian e preso pelo Império, e pouco antes de ser congelado em carbonita, para ser dado como presente a Jabba, diz a Leia uma de suas mais célebres frases:
Leia: Eu te amo.
Han Solo: Eu sei.
São nesses momentos que o contrabandista mostra sua personalidade, por mais heróico que possa ser, ele jamais será um príncipe de conto de fadas, no fundo, sempre irá restar a confiança excessiva de um bom vagabundo.
Capturado por Boba Fett e transformado em quadro de parede por Jabba, Solo é salvo por Luke e seus amigos, e retoma seu posto como Capitão da Aliança Rebelde, liderando a invasão a Endor, sendo decisivo para a destruição da Segunda Estrela da Morte. Han agora era um herói, certamente, um dos homens mais importantes da galáxia, capaz de unir a Aliança Rebelde, o Império Galáctico e os maiores cartéis criminosos, um homem com a galáxia em torno de si.
Mesmo assim, ele seguiu com seus velhos hábitos, aventurando-se com Chewie, enquanto Luke e Leia tratavam de assuntos realmente sérios. Aqui, sua jornada diverge. Nos Legends, ele se torna mais ativo nos assuntos da Nova República, estando sempre ao lado de Leia. No cânone, a coisa é bem diferente e mais coerente com a jornada do anti-herói.
Nos eventos de Despertar da Força (2015), Solo permanece distante de Leia mesmo durante o conflito entre Resistência e Primeira Ordem, especialmente por ser incapaz de confrontar aquilo que seu filho, Ben Solo, havia se tornado. Ainda assim, seu senso de justiça se sobrepôs ao seu próprio senso de sobrevivência, e ele acompanhou Rey e Finn até a Base Starkiller, onde mais uma vez, esteve diante de seu filho.
Ele tentou fazê-lo voltar, dispondo-se a perdoar tudo que já havia feito, dispondo-se a ser o pai que não havia sido para ele. Mas, acabou morto por aquele a quem deu a vida, e lançado no fosso da estação de batalha, sumindo entre as sombras, literalmente e metaforicamente. E esse é o final agridoce da jornada de Han Solo, sem final feliz, sem vitória definitiva, apenas a lâmina rubra de seu próprio filho atravessando seu corpo, enquanto ele acariciava seu rosto uma última vez.
Para a Aliança Rebelde, Han foi um homem que lutou pela liberdade da galáxia, indo além de seus próprios interesses. Para o submundo, alguém que se ajoelhou ao sistema por medo de acabar preso. Para Luke, um melhor amigo. Para Chewbacca, um irmão. Para Boba Fett, um arqui-inimigo. Para Ben Solo, um pai distante. Para Leia, um marido imperfeito, mas que ela é incapaz de não amar. Para a galáxia, quem é Han Solo?
Como podemos ver, a jornada de um anti-herói pede uma interpretação atenta de cada um de seus atos, para que seja possível compreendê-los dentro do modelo proposto. Para auxiliar na compreensão, deixemos seu “Guia de Viagem” dentro da saga:
O Ponto de Partida: Um criminoso comum, completamente alienado ao conflito galáctico, pensando apenas em sua própria sobrevivência, e guiado por esse instinto, acaba se conectando a algo maior.
Chamado por Necessidade: Ele se vê preso na Estrela da Morte, sendo obrigado a trabalhar ao lado de Luke, Leia e Obi Wan para escapar, e inegavelmente, se aproxima emocionalmente deles, e é isso que o faz voltar para salvar Luke na Batalha de Yavin. Mesmo entre ladrões (e contrabandistas), existe honra.
Caminho das Sombras: Abre mão de pagar Jabba para proteger Leia, e acaba capturado após uma intensa perseguição imperial e uma inesperada traição de Lando.
Final Agridoce: Como o esperado, não foi o homem ideal para reconstruir a galáxia após a queda do Império, incapaz de deixar seus velhos hábitos, e quando enfim teve coragem de confrontar seu filho, acabou morto.
V, o Justiceiro


Mais que um homem, uma ideia. Baseado no soldado inglês Guy Fawkes (conhecido por sua tentativa de atentado a bomba contra o Rei Jaime I e membros do Parlamento Britânico em 1606), V busca a liberdade, luta pelo que julga ser o certo, sendo capaz de tudo para conseguir isso, não importa o quão brutais ou imorais sejam seus métodos. Ninguém melhor que o brilhante Alan Moore para conceber tal personagem.
Seu verdadeiro nome e rosto são desconhecidos, o que ajuda a construir a aura que carrega: ele não é um homem, é o símbolo de um ideal, qualquer um com a máscara no rosto e seus ideais no coração, pode ser como ele.
V foi capturado como um subversivo pelo governo britânico fascista Norsefire, liderado pelo Alto Chanceler Adam Sutler, e mantido preso em Larkhill (centro militar dedicado a “indesejados sociais” como homossexuais, negros e judeus).
Seus primeiros passos foram dados como um homem comum, cansado da tirania de seu governo, e que ao ousar erguer-se contra ele, sofreu os piores tipos de tortura. Sua mente foi invadida, seu corpo usado como cobaia para múltiplos experimentos, uma dor que de certa forma foi compensada pela incrível força e reflexos que eles lhe concederam, e que o possibilitaram fugir daquela prisão.
Em seu tempo preso, seu ódio por Sutler e seu governo apenas aumentou. Seu chamado para a ação não veio de uma convocação externa, e sim, de uma obsessão quase teatral pela anarquia e a luta contra a repressão. Um guerreiro e, ao mesmo tempo, um artista.
O Caminho das Sombras é a melhor forma de descrever sua cruzada contra o Estado totalitário britânico: atentados a bomba, assassinato de figuras públicas, como o Bispo Anthony Lilliman (pedófilo assumido e responsável por torturar V e outros presos em Larkhill), incentivar desobediência civil, roubar artefatos explosivos e muito mais.
Em um Estado onde todos os bastiões da moral são imorais, um homem mascarado é o único a realmente cumprir a sua palavra, a mostrar sua verdadeira face para todos. Ele destrói o sistema com suas próprias armas.
Porém, nada disso nem sequer se aproxima do seu maior crime.
Evey Hammond havia perdido seus pais ainda na infância, assassinados pelo Norsefire. Desde então, ela se viu sem propósito. Ela desprezava o regime, mas, ao mesmo tempo, não tinha força para fazer qualquer coisa contra ele. Após ser salva de um assalto por V e conhecê-lo a fundo, ela passa a admirá-lo, mas permanece receosa em relação aos seus métodos. Para ela, a questão nunca residiu na validade de sua ideia, e sim, até onde é possível ir por uma ideia?
Para convencê-la de que não devem haver limites na busca pela liberdade, ele a captura, passando-se por um agente do Norsefire, levando-a para um batismo de fogo. Ele a tortura, física e psicologicamente, fazendo-a passar por toda a dor que ele mesmo passou.
Socos, chutes, água fria, choques, fome, dormir e acordar deitada contra o mesmo piso gélido, enquanto mantinha contato com uma prisioneira chamada Valerie, de quem ela jamais viu o rosto, por meio de cartas espremidas por entre as rachaduras da parede, em um simbolismo sublime: mesmo que a opressão lhe cerque por todos os lados, haverá sempre uma fagulha de esperança, uma forma de se expressar, uma rachadura, a partir da qual todo um império pode cair.
Quando ele a liberta, Evey o confronta, furiosa (não é para menos…), mas compreende por que ele a provou dessa forma. Para segui-lo, ela precisava sentir na pele a dor causada por aquilo que ele tentava destruir, precisava entender que contra aquele inimigo não podiam haver limites. A vitória precisava vir, a qualquer custo.
Evey o compreende. Diferentemente de Han Solo, que modifica-se e evolui, V é absoluto, fixo, imutável e fanático. Para conseguir um aliado contra o mal, ele usou o mesmo mal para convertê-lo. É legítimo causar dor para libertar alguém do medo?
E é então que, replicando Guy Fawkes, V prepara um ataque ao Parlamento, usando um trem para levar os explosivos até lá. Porém, acaba sendo cercado por Peter Creedy (chefe da Polícia Secreta) e seus homens. V é alvejado, mas ergue-se e mata todos antes mesmo que recarreguem suas armas para uma segunda saraivada. Creedy observa o vazio onde deviam ser os olhos daquele homem, e questiona que tipo de humano ele era, e como ele não havia morrido, e é nesse instante que o anarquista explica sua máxima em apenas uma frase:
“Eu sou uma ideia, e ideias são à prova de balas”. Mesmo fraco, o anti-herói cambaleou até o metrô e, com a ajuda de Evey, enviou os explosivos. Nas ruas, milhares de pessoas desafiavam as autoridades, eclodindo o regime de dentro para fora. O objetivo foi concluído, e as massas vibraram ao ver o símbolo máximo da tirania arder perante seus olhos, a vontade do povo havia vencido a autocracia. A liberdade havia vencido a ditadura. V venceu, mas jamais viu essa vitória, pois estava nos braços de Evey, morto.
Todavia, quem quer que tenha estado por detrás daquela máscara, certamente viu o que havia feito. Sua motivação estava em cada uma das pessoas naquelas ruas, em cada uma das máscaras, desenhos e estátuas feitas em sua homenagem, estava em Evey. Seus olhos podem não ter visto, mas seu coração, certamente.
Seu final pode ter sido ambíguo na literalidade, mas quando vamos para o campo das metáforas, talvez não tenha sido exatamente assim. Ele sempre esteve disposto a morrer pela causa, talvez até preferisse assim. Ele sabia não ser um herói, não ser um exemplo a ser admirado, e talvez por isso mesmo, nunca tenha mostrado seu rosto. No fundo, ninguém o seguia, apenas seguia o senso natural pela libertação que havia dentro de si, e que ele, por suas ações muitas vezes extremas, havia conseguido libertar.
V é um anti-herói clássico, violento, de moral dúbia e que, por muitas vezes, é tão cruel quanto qualquer vilão, mas seus resultados são inegáveis, e sua jornada é certamente a mais fantástica dessa lista.
Ponto de Partida: É preso como um rebelde sem causa, torturado, testado ao limite da sanidade, e ainda assim, não é atestado como louco, o que leva a ser cobaia dos testes que lhe concederam seus dons sobre-humanos.
Chamado por Necessidade: Foge da prisão e assume como missão de vida destruir o regime.
Caminho das Sombras: Rouba, mata, explode, tortura… comete todos os tipos de crime, em nome do “bem maior” da sua luta.
Final Agridoce: Não vive para ver sua própria vitória.
Severo Snape, O Personagem Cinza


A encarnação do conceito de personagem cinza, e talvez, o mais complexo entre todos da trindade. Severo Snape nasceu na Rua da Fiação, filho de Eileen Prince, bruxa puro-sangue, e Tobias Snape, um alcoólatra trouxa. Severo não poderia ter nascido em um lar menos conturbado.
Seu pai surrava ele e sua mãe, reprimindo ao máximo seus dons, e desde cedo, fazendo fervilhar um ódio crescente contra os trouxas, que lhe faziam sofrer por simplesmente ser quem era. Snape era franzino, andava sempre com roupas surradas e sozinho, até que aos dez anos, conheceu aquela que mudaria sua vida para sempre: Lilian Evans.
Sua vida parecia ser um oposto total à dele: sua família se orgulhava de seus dons, ela vivia sempre alegre, a magia que para ele era uma maldição, para Evans, era um benção. Eles brincaram juntos durante todo o verão, e Snape via nela sua melhor amiga, sua única amiga, aquela que dava cor ao seu mundo.
Aos onze anos, ambos foram para Hogwarts, onde seus caminhos começaram a divergir. Snape começou sua rixa com os Marotos, em especial, com Tiago Potter, que implicava com o garoto desde o primeiro momento que se conheceram no Expresso de Hogwarts.
Snape foi selecionado para a Sonserina, e Lillian, para a Grifinória, algo que os distanciou ainda mais. Por mais que ela continuasse sendo sua amiga, também mantinha relações com Tiago e seus amigos. Parecia cada vez mais que o homem que fazia sua vida um inferno agora poderia tirar dele a única coisa que já amou.
Esse medo constante fez com que Snape desse seu primeiro passo rumo às trevas. Lorde Voldemort estava em ascensão, e seus ideais preconceituosos, em plena expansão. Severo passou a estudar artes das trevas, a manter relações com alunos da Sonserina como Avery, Mulciber, Evan Rosier, Wilkes e, mais tarde, Lúcio Malfoy, que futuramente se tornariam Comensais da Morte.
A pureza de sangue, o domínio por meio do poder, a chance de sentir-se superior àqueles que o oprimiam, tudo isso era tentador demais para alguém como o Príncipe Mestiço, farto de ser pisoteado por todos à sua volta. No ódio, ele construiu sua fortaleza.
A âncora que o impedia de afundar por completo era Lilian, que sempre o alertou do quão perigosos eram seus novos “amigos”, mas Severo já não lhe dava mais ouvidos. Tudo isso culminou na maior travessura dos Marotos contra Snape, quando em seu quinto ano, eles o viraram de ponta cabeça e abaixaram suas calças, fazendo com que toda a Hogwarts risse dele, mais uma vez. Como sempre, Lilian tentou defendê-lo, mas, infectado pelo senso de superioridade que havia impregnado seu coração, ele a afasta com uma frase cortante:
“Não preciso da sua ajuda, sangue-ruim.”
Depois disso, não havia mais volta, a única coisa que ligava aquele futuro Comensal da Morte ao inocente menino que ele havia sido na Rua da Fiação havia partido.
Lilian aproximou-se cada vez mais de Tiago Potter, com quem se casou logo após deixar Hogwarts.
Essa foi a sua chamada por necessidade, mais do que nunca, ele se aprofundou na magia das trevas, e ao deixar Hogwarts, tornou-se um dos mais devotos servos de Voldemort.
O Caminho das Sombras era claro para Snape, ele matou, mentiu, fingiu em nome do Lorde das Trevas, chegando a descobrir sobre a dita profecia de Sibila Trelawney, que previa o nascimento de um garoto capaz de derrotar Lorde Voldemort. Sabendo disso, ele não tardou em informar seu mestre, para só então descobrir que o suposto Eleito poderia ser justamente o filho de Lílian e Tiago Potter, Harry.
Ele implorou ao vilão que não matasse a jovem, o que ele assentiu, caso ela não se pusesse entre ele e o menino, algo que Severo não teve dúvidas de que ela faria. Em pânico, ele pediu auxílio a Dumbledore, clamando que ele protegesse Lilian, pouco se importando com seu marido e seu filho, algo que o diretor respondeu da forma mais ríspida possível:
“Você me dá nojo.”
Um homem egoísta, mesquinho e covarde, que, como fruto de suas escolhas, havia inconscientemente condenado o amor de sua vida à morte, esse era Severo Snape.
Ele agiu tarde demais, e Voldemort assassinou o casal Potter, mas, graças ao sacrifício de Lílian, Harry sobreviveu, e Alvo incumbiu Snape de uma só missão: proteger o Menino Que Sobreviveu e ajudá-lo a derrotar Voldemort definitivamente.
O Príncipe Mestiço se viu sem saída.
Ele permaneceu em Hogwarts como Professor de Poções, aterrorizando qualquer aluno quando bem quisesse, descontando toda a sua amargura em crianças e adolescentes que em nada tinham relação com suas dores. Mesmo adulto, Snape continuava com o emocional de um adolescente.
Quando Harry veio a Hogwarts em 1991, um turbilhão passou pela mente de Severo. Ao olhar o garoto, ele via todas as características de seu pai, o homem que ele mais odiava no mundo (além dele mesmo), mas, ao encará-lo nos olhos, ele via Lilian. Snape não o salvou das garras de Quirrell em Pedra Filosofal, não o ensinou Legilimência em Ordem da Fênix ou guiou-o com seu patrono até o Medalhão da Sonserina em Relíquias da Morte por amor a ele, e sim, por amor a sua mãe.
Prova disso está justamente nas lembranças dele vistas por Harry na penseira. Quando Snape questiona Dumbledore se Harry não estaria apenas sendo criado como um porco para o abate, ele não estava exatamente tendo pena do garoto, algo que o próprio Dumbledore desconfiou.
Ao lançar seu patrono em forma de corça pelo escritório do diretor, ele enfim compreendeu. Aquele famoso “sempre” não foi em vão. Entregar Harry para ser morto por Voldemort, mesmo que fosse em nome de um “bem maior”, significava permitir que a última parte de Lilian ainda viva, se fosse, que a promessa que ele havia feito a si mesmo, seria quebrada. No fundo, ele não se importava verdadeiramente com a causa, e sim, em provar-se para si mesmo.
Para Snape, proteger Harry era a única forma de honrar Lilian e, ao mesmo tempo, de dar algum propósito à sua própria vida. Ele demonstrou uma coragem inigualável de Cálice de Fogo em diante, agindo como agente duplo entre as linhas de Voldemort, usando-se de toda a sua inteligência e habilidade para ajudar Dumbledore e Harry a derrotá-lo, algo que ele conseguiu. Mesmo tendo sido morto pelo vilão em Relíquias da Morte, seu disfarce jamais caiu, mostrando um brilhantismo tão grande, que foi capaz de ludibriar até mesmo o maior bruxo das trevas de todos os tempos.
Mesmo vitorioso e respeitado por Harry, que pôs seu nome em seu segundo filho em homenagem ao sacrifício que Snape havia feito por ele, seu final ainda é agridoce.
Snape era um homem derrotado por si mesmo, que tomou todas as decisões erradas, e por isso acabou sozinho. Mesmo ajudando Harry, ele era odiado por ele e por quase todos em Hogwarts, que não sabiam do lado oculto de sua missão. O mundo bruxo jamais valorizou o homem que mais se entregou para salvá-lo.
Além disso, Snape foi um professor terrível, tornando-se inclusive o Bicho-Papão de Neville, tamanho o medo que o garoto tinha dele. Consegue imaginar o quão horrível deve ser ter seu maior medo como professor? Ele humilhou múltiplas vezes Harry, Rony e Hermione, enquanto favorecia claramente Draco e seus amigos da Sonserina. No fundo, mesmo redimido, ele nunca perdeu o gosto pelo poder, jamais abriu mão de oprimir as pessoas, da mesma forma que seu pai e Tiago fizeram com ele.
Ele também não é puro pragmatismo: ajudou Lupin com suas poções anti-licantropia, protegeu Draco durante sua missão para matar Voldemort, preocupou-se quando Harry disse que os Comensais da Morte haviam pego Sirius Black. Mesmo que não o deixe transparecer, ele tem sim sentimentos por aqueles à sua volta, e por vezes, os ajuda, mesmo a um aparente contragosto.
Um homem falho, imperfeito, complexo, mas que inegavelmente é indispensável para a saga Harry Potter, já que sem seu envolvimento, talvez a Profecia do Eleito nem mesmo tivesse se concretizado.
São tantas facetas, que torna-se indispensável elencá-las com clareza:
Ponto de Partida: Era um garoto solitário e vítima de violência física e psicológica por quase todos à sua volta, e que via em Lílian Evans, seu porto-seguro.
Chamada por Necessidade: Cansado de ser humilhado, aprofunda-se nas artes das trevas, o que o leva a romper com Evans e tornar-se servo de Voldemort.
O Caminho Sombrio: Comete inúmeros crimes como Comensal da Morte, inclusive, entregar os Potter a Voldemort, decisão da qual se arrependeria pelo resto da vida. “Repará-la” transformou-se em sua razão de viver.
Final Agridoce: Nunca se regenera verdadeiramente, e no final, morre como uma figura dúbia.
Cada um com suas particularidades, apresentam as três faces da Jornada do Anti-Herói: Han Solo, é o Herói Relutante, um homem bom, mas, irresponsável e descompromissado demais para ser tido como um herói. V é o Justiceiro, capaz de tudo para fazer a sua justiça, indo contra todos os princípios da moral vigente. Como de costume, sua visão de mundo tem imensa capilaridade. E Snape, como não poderia ser diferente, é um Personagem Cinza, amargurado, guiado pelos acontecimentos e por suas próprias emoções, e jamais se compromete com uma causa, apenas consigo mesmo.
Todos cumprem perfeitamente cada um de seus modelos. Particularmente, prefiro a jornada de Snape, por sua profunda complexidade emocional, mas, reconheço a força política da trilhada por V e a efetividade da seguida por Solo. Como é de costume, vamos ver quais jornadas triunfam sob determinadas ópticas:
🏆 Melhor Jornada do Anti-Herói: Severo Snape
Porque é a mais completa e estruturalmente trágica.
Ponto de Partida: vítima e excluído.
Chamada por Necessidade: orgulho ferido + desejo de pertencimento.
Caminho Sombrio: Comensal da Morte.
Reviravolta Moral: arrependimento tardio.
Final Agridoce: morre odiado, redimido apenas postumamente.
Snape percorre queda, culpa, expiação e morte.
É a jornada mais longa e mais circular.
Ele não melhora emocionalmente.
Ele apenas escolhe um lado diferente.
Isso é densidade dramática.
🗡️ Anti-Herói Mais Radical: V
V é o mais extremo.
Ele não evolui.
Ele não cede.
Ele não negocia.
Sua jornada não é de transformação — é de execução.
Ponto de Partida: vítima do regime.
Chamada: vingança ideológica.
Caminho: terrorismo estratégico.
Final: morre coerente com sua própria ideia.
V não se redime.
V não aprende.
V não suaviza.
Ele é uma linha reta rumo ao colapso do sistema.
Narrativamente, isso é poderoso — e desconfortável.
🚀 Maior Evolução Pessoal: Han Solo
Han é o anti-herói mais “humano”.
Ponto de Partida: mercenário cínico.
Chamada: dinheiro.
Caminho: amizade e lealdade crescentes.
Clímax Moral: volta para salvar Luke.
Resultado: torna-se general da Aliança.
Han é o único dos três que:
✔ Evolui emocionalmente
✔ Aprende
✔ Se torna melhor do que era
Ele não começa vilão.
Ele começa indiferente.
Sua jornada é de amadurecimento, não de expiação.
🧠 Jornada Psicologicamente Mais Complexa: Snape
Porque envolve:
Amor obsessivo
Ressentimento crônico
Culpa permanente
Identidade dividida
Auto-sabotagem
V é ideológico.
Han é emocional.
Snape é psicológico.
💣 Jornada Mais Impactante Socialmente: V
Snape muda uma guerra.
Han ajuda a vencer um império.
V muda uma sociedade inteira.
A revolução nasce dele.
Ele não salva indivíduos.
Ele implode estruturas.
⚖️ Final Mais Agridoce: Snape
Han termina reconhecido.
V termina simbólico.
Snape termina:
Morto
Incompreendido
Solitário
Redimido apenas na memória de um homem
É o fim mais doloroso.
❤️ Relação Mais Forte com o Protagonista: Snape
Snape vive por causa de Harry.
V molda Evey.
Han se torna irmão de Luke.
Mas só Snape constrói sua vida inteira ao redor do protagonista.
Mesmo odiando-o.
🎭 Anti-Herói Mais Coerente Consigo Mesmo: V
Han muda.
Snape oscila.
V permanece absoluto.
Ele é começo, meio e fim da própria ideologia.
E para você, qual deles tem a melhor jornada? Não deixe de comentar!
