A FILOSOFIA DO TERROR

Os filmes de terror nos mostram monstros de máscara, de machado ou de sombra. Mas as histórias que ficam são aquelas que revelam o que vive dentro de nós. Aqui, quatro personagens, quatro destinos e as cicatrizes que o medo deixa na alma.

TERROR

Rafael Silva

9/22/202616 min read

Tommy Jarvis: A Cicatriz de uma Vida

Quando você olha por tempo demais para o abismo, ele olha de volta para você. Essa fala de Nietzsche explica com maestria o arco de Tommy Jarvis.

Thomas “Tommy” Jarvis é certamente o grande protagonista da franquia Sexta-Feira 13, enfrentando Jason nas partes 4, 5 e 6, desde a noite em que o Assassino da Máscara de Hockey destruiu seu mundo. Por meio dele, Jason mostrou não ser um assassino apenas do corpo, mas também da mente. Uma sutileza nada comum aos filmes da saga. Ele jamais conseguiu  matar Tommy, mas o fez desejar estar morto.

Em Sexta-Feira 13: Capítulo Final (que teve oito filmes depois dele…), Voorhees assassinou a Sra. Jarvis, e outras 13 pessoas, perseguindo Trish Jarvis, irmã de Tommy, por todo o acampamento. Ele encurralou Trish e seu irmão em sua cabana, forçando-os a lutar pela sobrevivência. Mesmo recebendo marteladas, facadas e até mesmo uma televisão na cabeça, o assassino não parou. Para Tommy, era como se o pior dos monstros de seus filmes tivesse assumido forma diante de seus olhos. O medo bobo de uma criança, tornando-se uma cicatriz para toda a vida.

Tommy, como um garoto de rara inteligência, leu sobre as lendas em torno de Jason em Crystal Lake e raspou a própria cabeça, de forma a se assemelhar com a figura do assassino quando criança.

O Garoto do Lago hesitou em matar Trish e ficou inerte diante daquela estranha figura, que remetia a quem ele mesmo havia sido no passado: um simples menino. Foi nesse instante que Jarvis tomou a decisão que mudaria sua vida: sacando a machete deixada por Jason, ele golpeou o vilão várias e várias vezes, continuando a atacá-lo mesmo quando caído, descontando toda a raiva que tinha do homem que assassinou sua mãe. A cada facada, sua expressão mudava mais, e um ódio selvagem tomava seu coração.

Naquela mesma noite, já no hospital, o garoto passou a ter sonhos com Jason, às vezes, enxergando-se no lugar dele, como um assassino. Por mais que odiasse o vilão, ele não conseguia negar: foi satisfatório estar no lugar dele, e esse fantasma o assombraria pelo resto da vida, especialmente em seu sono. Não se tratava apenas de passar uma vida fugindo de Voorhees, mas também da ansiedade de transformar-se em algo como ele.

Nos meses que se seguiram, Tommy continuou preso naquela noite, tornando-se cada vez mais agressivo, chegando a agredir professores e colegas de escola, sendo literalmente incapaz de viver em sociedade. Trish passou a interná-lo em várias clínicas diferentes, enquanto distanciava-se de um irmão que já acreditava ter perdido. Mesmo que Jason aparentemente estivesse morto, Jarvis jamais saiu do modo de alerta máximo; ele não sabia viver sem um inimigo para enfrentar.

Após vários fracassos consecutivos, Tommy, já com 17 anos, é enviado para uma terapia de choque na clínica Pinehurst, nos arredores de Crystal Lake, nos eventos de Sexta-Feira 13: Um Novo Começo. Ele enfrentaria o mal face a face mais uma vez, e quando percebesse que ele não mais poderia lhe fazer mal, as sombras em sua mente enfim iriam embora. Pelo menos, era o que eles pensavam.

Uma nova onda de assassinatos se inicia, e Tommy não só piora, tendo cada vez mais visões com Jason, como também é visto como um possível suspeito, uma vez que age com agressividade com quase todos os pacientes do local, chegando a agredi-los. Será que o Acampamento Sangrento havia finalmente conseguido corrompê-lo? Bom, não dessa vez.

Ao lado dos sobreviventes Pam e Reggie, Tommy derrota o novo assassino, que revela-se como o paramédico Roy Burns, que passou a assassinar todos os pacientes e moradores da região, em uma espiral de vingança após seu filho ser morto por um deles. Burns e Jarvis compartilhavam de uma dor semelhante: a perda de alguém que amavam, que despertou em ambos uma sede de vingança, que os tornaria no mesmo mal que havia destruído suas vidas. Porém, apenas Roy caiu nas trevas, apesar de que Tommy não estava realmente longe disso.

Sua filosofia de vida: destruir Jason, estava deixando-o cada vez mais perturbado, e talvez isso até mesmo fosse bom para Jarvis, já que o permitiria aceitar sua própria natureza.

Isso fez com que Tommy desse um basta e decidisse voltar a Crystal Lake, agora nomeada Forest Green, para pôr fogo no corpo de Jason e vê-lo queimar até as cinzas diante de seus olhos.

Tommy desenterra o corpo com a ajuda de seu amigo Allen. Encarando o cadáver putrefato de Jason, Jarvis o atravessa múltiplas vezes com uma barra de aço, em um ato que demonstra com clareza a sua insanidade. Ele estava exumando um corpo e atacando-o furiosamente. Ele se prepara para queimar o cadáver de Jason para ter a liberdade de viver sua própria vida.

Todavia, antes que pudesse incinerá-lo, um raio atinge a barra de aço, eletrificando o corpo de Jason, fazendo-o ressuscitar ao melhor estilo Frankenstein.

Sua obsessão em destruir o mal acabou por trazê-lo de volta, e dessa vez, mais forte do que nunca. Jarvis, mais uma vez, tenta inútilmente alertar as autoridades, que o prendem como principal suspeito dos assassinatos cometidos por Jason. Porém, com ajuda de Megan, filha do xerife local, Michael Garris, Tommy escapa e mergulha no sobrenatural para buscar formas de deter aquele morto-vivo.

Após Jason pintar Forest Green de vermelho, Jarvis consegue enfim prendê-lo no fundo do lago com uma enorme pedra, aprisionando-o no mesmo local onde sua lenda havia nascido.

Porém, o olhar de Tommy para as águas cristalinas não nos deixa mentir: ele sabe que seu nêmesis não está morto, e mesmo que tivesse a mais absoluta certeza, isso não faria a menor diferença. Tommy é o reflexo do crime mais cruel de Jason, que o forçou a viver seis anos de sua vida fugindo de si mesmo, vendo o mal onde não havia e, de certa forma, quase sentindo-se alegre de confrontá-lo mais uma vez, de ter a certeza de que aqueles horrores não estavam mais somente em sua cabeça.

Todavia, ninguém acreditou que Jason havia retornado como um zumbi, e mais uma vez, Jarvis foi internado em um sanatório, de onde, novamente, conseguiu fugir, e seguiu foragido pelo país, criando inclusive um site, onde apontava avistamentos do assassino. No fim das contas, o trauma de Tommy mostrou-se tão imortal quanto o próprio Jason. Jarvis viveu em uma cicatriz que jamais se fechou.

Marion Crane: A Ganância Fatal

Marion Crane é a prova de que às vezes, a punição vem mesmo quando você decide mudar, e que o preço da maldade é sempre pago em sangue. No clássico Psicose (1960), Crane trabalhava como secretária na imobiliária de George Lowery, ficando responsável por guardar 40 mil dólares de um de seus clientes.

Ao ver tanto dinheiro diante de seus olhos, Marion sentiu sua moral ruir. Ela vinha se encontrando com seu amante, Sam Loomis, em um motel barato, implorando pelo seu tempo cada vez mais escasso. Loomis era um recém-divorciado, vivendo em pé de guerra com sua ex-esposa, precisando trabalhar cada vez mais para sustentá-la.

Ela era obrigada a ver homens e mulheres riquíssimos comprarem casas de luxo para si ou para seus filhos, sem que ela mesma pudesse ter 1% daquilo. Ela ansiava por livrar-se daquele estigma, mas lhe faltava coragem.

Com aquele dinheiro, Marion poderia fugir, reconstruir sua vida ao lado de Sam em qualquer lugar do país e finalmente ter o luxo que tanto almejava e que tanto invejava nos clientes de seu patrão. Ela, então, pega a mala e foge da cidade, lançando-se pelas estradas em uma viagem sem destino.

Inicialmente, ela sente uma crescente euforia, divertindo-se em imaginar a reação de seu chefe e seu cliente ao descobrir o roubo. Um limite havia sido ultrapassado, e ela não sentia suas consequências. Porém, no decorrer da viagem, a realidade começa a pressioná-la. Ela é parada por um policial, que a interroga brevemente, deixando-a sair, mas seguindo-a de perto.

O furor rebelde é substituído pelo medo e pela ansiedade da captura. Marion sabia que havia sim uma chance de punição. Esse temor se refletia em seu corpo, dirigindo cada vez mais rápido e olhando em volta, receosa de que alguém a estivesse seguindo.

Quando a chuva forte começa a cair, forçando-a a desacelerar, novos sentimentos se revelam. Sua consciência passa a falar com ela, por meio da voz de George, dizendo o quão boa, confiável e honesta ela era. Ao lembrar-se do quanto as pessoas a admiravam e do quão vil ela havia sido com elas, o arrependimento caiu sobre seus ombros com peso maior que a tempestade que rasgava os céus acima dela.

Desejo, medo, culpa, o coração de Marion tornou-se um verdadeiro mar de sentimentos, no momento em que ela parou diante do Bates Motel, buscando abrigo para a tempestade que inundava as ruas. Sem saber, as luzes piscantes do local não eram um sinal quente e acolhedor para um viajante perdido, e sim um frenético alerta.

Como única hóspede, Crane janta com o proprietário, o tímido Norman Bates, que desajeitadamente tenta seduzi-la, obviamente, sem sucesso. Bates comenta sobre o peso de cuidar de sua velha mãe e como aquela escolha o manteve preso naquele decadente motel.

Ela se via nele, presa a uma decisão gananciosa, que atormentava sua mente, mesmo sem ter sido capturada. Ela então decidiu devolver todo o dinheiro logo no dia seguinte. No entanto, ela jamais teve essa chance. O momento de sua redenção foi o mesmo do de sua punição.

Marion foi brutalmente assassinada por Norman, em mais uma de suas crises bipolares, tomado pela contraparte de sua mãe que habitava sua mente.

Marion teve a chance de voltar atrás, de desfazer o erro que havia cometido, mas, quando finalmente se arrependeu, já havia cavado fundo demais sua própria cova. Um destino injusto, para um mundo injusto.

Bates, ao mesmo tempo que lhe fez olhar para dentro de si mesma, acabou por mostrar-se o lado mais sombrio de seu erro, de alguém que já era incapaz de controlar seus próprios impulsos maliciosos e que usava-se de uma aparente fragilidade e confiabilidade para atrair mais vítimas.

No fim, a dor de Marion não foi ter insistido em seu erro, e sim, de não ter tido tempo de corrigi-lo.

Jason e o Puritanismo

Os anos 1980 foram uma década de intensas mudanças sociais, fruto maduro da revolução cultural iniciada nos anos 1960, que rompeu com diversos tabus que permeavam a sociedade por séculos. Nos cinemas, essas mudanças foram perceptíveis, especialmente no terror. Não era mais o momento dos suspenses à la Hitchcock, muito menos dos dramáticos monstros clássicos: era o momento dos assassinos mascarados e imortais, classe essa que Jason apresenta-se como maior ícone. Sexta-Feira 13 nasceu para surfar na onda de Halloween (1978) e tornou-se tão popular quanto a obra que o originou, herdando dela um dos clichês mais recorrentes do terror: quem transa, morre.

Obviamente, a nudez e a sexualidade nos filmes não tinham lá uma grande intenção narrativa, além de atrair mais garotos para o cinema (mesmo que não fosse para ver um filme de terror…), mas, fato é que essa construção tem um viés histórico curioso.

Ao longo dos séculos, o sexo fora do casamento e as outras "perversões" ligadas à juventude, como festas com abuso de álcool e drogas, foram motivo de repreensão por boa parte das vertentes religiosas, especialmente o puritanismo.

Mesmo em tempos mais liberais, como os anos 1980 em diante, tais achismos populares ainda mantinham-se firmes, mesmo que nas entrelinhas, como a franquia Sexta-Feira 13 deixa claro.

A própria morte de Jason ocorreu por afogamento, devido à negligência dos banhistas, que se distraíram com seus próprios desejos, ignorando suas obrigações. Dali em diante, Jason sempre priorizou eliminar aqueles que tinham os hormônios mais aflorados (que não foram poucos ao longo dos 12 filmes). Isso não era apenas uma vingança pessoal, era uma "limpeza" moral imposta pelo assassino.

Essa "caça às bruxas" em muito se assemelha às perseguições feitas por grupos conservadores durante as diversas revoluções sociais ocorridas em décadas anteriores.

Em Jason X (2001), o diretor, James Isaac, brincou com esse clichê, com os protagonistas aprisionando Jason em uma realidade virtual com duas garotas seminuas, dizendo frases um tanto sugestivas, mostrando que o assassino realmente tem uma fixação por eliminar tais pessoas, deixando inclusive de perseguir os mocinhos para destruí-las. Essa cena, por mais que no fundo seja um grande meme, é uma referência a toda a saga do assassino da Máscara de Hockey, em que esses elementos sempre foram mais fortes que em qualquer outra franquia clássica do terror, como Halloween ou Hora do Pesadelo.

O perfil de personagem que sobrevive em Sexta-Feira 13 (e na maioria dos slashers) é sempre a garota politicamente correta, que não transa, bebe, fuma ou desrespeita alguém, dadas raríssimas exceções, como Sidney Prescott de Pânico, que serve, na verdade, como uma sátira ao próprio clichê. Violam o código moral implícito que rege o universo dos slashers, geralmente são os primeiros a morrer, sendo essa uma crítica sutil à juventude moderna. Porém, tais críticas surgiram mais por pragmatismo industrial e por moralismo residual do público do que por intenção consciente dos roteiristas.

Crítica ou apelação por público, é inegável que as normas consolidadas por Sexta-Feira 13 se tornaram parte indissociável do gênero de terror nos cinemas.

O Iluminado e o Alcoolismo

Lançado por Stephen King em 1977, O Iluminado eternizou-se como um dos maiores clássicos do mestre do terror, chegando aos cinemas em 1980, pelas mãos de Stanley Kubrick.

Por mais que o autor tenha odiado a adaptação estrelada por Jack Nicholson (que ele disse ser uma péssima escolha de casting, por deixar o protagonista com cara de louco desde o início, algo com que eu devo concordar…), tornou-se tão popular quanto a obra que a baseou, apesar do fracasso a curto prazo, rendendo-lhe inclusive duas indicações para a primeira edição do Framboesa de Ouro: Pior diretor para Stanley Kubrick e Pior atriz para Shelley Duvall.

Em ambas as versões (mais fortemente no livro), fica em aberto o motivo da insanidade de Jack Torrance: seu vício em álcool somado à sua natureza desequilibrada ou uma possessão pelas entidades presentes no Hotel Overlook?

Como fica claro, o hotel construído sobre um antigo cemitério indígena (que já rendeu várias teorias da conspiração) tem uma aura sombria, tendo em vista que já houve diversos acontecimentos bizarros entre suas paredes, como, por exemplo, o triplo homicídio, seguido de suicídio, cometido por Delbert Grady, primeiro zelador do Overlook (curiosamente, ocupava o mesmo cargo que Jack…).

Você deve estar se perguntando: como é possível não haver algo sobrenatural, sendo que Jack, Wendy e Danny viram diversos acontecimentos paranormais nos corredores do hotel e diversos crimes bizarros e aparentemente inexplicáveis já ocorreram nele? Bom, isso pode ser explicado por um distúrbio conhecido como "febre da cabana", que se baseia em um aumento no estresse e na tensão psicológica, que pode levar a alucinações, como as que eles vivenciaram.

Jack já havia agredido seu filho anteriormente (em meio a mais uma recaída ao álcool) e passava por uma crise existencial, acreditando piamente que esse isolamento faria bem não só para ele, como para a sua família, fortalecendo seus laços. Porém, a rotina de repetição interminável e o convívio exaustivo só fizeram aflorar o horror que já habitava sua mente.

Mas, se a mente de Jack pode ser explicada psicologicamente, Danny representa outra camada do problema. O filho de Jack e Wendy é parte de um grupo raríssimo conhecido como "os iluminados", sendo capaz de falar com espíritos e comunicar-se diretamente por meio de telepatia com seus pares, como ele faz com Dick Halloran.

Devido a essa maior sensibilidade, ele acaba sendo até mesmo agredido por tais espíritos, mostrando com clareza que nem tudo que eles vivenciaram naqueles meses de isolamento era fruto de suas imaginações.

O filme explicita ainda mais a natureza sobrenatural do Overlook, no momento em que Torrance é preso na dispensa por Wendy, e algo inexplicável abre a porta para ele, deixando claro: existe algo a mais naquele local. Esse elemento inegavelmente sobrenatural foi uma das críticas de King ao filme, dizendo que teria lhe destituído da aura de mistério.

Pessoalmente, creio que seja inegável a existência do sobrenatural em O Iluminado, mas isso não isenta Jack e sua família de terem sido vítimas de seus próprios vícios e distúrbios psicológicos.

A ideia, tanto de King quanto de Kubrick, foi promover uma analogia entre os vícios reais e o paranormal. Demonstrando como a fraqueza psicológica (como o alcoolismo) pode transformar um "cidadão de bem" em uma aberração, como ocorreu com Jack ao final de ambas as obras. E, além disso, mostra como o convívio dos familiares com pessoas em tais condições pode levá-los a quadros psicológicos ainda mais graves (como as "visões" de Danny, que, em nossa realidade, podem associar-se a um quadro de esquizofrenia).

Em última instância, o Overlook reflete apenas aquilo que cada um leva dentro si.

E você, acha que foi tudo um devaneio dos três? Ou realmente havia algo sobrenatural agindo sobre eles?

A Bruxa: Quando o Fanatismo se Torna Sobrenatural

Thomasin talvez seja o exemplo máximo de quando a busca incansável pela pureza acaba fazendo com que o ser humano busque pelo mal como alívio para sua própria obsessão.

Os pais de Thomasin, William e Katherine, foram expulsos de seu vilarejo na Nova Inglaterra, devido ao seu fanatismo doentio pela região. Para eles, o demônio estava a tentá-los a cada momento, e o pecado se fazia presente em cada infortúnio. Para eles, a vida era uma grande blasfêmia, da qual apenas o isolamento era capaz de protegê-los. Seu orgulho e falsa justiça rapidamente cobrariam seu preço.

O casal manteve a si mesmo e a seus filhos, Thomasin, Mercy, Jonas e Caleb, totalmente isolados do mundo, sem conhecer nada além da sua casa, sua pequena fazenda e a floresta negra que servia como escudo para o "mal" que havia ao redor deles, mas que, na verdade, os mantinha acorrentados ao seu próprio.

Para eles, pouco importam os valores bíblicos; o medo, esse sim, era o centro de sua "fé". O temor de que o Senhor iria destruí-los por quaisquer erros doutrinou sua crença, e o mesmo princípio foi passado aos seus filhos. O amor, a caridade e a empatia foram subjugados por um eterno clamor por piedade, que, por mais legítimo que fosse, parecia servir apenas para mascarar duas pessoas incapazes de coexistir com suas próprias falhas.

Como a filha mais velha da família, Thomasin viveu pressionada por sua mãe, que insistia que ela não era devota o bastante a Deus e à sua família, e quando seu irmão recém-nascido, Samuel, desapareceu sob seus cuidados, a pressão apenas cresceu, com Katherine acusando sua filha de envolver-se com forças malignas. Até mesmo Mercy e Jonas passam a ver a irmã com desprezo, tamanha a toxicidade da família.

O que eles não percebiam era que sua própria obsessão estava atraindo essas ditas forças até eles. O cabrito Black Phillip e a conhecida bruxa da floresta, vistos por muitos como alegorias para o demônio, no fundo, são reflexos da insanidade daquela família, que, por escolha própria, isolou-se e, em seus devaneios, chamavam o mal para sentar-se à mesa com eles.

O "amor" de Katherine e William para com Deus era, na verdade, um mecanismo de controle que usavam com seus filhos, utilizando o medo para mantê-los na linha. Um pacto sombrio, disfarçado de amor.

O mal não simplesmente entra em sua casa e os destrói, pelo contrário, ele planta a discórdia, tenta com prazeres, e aproveita-se da divisão cada vez maior da família, para trazê-los um a um para ele.

Caleb, que havia acabado de entrar na puberdade, passa a nutrir desejos sexuais por sua irmã, sendo ela, a única garota próxima a sua idade que conhecia. O subtexto incestuoso é, na verdade, fruto do isolamento. Ambos deveriam estar vivendo tais descobertas em sociedade, mas o isolamento ao qual foram submetidos acabou por distorcer esses princípios e gerar sentimentos que não deveriam existir.

Até mesmo Katherine passa a ver sua filha como uma espécie de "concorrente" dentro de sua própria casa, o que apenas reforça o quão insana a família se tornava.

Quando Caleb se perde na mata e é encontrado nu e delirante por sua família, dizendo estar apaixonado por Thomasin, e no momento de sua morte, parece até mesmo ter tido um orgasmo, o balde enfim transbordou. Thomasin agora era vista como uma feiticeira, que havia trazido o pecado para dentro de sua casa e pervertido seu irmão com sua malícia.

William, então, aprisiona Thomasin, Black Phillip e os gêmeos Mercy e Jonas em seu celeiro. Sua última tentativa de aprisionar o mal acabou por libertá-lo definitivamente.

A velha bruxa os liberta, e mata os gêmeos, William é morto por Phillip e Thomasin mata sua mãe no momento em que ela tenta enforcá-la. Sua família agora já não existia mais, e a única coisa familiar que lhe restava era o cabrito, que agora a levava nua até a floresta que sempre temeu, mas que agora parecia chamá-la.

Esse momento profano é a conclusão do fracasso de seus pais. Sua falsa tentativa de proteger sua filha havia a entregado nos braços do mal, a quem ela agora havia, como a única coisa capaz de acolhê-la.

Pulando em torno da fogueira, Thomasin selou seu destino e tornou-se aquilo que jamais foi ou quis ser, mas do que sempre foi acusada: uma bruxa, e os valores distorcidos que permearam sua vida fizeram-na sentir prazer naquela escolha.

Caleb caiu pela luxúria, fruto do isolamento imposto por seus pais. William caiu pelo orgulho, que o afastou da comunidade e, principalmente, de Deus, e condenou sua família. Katherine caiu pela inveja da beleza e vitalidade de sua filha. Mercy e Jonas caem pela ira e preguiça. Black Phillip é a vaidade, uma vez que é a forma pura e soberba do mal. Samuel, um bebê puro, simboliza o pecado original, cuja morte retrata a "queda do paraíso" para a família, que, desde então, passa a viver seus piores dias. E Thomasin caiu pela ganância, aceitando a promessa das trevas em viver deliciosamente livre de amarras.

A obra exemplifica que, por mais que a fé cristã seja basilar em muitas famílias e lhes dê mérito, qualquer coisa, mesmo uma coisa boa, em excesso, pode ser fatal, ainda mais quando usada como ferramenta de controle. O puritanismo exagerado do casal deixou seus filhos cegos para o mundo, desprotegendo-os ao invés de fortalecê-los, e quando o mal lhes estendeu a mão, Thomasin e Caleb se lançaram aos seus braços sem pensar duas vezes.

No final, eles não somente se corromperam pelo mal, como também, viram nele o acolhimento que sua família e sua fé haviam lhes negado.

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